DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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príncipe de Orange, do rei Henrique III, do rei Henrique IV e de tantos outros
foram energúmenos enfermos da mesma raiva de Diaz
 O mais detestável exemplo de fanatismo é aquele dos burgueses de Paris que correram a assassinar,
degolar, atirar pelas janelas, despedaçar, na noite de São Bartolomeu, seus concidadãos que não iam à
missa. Há fanáticos de sangue frio: são os juizes que condenam à morte aqueles cujo único crime é
não pensar como eles; e esses juizes são tanto mais culpados, tanto mais merecedores da execração do
gênero humano, quanto, não estando tomados de um acesso de furor como os Clément, os Chatêl, os
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Ravaillac, os Gérard, os Damien, parece que poderiam ouvir a razão.
 Quando uma vez o fanatismo gangrenou um cérebro a doença é quase incurável. Eu vi
convulsionários que, falando dos milagres de S. Páris, sem querer se acaloravam cada vez mais; seus
olhos encarniçavam-se, seus membros tremiam, o furor desfigurava seus rostos e teriam morto quem
quer que os houvesse contrariado.
 Não há outro remédio contra essa doença epidêmica senão o espírito filosófico que, progressivamente
difundido, adoça enfim a índole dos homens, prevenindo os acessos do mal porque, desde que o mal fez
alguns progressos, é preciso fugir e esperar que o ar seja purificado. As leis e a religião não bastam
contra a peste das almas; a religião, longe de ser para elas um alimento salutar, transforma-se em veneno
nos cérebros infeccionados. Esses miseráveis têm incessantemente presente no espírito o exemplo de
Aode, que assassina o rei Eglão; de Judite, que corta a cabeça de Holoferne quando deitada com ele; de
Samuel, que corta em pedaços o rei Agague. Eles não vêem que esses exemplos respeitáveis para a
antigüidade são abomináveis na época atual; eles haurem seus furores da mesma religião que os condena.
 As leis são ainda muito impotentes contra tais acessos de raiva; é como se lêsseis um aresto do
Conselho a um frenético. Essa gente está persuadida de que o espírito santo que os penetra está acima das
leis e que o seu entusiasmo é a única lei a que devem obedecer.
 Que responder a um homem que vos diz que prefere obedecer a Deus a obedecer aos homens e que,
consequentemente, está certo de merecer o céu se vos degolar?
 De ordinário, são os velhacos que conduzem os fanáticos e que lhes põem o punhal nas mãos:
assemelham-se a esse Velho da Montanha que fazia - segundo se diz - imbecis gozarem as alegrias do
paraíso e que lhes prometia uma eternidade desses prazeres que lhes havia feito provar com a condição
de assassinarem todos aqueles que ele lhes apontasse. Só houve uma religião no mundo que não foi
abalada pelo fanatismo, é a dos letrados da China. As seitas dos filósofos estavam não somente isentas
dessa peste como constituíam o remédio para ela: pois o efeito da filosofia é tornar a alma tranqüila e o
fanatismo é incompatível com a tranqüilidade. Se a nossa santa religião tem sido freqüentemente
corrompida por esse furor infernal, é à loucura humana que se deve culpar.
Assim, das asas que teve,
Ícaro perverteu o uso;
teve-as para seu bem
e as empregou em seu dano.
(Bertaud, bispo de Séez).
FIM, CAUSAS FINAIS
 Parece que seria preciso estar fora de si para negar que os estômagos sejam feitos para digerir, os
olhos para ver e os ouvidos para ouvir. De outro lado, é preciso ter um estranho amor às causas finais
para afirmar que a pedra foi feita para construir casas e que os bichos da seda nasceram na China para
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que tenhamos cetim na Europa.
 Mas, objeta-se, se Deus fez visivelmente uma coisa preconcebida, fez portanto todas as outras com
um desígnio. É ridículo admitir a Providência num caso e negá-la em outros. Tudo o que está feito foi
previsto, coordenado. Nenhuma coordenação há sem objeto, nenhum efeito sem causa; portanto tudo é
igualmente o resultado, o produto de uma causa final; portanto é tão verdadeiro dizer que os narizes
foram feitos para levar lunetas e os dedos para ser ornados de diamantes quanto é verdade que os ouvidos
foram feitos para ouvir os sons e os olhos para receber a luz.
 Creio ser muito fácil esclarecer essa dificuldade. Quando os efeitos são invariáveis em todo lugar e
em todos os tempos, quando esses efeitos uniformes são independentes dos seres a que pertencem, então
existe uma causa final visível.
 Todos os animais têm olhos, e enxergam; todos têm uma boca com a qual comem; um estômago ou
coisa semelhante, pelo qual digerem; todos, um orifício que expele os excrementos, todos um órgão
gerador: e esses dons da natureza operam neles sem auxílio de meios artificiais. Eis ai causas finais
claramente estabelecidas, e seria perverter nossa faculdade de pensar pretender negar uma verdade tão
universal. Porém as pedras, em toda parte e em todos os tempos, não fazem construções. Nem todos os
narizes levam lunetas. Nem todos os dedos têm anel; nem todas as pernas são cobertas por uma meia de
seda. Um bicho de seda, portanto, não foi criado para cobrir as pernas assim como a vossa boca foi feita
para comer e vosso posterior para ir à secreta. Existem, pois, efeitos produzidos por causas finais e
grande número de outros que não o são.
 Porém tanto uns como outros figuram igualmente no plano da providência geral: nada sem dúvida
pode ser feito mau grado seu, nem mesmo sem ela. Tudo que pertence à natureza é uniforme, imutável, é
obra imediata do Senhor; foi ele quem criou leis pelas quais a Lua entra em três quartos nas causas do
fluxo e do refluxo do oceano e o Sol no quarto; foi ele que deu movimento de rotação ao Sol, mediante o
qual esse astro envia, em cinco minutos e meio, raios de luz aos olhos dos homens, dos crocodilos e dos
gatos.
 Mas se depois de tantos séculos nós nos lembramos de inventar tesouras e espetos, de tosquiar com
umas a lã dos carneiros e de os cozer com os outros para comê-los, que outra coisa se pode inferir senão.
que Deus nos fez de modo que um dia nos tornássemos necessariamente industriosos e carniceiros?
 Naturalmente os cordeiros não foram feitos de forma alguma para ser cozidos e comidos, porquanto
grande número de nações se abstêm dessa coisa horrorosa; os homens não foram criados essencialmente
para se chacinarem, pois os brâmanes e os quakers não matam ninguém; mas a massa de que somos
feitos produz morticínios freqüentes, assim como produz calúnias, vaidades, persecuções e
impertinências. Não que a formação do homem seja precisamente a causa final de nossos furores e de
nossas tolices: porque uma causa final é invariável em todos os tempos e lugares; porém os horrores e os
absurdos da espécie humana não figuram menos na ordem eterna das coisas. Quando batemos o trigo, o
batedor é a causa final da separação do grão. Mas se esse batedor, batendo o grão, esmaga também
milhares de insetos, não é por nossa vontade determinada, nem tão pouco por acaso: é que esses insetos
se encontraram nessa ocasião sob o nosso cacete e aí deviam estar.
 É em virtude da natureza das coisas que um homem é ambicioso, que esse homem arregimenta
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algumas vezes outros homens, que seja vencedor ou que seja batido; mas jamais se poderá dizer: o
homem foi criado por Deus para ser morto na guerra.
 Os instrumentos que a natureza nos deu não podem ser sempre causas finais em movimento, que
tenham efeito infalível. Os olhos, dados para ver, não estão sempre abertos; cada sentido tem seus
momentos de repouso. Existem até sentidos que nunca usamos. Por exemplo, uma pobre imbecil,
encerrada num convento aos catorze anos, fecha para si a porta de onde deveria sair uma nova geração,
para sempre; mas a causa final não deixa de subsistir, ela agirá logo que seja