DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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quer dizer sopro, não lhe dando nome melhor por não teres a menor idéia
do que seja?
 Olha este grão de trigo que lanço à terra e dize-me como cresce para produzir uma haste apendoada de
uma espiga. Explica-me como a mesma terra produz uma maçã no alto daquela arvore e naqueloutra uma
castanha. Poderia desfiar-te um infólio de
perguntas a que não deverias responder senão por estas palavras: Nada sei. No entanto tu colaste grau,
arreias chapéu alto e envergas nasóculos, e te chamam mestre.
 E aquele outro impertinente, por ter comprado um cargo, presume haver comprado o direito de julgar
e condenar o que não entendei A divisa de Montaigne era: Que sei eu? A tua é: Que não sei eu?
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GLÓRIA
 Ben al Betif, digno chefe dos dervís, disse-lhes um dia: "Meus irmãos, muito conveniente é que useis
com toda freqüência esta fórmula sagrada do nosso Alcorão: Em nome de Deus mui misericordioso, pois
Deus usa de misericórdia e vós aprendereis a praticá-la com repetir freqüentemente os termos que
recomendam uma virtude sem a qual poucos homens restariam sobre a terra. Mas, meus irmãos,
abstende-vos de imitar esses temerários que a todo transe se jactam de trabalhar pela glória de Deus. Se
um jovem imbecil sustenta uma tese sobre as categorias, tese presidida por um ignorante encasacado, não
deixa de escrever em grossos caracteres no cabeçalho de sua tese: Ek Allah abron doxa: ad majorem Dei
gloriam. Um bom muçulmano fez pintar o seu salão gravando em sua porta essa tolice; um saca carrega
água para maior glória de Deus. É um costume ímpio, piedosamente posto em uso. Que diríeis de um
pequeno tchauch que ao limpar a privada do nosso ilustre sultão gritasse: "Para maior glória do nosso
invencível monarca"? Há certamente maior distância do sultão a Deus que do sultão ao pequeno tchauch.
 "Que tendes de comum, vermes miseráveis da terra chamados homens, com a glória do Ser Infinito?
Pode ele amar a glória? Pode recebê-la de vós? Pode saboreá-la? Até quando, bípedes implumes, fareis
Deus. à vossa imagem? Como!. Por serdes vãos, porque amais a glória, pretendeis que Deus a ame
também Se existissem vários deuses, cada um deles, é possível, poderia desejar obter o sufrágio dos seus
semelhantes. Seria essa a glória de Deus. Se se pudesse comparar a grandeza infinita com a extrema
baixeza, esse Deus seria como o rei Alexandre ou Scander, que não desejava entrar em lide senão com
reis. Mas vós, pobres diabos, que glória poderíeis dar a Deus? Cessai de profanar o seu nome sagrado.
Um imperador chamado Otávio Augusto proibiu que o louvassem nas escolas de Roma por temer que
seu nome fosse envilecido. Mas vós não podeis nem envilecer o ente supremo nem honrá-lo.
Humilhai-vos, adorai e calai-vos".
 Assim falou Ben al Betif; e os dervis exclamaram: "Glória a Deus! Ben al Betif bem falou".
GRAÇA
 Consultores sagrados da Roma moderna, ilustres e infalíveis teólogos, ninguém mais do que eu
respeita vossas divinas decisões; mas se Paulo Emílio, Cípião, Catão, Cícero, César, Tito, Trajano,
Marco Aurélio tornassem a essa Roma a que dedicavam outrora certo crédito, havíeis de dizer-me que
ficariam um tanto admirados de vossas decisões sobre as graças. Que diriam eles se ouvissem falar da
graça de saúde segundo Sto. Tomás e da graça medicinal segundo Cajetan; da graça exterior e interior, da
graça gratuita, da santificante, da atual, da habitual, da cooperante; da eficaz, que algumas vezes não
surte efeito; da suficiente, que às vezes não basta; da versátil e da côngrua? Em boa fé, compreenderiam
eles mais do que eu e vós?
 Que necessidade teriam esses pobres homens de vossas instruções sublimes? Parece-me ouvi-los
dizer:
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 Meus reverendos padres, sois uns gênios terríveis; pensávamos tolamente que o Ser Eterno não se
guia jamais pelas leis particulares como os vís humanos, mas sim por suas leis gerais, eternas como eles.
Nenhum de nós jamais imaginou que Deus se assemelhasse a um suserano insensato que concede um
pecúlio a um escravo e recusa alimentação a outro; que ordena ao maneta amassar-lhe a farinha, a um
mudo que lhe leia o jornal, a um perneta que lhe sirva de mensageiro.
 Tudo é graça da parte de Deus. Fez, ao globo que habitamos, a graça de formá-lo; às árvores, a graça
de fazê-las crescer; aos animais a de os nutrir. Mas, - dir-se-á - no caso de um lobo encontrar no seu
caminho um cordeiro para seu almoço, enquanto outro lobo morre de fome, terá feito Deus a esse
primeiro lobo uma graça particular? Ter-se-á ocupado, por uma graça obsequiosa, em fazer nascer um
carvalho de preferência a outro carvalho ao qual faltou seiva? Se em toda a natureza todos os seres estão
sujeitos às leis gerais, por que motivo uma única espécie constituiria exceção? Por que deveria o senhor
absoluto de tudo ocupar-se mais em dirigir o interior de um único homem do que conduzir o resto da
natureza inteira? Por que extravagância mudaria ele alguma coisa no coração de um curlandês ou
biscainho, enquanto nada modifica das leis que impôs a todos os astros?
 Que miséria o supor que ele faz, desfaz, refaz continuamente nossos sentimentos! E que audácia o nos
julgarmos à parte de todos os seres! Ainda não é senão para aqueles que confessam serem todas essas
mudanças imaginadas. Um savoiano, um bergamásio, terá na segunda feira a graça de mandar dizer uma
missa por doze soldos; na terça irá à tasca, e a graça lhe faltará; na quarta terá uma graça cooperante que
o conduzirá à confissão, mas não terá a graça eficaz da contrição perfeita; na quinta feira haverá uma
graça suficiente que não lhe bastará, como já dissemos. Deus trabalhará continuamente no cérebro desse
bergamásio, ora com energia, ora debilmente, e o resto da terra nada será para ele! Não se dignará
imiscuir-se no interior dos hindus e dos chineses! Se ainda vos sobrar uma partícula de razão, meus
reverendos padres, não achais esse sistema prodigiosamente ridículo?
 Desgraçados, vede esse carvalho que alevanta a fronde às nuvens e esse caniço que rasteja a seus pés!
Não direis que a graça eficaz foi dada ao carvalho e faltou ao caniço. Elevai os olhos ao céu, vede o
eterno demiurgo criando milhões de mundos que gravitam todos entre si mercê de leis gerais e eternas.
Vede a mesma luz refletir-se do Sol a Saturno e de Saturno a nós; e, nesse acordo de tantos astros
arrastados por uma rápida corrente, nessa obediência geral de toda a natureza, ousai crer, se o puderdes,
que Deus se ocupa em conceder uma graça versátil a sóror Teresa e uma graça concomitante a sóror Inês.
 Átomo, a quem um tolo átomo disse que o Eterno tem leis particulares para alguns átomos de tua
vizinhança; que ele concede sua graça àquele e nega-a a este; que aquele que não possuía graça ontem
te-la-á amanhã, - não repitas essa tolice. Deus fez o universo e não criará ventos novos para remover
alguns gravetos de palha num canto desse universo. Os teólogos são como os combatentes de Homero,
que acreditavam que seus deuses ora se armavam contra eles, ora a seu favor. Se Homero não fosse
considerado como poeta, se-lo-ia como blasfemador.
 É Marco Aurélio quem fala e não eu: porque Deus, que vos inspira, me concede a graça de acreditar
em tudo o que dizeis, tudo o que tendes dito, tudo o que disserdes.
GUERRA
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 A miséria, a peste e a guerra são os três ingredientes mais famosos deste mundo vil. Podem-se colocar
na classe da miséria todas as más alimentações a que a penúria nos força a recorrer para abreviar nossa
vida na esperança de a suster.
 Compreendem-se na peste todas as doenças contagiosas, que são em número de, dois ou três mil.
Esses dois presentes nos vêm da Providência, A guerra, porém, que