DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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entregar nações estrangeiras, degolai a todos. Não poupeis um só homem. Não
tenhais piedade de ninguém.
 "Não comais aves impuras como a águia, o grifo, o ixiao.
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 "Não comais animais que ruminem e que não tenham a unha fendida, como o camelo, a lebre, o porco
espinho, etc.
 "Observando todos os preceitos sereis abençoados na cidade como no campo. Abençoados serão os
frutos do vosso ventre, da vossa terra, dos vossos animais...
 "Se não observardes todos os mandamentos e todas as cerimônias, amaldiçoados sereis na cidade
como no campo... Padecereis fome, pobreza. Morrereis de miséria, de frio, de penúria, de febre. Tereis
ronha, rabugem, fístula. Tereis úlceras nos joelhos e na barriga das pernas.
 "O estrangeiro vos emprestará a onzena, e vós não lhe emprestareis a onzena... Por não servirdes ao
Senhor.
 "E comereis o fruto do vosso ventre. A carne dos vossos - filhos, etc. ".
 É manifesto nada haver em todas essas promessas e ameaças que não seja temporal. Nem uma palavra
sobre imortalidade da alma. Nem uma palavra sobre vida futura.
 Muitos comentadores ilustres foram de parecer que Moisés estava perfeitamente avisado destes dois
grandes dogmas. Provam-no com palavras de Jacó, que julgando que seu filho fora devorado pelas feras,
exclamou em sua dor: "Eu acompanharei meu filho à sepultura, in infernum, ao inferno". Isto é: eu
morrerei, já que meu filho morreu.
 Provam-no ainda com trechos de Isaías e Ezequiel. Porém os hebreus a quem falava Moisés não
podiam ter lido Ezequiel nem Isaías. Porque Ezequiel e Isaías só viveram muitos séculos depois.
 Inútil discutir quanto aos sentimentos secretos de Moisés. O fato é que nas leis públicas ele nunca
falou de vida futura. Todos os castigos, todos os prêmios, restringe-os ao presente. Se conhecia a vida
vindoura, por que não expôs expressamente tão importante dogma? E se não a conheceu, qual o objeto de
sua missão? É o que perguntam muitas personagens ilustres. E respondem que o Mestre de Moisés e de
todos os homens se reservava o direito de explicar a bom tempo aos judeus uma doutrina que eles não
estavam em condições de compreender quando no deserto.
 Houvesse Moisés anunciado o dogma da imortalidade da alma, não o teria combatido uma grande
escola de judeus. Não teria sido autorizada pelo estado a grande escola dos saduceus. Os saduceus não
teriam ocupado os primeiros cargos. De seu seio não teriam saído grandes pontífices.
 Parece que só depois da fundação de Alexandria os judeus se cindiriam em três seitas: fariseus,
saduceus, essênios. Ensina o historiador fariseu José no livro 13 das Antigüidades que os fariseus
acreditavam na metempsicose. Criam os saduceus que a alma se extinguia com o corpo. Para os essênios
- é ainda José quem o afiança - a alma era imortal; segundo eles as almas, sob forma aérea, desciam do
fastígio do firmamento violentamente atraídas pelos corpos. Após a morte as almas das pessoas boas iam
morar além oceano, num país onde não fazia calor nem frio, não ventava nem chovia. Lugar de todo em
todo oposto era o desterro das almas ruins. Tal a teologia dos judeus.
 Aquele que devia ensinar todos os homens veio condenar essas três seitas. Sem ele, porém, jamais
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saberíamos coisa alguma da própria alma. Porque os filósofos nunca souberam nada certo e Moisés,
único verdadeiro legislador do mundo antes do nosso, Moisés que falava com Deus face a face e não o
via senão pelas costas, deixou os homens em profunda ignorância dessa magna questão. Há apenas mil e
setecentos anos que estamos certos da existência e imortalidade da alma.
 Cícero não tinha mais que dúvidas. Seus netos aprenderam a verdade com os primeiros galileus que
arribaram a Roma.
 Mas antes disso, e até depois disso em todo o resto da terra onde não penetraram os apóstolos, cada
um devia dizer à própria alma: Que és tu? De onde vens? Que fazes? Para onde vais? Tu és não sei que,
que pensa e que sente. Mas ainda que pensasses e sentisses cem bilhões de anos, nada saberias por tuas
próprias luzes, sem o auxílio de Deus.
 Homem! Deus outorgou-te o entendimento para bem procederes e não para penetrares a essência das
coisas por ele criadas.
AMIZADE
 Contrato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. Sensíveis porque um monge, um solitário,
pode não ser ruim e viver sem conhecer a amizade. Virtuosas porque os maus não adjungem mais que
cúmplices. Os voluptuosos careiam companheiros de devassidão. Os interesseiros reúnem sócios. Os
políticos congregam partidários. O comum dos homens ociosos mantêm relações. Os príncipes têm
cortesãos. Só os virtuosos possuem amigos. Cétego era cúmplice de Catilina. Mecenas era cortesão de
Otávio. Mas Cícero era amigo de Ático. Que estabelece esse convênio entre duas almas ternas e
honestas? As obrigações são mais ou menos intensas consoante a sensibilidade de uma e de outra e o
número de serviços prestados, etc.
 O entusiasmo da amizade foi mais forte entre gregos e árabes que entre nós. São admiráveis as
histórias que teceram esses povos em torno deste sentimento. Não temos iguais. Somos em tudo um
pouco secos.
 A amizade era objeto de religião e legislação entre os gregos. Os tebanos tinham o regimento dos
amantes. Magnífico regimento! Houve quem o tomasse por um regimento de sodomitas. Engano: seria
tomar o acessório pelo essencial. A amizade era prescrita na Grécia pela lei e pela religião. Infelizmente
tolerava-se a pederastia. Aliás: toleravam-na os costumes. É preciso não imputar à lei abusos
vergonhosos. Voltaremos ao assunto.
AMOR
 Amor omnibus idem (2). Cumpre recorrermos à imagem. O amor é a estopa da natureza bordada pela
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imaginação. Quereis ter uma idéia do amor? Vede os pardais do vosso jardim. Vede vossos pombos.
Contemplai o touro que levam à novilha. Admirai aquele soberbo cavalo que dois de vossos camaradas
conduzem à égua que passiva o espera e arreda a cauda para recebê-lo. Observai como seus olhos
chamejam. Ouvi seus relinchos. Admirai aqueles saltos, aquelas curvetas, aquelas orelhas em pé, aquela
boca que Se abre com ligeiras convulsões, aquelas narinas aflantes bafejando inflamadamente, aquelas
crinas que se empinam e esvoaçam, o movimento imperioso com que se lança sobre o objeto que lhe
destinou a natureza.
 Mas não os invejeis. Pensai nas vantagens da espécie humana. Que contrabalançam força, beleza,
ligeireza, impetuosidade todos os predicados de que a natureza dotou os irracionais.
 Há animais que não conhecem o gozo. Carecem desse prazer os peixes escamados. A fêmea lança
sobre a vasa milhões de ovas e o macho que as encontra fecunda-as com o sêmen sem preocupar-se com
a dona.
 A maioria dos animais que se acasalam não experimenta prazer por mais que um único sentido.
Satisfeito o apetite está tudo acabado. Nenhum animal senão vós conhece os afagos. Todo o vosso corpo
é sensível. Vossos lábios sobre tudo experimentam uma volúpia inexaurível - prazer exclusivo da vossa
espécie. Enfim podeis amar em qualquer tempo, enquanto os animais só o podem em épocas
determinadas. Se refletirdes nestas preeminências direis com, o conde de Rochester: "O amor, em um
país de ateus, faria adorar a Divindade"
 Como recebeu o dom de aperfeiçoar tudo o que lhe concedeu a natureza, o homem aperfeiçoou o
amor. A higiene, o cuidado com o próprio corpo, tornando a pele mais delicada, aumentam o prazer do
tato. O zelo da própria saúde faz mais sensíveis os órgãos da volúpia.
 Todos os outros sentimentos de presto se amalgamam com o amor como metais em fusão com o ouro.
 Vêem reforçá-lo a amizade, a estima. São outros elos de união os dotes do corpo e do