DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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que as imagens sensíveis e
os hieróglifos são da mais alta antigüidade; outra, que todos os filósofos antigos reconheceram um
primeiro princípio.
 Quanto ao politeísmo, o bom senso vos dirá que, desde que existiram homens, isto é, frágeis animais
capazes de razão e de loucura, sujeitos a todos os acidentes, à doença e à morte, esses homens sentiram
sua fraqueza e sua dependência; reconheceram facilmente a existência de alguma coisa mais poderosa
que eles; sentiram uma força na terra que fornece seus alimentos, uma no ar que os destrói com
freqüência, uma no fogo que consome e na água que submerge. Que mais natural, em homens ignorantes,
que o imaginar seres que presidissem a esses elementos? Que mais natural que venerar a força invisível
que fazia luzir diante dos olhos o Sol e as estrelas? E, desde que se desejou formar uma idéia dessas
forças superiores ao homem, que mais natural ainda que o figurá-las de uma maneira sensível? Poderia
ser de outra forma? A religião judaica, que precedeu à nossa e que foi dada por Deus, estava repleta
dessas imagens sob as quais se representa Deus. Ele se digna falar num espinheiro a linguagem humana;
aparece sobre uma montanha; os espíritos celestes que envia vêem todos sob forma humana; enfim o
santuário está repleto de querubins, que são corpos de homens com asas e cabeças de animais. É o que
deu lugar ao erro de Plutarco, Tácito e tantos outros que reprovaram aos judeus o adorar uma cabeça de
asno. Deus, apesar de sua proibição de se pintarem e esculpir figuras, dignou-se pois proporcionar-se à
fraqueza humana, que solicitava que se lhe falasse aos sentidos por meio de imagens.
 Isaías, no cap. 6, vê o Senhor sentado sobre um tronco e a cauda de seu vestido que enchia o templo.
O Senhor estende sua mão e toca a boca de Jeremias, no capítulo 1 desse profeta. Ezequiel, no capítulo 3,
vê um trono de safira, e Deus lhe aparece como um homem sentado em seu trono. Essas imagens não
alteram em nada a pureza da religião, que jamais empregou quadros, estátuas, ídolos, para representar
Dicionário Filosófico.
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Deus aos olhos do povo.
 Os letrados chineses, os parsis, os antigos egípcios não tiveram ídolos; mas em breve Isis e Osiris
foram figurados; em breve Bel, em Babilônia, foi um grande colosso; Brama foi um estranho monstro na
península da Índia. Os gregos principalmente multiplicaram os nomes dos deuses, as estátuas e os
templos, mas sempre atribuindo a suprema potência a seu deus Zeus, chamado pelos latinos Júpiter,
senhor dos deuses e dos homens. Os romanos imitaram os gregos. Esses povos colocaram sempre todos
os deuses no céu, sem saber que é que entendiam pelo céu e pelo seu Olimpo; não havia o mínimo
indício de que esses deuses habitassem nas nuvens, que apenas são água. Colocaram-se, primeiro, sete
deuses em sete planetas; porém ao depois a morada de todos os deuses foi a amplidão celeste.
 Os romanos tiveram seus doze grandes deuses, seis varões e seis fêmeas, a que chamaram Dii
majorum gentium: Júpiter, Netuno, Apolo, Vulcano, Marte, Mercúrio; Juno, Vesta, Minerva, Ceres,
Vênus, Diana. Plutão foi então esquecido; Vesta tomou seu lugar.
 Em seguida vinham os deuses minorum gentium, os deuses indígetes, os heróicos, como Baco,
Hércules, Esculápio; os deuses infernais, Plutão, Prosérpina; os do mar, como Tetis, Anfitrite, as
Nereidas, Glauco; depois as Dríadas, as Náiadas; os deuses dos jardins, dos pastores. Havia-os para cada
profissão, para cada ação da vida, para as crianças, para as jovens casadouras, para as casadas, para as
amantes; houve o deus Pete. Divinizaram-se por fim os imperadores. Nem esses imperadores, nem o deus
Pete, nem a deusa Pertunda, nem Príapo, nem Rumília, a deusa das tetas, nem Estercútio, o deus do
guarda-roupa, foram na verdade considerados como senhores do céu e da terra. Os imperadores tiveram
templos algumas vezes, os pequenos deuses domésticos não os tiveram; mas todos tiveram sua figura,
seu ídolo.
 Tratava-se de pequenos bonecos com os quais se ornavam os gabinetes; brinquedos para velhas e
crianças, que não estavam autorizados por nenhum culto público. Deixava-se que cada particular tivesse
as superstições que melhor lhe agradassem. Encontram-se ainda esses pequenos ídolos nas ruínas das
cidades antigas.
 Se ninguém sabe quando os ídolos começaram a ser fabricados, sabe-se em compensação que
remontam à mais alta antigüidade. Tareu, pai de Abraão, construiu Ur, na Caldéia. Raquel roubou e
carregou os ídolos de seu avô Labão. Não é possível ir mais longe.
 Mas que noção precisa tinham as nações antigas a respeito desses simulacros? Que virtude, que
potência lhes atribulam? Julgava-se que os deuses desciam do céu para se meterem nessas estátuas, ou
que lhes comunicavam uma parte do espírito divino, ou que não lhes comunicavam coisa alguma? É este
também um assunto sobre o qual se tem escrito inutilmente; é claro que cada homem julgava segundo a
sua parcela de razão, ou de credulidade, ou de fanatismo. É evidente que os padres ligaram as divindades
o mais que puderam às suas estátuas, a fim de conseguirem maior número de oferendas. Sabe-se que os
filósofos reprovavam essas superstições, que os guerreiros as escarneciam, que os magistrados as
toleravam e que o povo, sempre absurdo, não sabia que fazer com elas. É esta em poucas palavras a
história de todas as nações a quem Deus não se fez conhecer.
 Pode-se fazer a mesma idéia do culto que todo o Egito rendia a um boi e que várias cidades renderam
a um cão, a um símio, a um gato, a cebolas. Há muita aparência de que de começo tenham servido como
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emblemas. Em seguida um certo boi Apis, um certo cão chamado Anubis, foram adorados; comia-se
diariamente carne de boi e cebolas; é porém muito difícil saber que pensavam as velhas do Egito a
respeito dos bois e das cebolas sagradas.
 Os ídolos falavam com freqüência. Comemoravam-se em Roma, no dia da festa de Cibele, belas
palavras que a estátua pronunciara ao ser transladada do palácio do rei Atálio.
Ipsa peti volui; ne sit mora, mitte volentem:
dignus Roma locus quo deus omnis eat(41).
 Eu quis que me levassem, levai-me depressa; Roma é digna de que todos os deuses se estabeleçam
nela.
 A estátua da Fortuna falara: os Cipiões, os Cíceros; os Césares, na: verdade, não acreditavam; mas a
velha a quem Encolpo deu um escudo a fim de que comprasse gansos e deuses bem poderia acreditá-lo.
 Os ídolos também concediam oráculos, e os sacerdotes metidos no oco das estátuas falavam em nome
da Divindade.
 Como, no meio de tantos deuses e de tantas teogonias diferentes e de cultos particulares, jamais houve
guerras de religião entre os povos chamados idólatras? Essa paz foi um bem que nasceu de um mal, do
erro mesmo: porque, reconhecendo cada nação vários deuses inferiores, achou bom que os seus vizinhos
tivessem também os seus. Se excetuardes Cambises, a quem se reprova o haver matado o boi Apis, não
encontramos na história profana nenhum conquistador que tenha maltratado os deuses de um povo
conhecido. Os gentios não tinham nenhuma religião exclusiva, e os sacerdotes pensavam apenas em
multiplicar as oferendas e os sacrifícios.
 As primeiras oferendas foram frutos. Em breve foram necessários animais para a mesa dos sacerdotes;
eles próprios os degolavam; tornaram-se carniceiros, e cruéis; enfim introduziram o costume horrível de
sacrificar vitimas humanas e sobretudo crianças e mocinhas. Jamais os chineses nem os parsis nem os
hindus foram culpados de tais abominações; mas em Hierópolis, no Egito, Segundo Porfírio, se imolaram
homens.
 Na Táurida sacrificavam-se os estrangeiros; felizmente os sacerdotes da Táurida não deviam ter
muitas práticas. Os primeiros gregos, os cipriotas, os fenícios, os tirenses, os cartagineses tiveram essa
superstição abominável.