DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
187 pág.

DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Os leitos, as camadas de conchas descobertas por todas as costas a sessenta, a oitenta, a cem léguas
mesmo do mar, constituem prova incontestável de que ele depositou pouco a pouco seus produtos
marinhos sobre terrenos que eram outrora as margens do oceano; porém que a água tenha coberto
inteiramente todo o globo de uma vez, é na física uma quimera absurda demonstrada como impossível
pelas leis da gravidade, pelas leis dos fluidos, pela insuficiência da quantidade de água. Não que se
pretenda atacar de forma alguma a grande verdade do dilúvio universal, relatada no Pentateuco: ao
contrário, é um milagre, portanto é preciso crê-lo; é um milagre, portanto não pôde ter sido executado por
leis físicas.
 Tudo é milagre na história do dilúvio: milagre que quarenta dias de chuva tenham inundado as quatro
partes do mundo e que a água tenha se elevado quinze côvados a cima de todas as mais altas montanhas;
milagre que tenham existido cataratas, portas, aberturas no céu; milagre que todos os animais se tenham
dirigido para a Arca, vindos de todas as partes do mundo; milagre que Noé tenha encontrado com que
alimentá-los durante seis meses; milagre que todos os animais tenham cabido na Arca, com todas suas
provisões; milagre que a maioria não tenha morrido; milagre que tenham encontrado com que se nutrir ao
sair da Arca; milagre, ainda, mas de outra espécie, que um tal Le Pelletier(44) tenha julgado explicar
como todos os animais puderam caber e nutrir-se naturalmente na Arca de Noé.
 Ora, sendo a história do dilúvio a coisa mais miraculosa de que jamais se falou, insensato seria o
Dicionário Filosófico.
file:///C|/site/livros_gratis/dicionario_filosofico.htm (126 of 185) [19/06/2001 11:47:00]
explicá-la: trata-se de mistérios que se acreditam pela fé; e a fé consiste em crer no que a razão
absolutamente não crê, o que constitui, ainda, outro milagre.
 Assim a história do dilúvio universal é como a da torre de Babel, da burra de Balaão, da queda de
Jericó ao som das trombetas, das águas transformadas em sangue, da passagem do Mar Vermelho e de
todos os prodígios que Deus se dignou fazer em favor dos eleitos de seu povo; trata-se de profundezas
que o espírito humano não pode sondar.
IRRACIONAIS
 Que ingenuidade, que pobreza de espírito, dizer que os irracionais são máquinas privadas de
conhecimento e sentimento, que procedem sempre da mesma maneira, que nada aprendem, nada
aperfeiçoam! (45)
 Então aquela ave que faz seu ninho em semicírculo quando o encaixa numa parede, em quarto de
círculo quando o engasta num ângulo e em círculo quando o pendura numa árvore, procede aquela ave
sempre da mesma maneira? Esse cão de caça que disciplinaste não sabe mais agora do que antes de tuas
lições? O canário a que ensinas uma ária, repete-a ele no mesmo instante? Não levas um tempo
considerável em ensiná-lo? Não vês como ele erra e se corrige?
 Será porque falo que julgas que tenho sentimento, memória, idéias? Pois bem, calo-me. Vês-me entrar
em casa aflito, procurar um papel com inquietude, abrir a escrivaninha, onde me lembra tê-lo guardado,
encontrá-lo, lê-lo com alegria. Percebes que experimentei os sentimentos de aflição e prazer, que tenho
memória e conhecimento.
 Vê com os mesmos olhos esse cão que perdeu o amo e procura-o por toda parte com ganidos
dolorosos, entra em casa agitado, inquieto, desce e sobe e vai de aposento em aposento e enfim encontra
no gabinete o ente amado, a quem manifesta sua alegria pela ternura dos ladridos, com saltos e carícias.
 Bárbaros agarram esse cão, que tão prodigiosamente vence o homem em amizade, pregam-no em
cima de uma mesa e dissecam-no vivo para mostrar-te suas veias mesaraicas. Descobres nele todos os
mesmos órgãos de sentimento de que te gabas. Responde-me, maquinista, teria a natureza entrosado
nesse animal todos os elatérios do sentimento sem objetivo algum? Terá nervos para ser insensível? Não
inquines à natureza tão impertinente contradição.
 Perguntam os mestres da escola o que é então a alma dos irracionais. Não entendo a pergunta. A
árvore tem a faculdade de receber em suas fibras a seiva que circula, de desenvolver os botões das folhas
e dos frutos: perguntar-me-eis o que é a alma da árvore? Ela recebeu estes dons. O animal foi
contemplado com os dons do sentimento, da memória, de certo número de idéias. Quem criou esses
dons? Quem lhes outorgou essas faculdades? Aquele que faz crescer a erva dos campos e gravitar a Terra
em torno do Sol.
 As almas dos brutos são formas substanciosas, disse Aristóteles e depois de Aristóteles a escola árabe,
Dicionário Filosófico.
file:///C|/site/livros_gratis/dicionario_filosofico.htm (127 of 185) [19/06/2001 11:47:00]
depois da escola árabe a escola angélica, depois da escola angélica a Sorbonne e depois da Sorbonne
ninguém.
 As almas dos brutos são materiais, proclamam outros filósofos, nem mais nem menos felizes que os
primeiros. Em vão perguntou-se-lhes o que é alma material: precisam convir em que é a matéria que
sente. Mas quem deu sensibilidade à matéria? Alma material... Quer dizer que é a matéria que dá
sensibilidade à matéria. E não saem desse círculo.
 Ouvi outra sorte de irracionais racionando sobre os irracionais: A alma dos brutos é um ser espiritual
que morre com o corpo. Que prova tendes disso? Que idéia concebeis desse ser espiritual que em verdade
tem sentimento, memória e sua medida de idéias e associações, mas que jamais poderá saber o que sabe
uma criança de dez anos? Os maiores irracionais são os que aventaram não ser essa alma nem corpo nem
espírito. Aí está um curioso sistema. Não podemos entender por espírito senão algo desconhecido e
incorporal: a isto pois reduz-se o sistema desses senhores a alma dos seres brutos é uma substância nem
corporal nem incorporal.
 A que atribuir tantos e tão contraditórios erros? Ao vezo que sempre tiveram os homens de querer
saber o que seja uma coisa antes de saber se existe. Dizemos a lingüeta, o batoque do fole, a alma do
fole. Que é essa alma? Um nome que dei à válvula que, quando toco o fole, baixa e sobe para dar entrada
e saída ao ar.
 O fole não tem alma de espécie alguma. É simplesmente uma máquina. Quem toca, porém, o fole dos
animais? Já o disse: aquele que move os astros. Tinha razão o filósofo que disse: Deus est anima
brutorum. Mas devia ter ido mais longe.
JEFTÉ
 Ou dos sacrifícios de sangue humano Evidencia-se do texto do livro dos Juizes que Jefté prometeu
sacrificar a primeira pessoa que saísse de sua casa para vir felicitá-lo pela sua vitória sobre os amonitas.
Sua filha única se lhe apresentou; então ele lhe rasgou a roupa, imolando-a após ter-lhe permitido ir
prantear nas montanhas a desdita de morrer virgem. Durante muito tempo as filhas judias celebraram
essa aventura, chorando a filha de Jefté por quatro dias(46).
 Em que tempo essa história foi escrita, que seja uma imitação da história grega de Agamenon e
Idomenéia ou tenha sido imitada, que lhe seja anterior ou posterior, não é isso o que examino; atenho-me
ao texto: Jefté votou sua filha em holocausto e cumpriu o seu voto.
 Ordenava expressamente a lei judaica que se imolassem os homens votados ao Senhor. "Nenhum
homem votado obterá resgate mas receberá morte sem remissão". A Vulgata traduz: Non redimetur, sed
morte morietur(47).
 Foi em virtude dessa lei que Samuel cortou em pedaços o rei Agague, a quem Saul perdoara; e
justamente por haver poupado Agague Saul foi admoestado pelo Senhor e perdeu o seu reino.
Dicionário Filosófico.
file:///C|/site/livros_gratis/dicionario_filosofico.htm (128 of 185) [19/06/2001 11:47:00]
 Eis, pois, sacrifícios de sangue humano claramente estabelecidos; não há ponto histórico melhor
averiguado. Não se pode julgar de uma nação a não ser por seus arquivos e pelo que ela refere de si
própria.
JOSÉ
 A história de José, considerada apenas como objeto de curiosidade e literatura, é um dos monumentos
mais preciosos da antigüidade que até nós chegaram.