DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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da terra; todos eles convirão em que
deve ser permitido vender aos vizinhos o excedente do seu trigo e que a lei contrária é inumana e
absurda; que as moedas representativas dos gêneros deverão ser tão puras como os frutos da terra; que
um pai de família deverá ser dono de sua casa; que a religião deve reunir os homens a fim de os unir e
não para fazer deles fanáticos e perseguidores; que os que trabalham não devem ser privados dos frutos
de seu trabalho com o fim de alimentar a superstição e a ociosidade: eles farão numa hora trinta leis desta
espécie, todas úteis ao gênero humano.
 Chegue porém Tamerlão e subjugue a Índia; então não vereis senão leis arbitrárias. Uma asfixiará
uma província para enriquecer um rendeiro de Tamerlão; outra transformará num crime de lesa
majestade o ter falado mal da mulher do primeiro camarista de um raja; terceira apoderar-se-á da metade
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da colheita do agricultor, contestando-lhe o resto; enfim existirão leis mediante as quais um bedel tártaro
virá arrancar vossos filhos do berço, fará do mais robusto um soldado e do mais fraco um eunuco,
deixando o pai e a mãe sem consolo.
 Ora, que vale melhor ser: o cão de Tamerlão ou seu súdito? É claro que a regalia do seu cão é muito
superior.
LEIS CIVIS E ECLESIÁSTICAS
 Foram encontradas nos papéis dos jurisconsultos estas notas, que talvez mereçam um pouco de
exame.
 Que jamais lei eclesiástica alguma seja válida senão mediante sanção expressa do governo. Foi desse
modo que Atenas e Roma nunca tiveram querelas religiosas. Tais litígios são patrimônio das nações
bárbaras ou transformadas em bárbaras.
 Que apenas o magistrado possa permitir ou proibir o trabalho nos dias de festa, pois não cabe aos
padres proibir aos indivíduos o cultivo de seus campos.
 Que tudo o que concerne aos casamentos dependa exclusivamente do magistrado, e que os padres se
atenham à augusta função de os abençoar.
 Que o padre interessado seja puramente um objeto da lei civil, porquanto apenas ela preside, ao
comércio.
 Que todos os eclesiásticos sejam submetidos em todos os casos ao governo, porquanto são súdito do
estado.
 Que em tempo algum se cometa o ato ridículo e indecoroso de pagar a um padre estrangeiro a
primeira anualidade da renda de uma terra que cidadãos deram a um padre concidadão.
 Que padre algum jamais possa subtrair a um cidadão a mínima prerrogativa, sob pretexto de que tal
cidadão seja um pecador, pois o padre pecador deve rezar pelos pecadores e não julgá-los.
 Que os magistrados, os lavradores e os padres paguem igualmente os impostos do estado, pois todos
pertencem igualmente ao estado.
 Que não haja senão um peso, uma medida, um costume.
 Que os suplícios dos criminosos sejam úteis, um homem enforcado não serve para nada, e um homem
condenado aos trabalhos públicos ainda serve à pátria, constituindo uma lição viva.
 Que toda lei seja clara, uniforme, precisa: interpretá-la é quase sempre corrompê-la.
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 Que nada, a não ser o vício, seja infame.
 Que os impostos sejam sempre proporcionais.
 Que a lei jamais esteja em contradição com o uso: porque se o uso é bom, a lei nada vale.
LIBERDADE (DA)
A
 Eis uma bateria de canhões que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi-la e de a
não ouvir?
B
 É claro que não posso evitar ouvi-la.
A
 Desejaríeis que esse canhão decepasse vossa cabeça e as de vossa mulher e vossa filha que estivessem
convosco?
B
 Que espécie de proposição me fazeis? Eu jamais poderia, em meu são juízo, desejar semelhante coisa.
Isso me é impossível.
A
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 Muito bem; ouvis necessariamente esse canhão e, também necessariamente, não quereis morrer, vós e
vossa família, de um tiro de canhão; não tendes nem o poder de não ouvi-lo nem o poder de querer
permanecer aqui.
B
 Isso é evidente.
A
 Em conseqüência, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canhão: tivestes
o poder de caminhar comigo estes poucos passos?
B
 Nada mais verdadeiro.
A
 E se fôsseis paralítico? Não teríeis podido evitar ficar exposto a essa bateria; não teríeis o poder de
estar onde agora estais: teríeis então necessariamente ouvido e recebido um tiro de canhão e
necessariamente estaríeis morto?
B
 Nada mais claro.
A
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 Em que consiste, pois, vossa liberdade, senão está no poder exercido pelo vosso indivíduo de fazer o
que a vossa vontade exigia com absoluta necessidade?
B
 Embaraçais-me; então a liberdade é apenas o poder de fazer o que bem entendo?
A
 Refleti um pouco. Vede se a liberdade pode ser outra coisa.
B
 Neste caso o meu cão de caça é tão livre como eu; ele tem necessariamente a vontade de correr
quando vê uma lebre e o poder de correr se não estiver doente das pernas. Eu nada tenho, pois, mais do
que meu cão: reduzis-me ao estado das bestas.
A
 Eis uma série de pobres sofismas dos pobres sofistas que vos instruíram. Eis que estais despeitado por
não serdes livre como vosso cão. Ora, não vos pareceis com ele em mil coisas? A fome, a sede, o velar, o
dormir, os cinco sentidos, não são em vós como nele? Pretenderíeis cheirar com outro qualquer órgão
além do nariz? Por que quereis uma liberdade diferente da que ele tem?
B
 Porém eu tenho uma alma que raciocina muito bem, e o meu cão não pensa coisa alguma. Ele apenas
tem idéias simples, enquanto eu tenho mil idéias metafísicas.
A
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 Pois muito bem! Sois mil vezes mais livre do que ele, isto é, tendes mil vezes mais poder de pensar do
que ele; porém vossa liberdade é perfeitamente igual à dele.
B
 Como? Eu não tenho a liberdade de querer o que desejo?
A
 Que entendeis com isso?
B
 O que toda gente entende. Não se diz diariamente: "As vontades são livres"?
A
 Um provérbio não é uma razão; explicai-vos melhor.
B
 Penso que sou livre de querer como melhor me agradar.
A
 Com vossa licença, isso não tem o mínimo sentido; não percebeis que é ridículo dizer: "Eu quero
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querer"? Necessariamente, vós desejais em conseqüência das idéias que se vos apresentam. Quereis
casar, sim ou não?
B
 Mas e se eu vos disser que não quero nem uma nem outra coisa?
A
 Responderíeis como aquele que disse: "Uns pensam que o cardeal Mazarino está morto; outros, que
está vivo; eu não creio nem numa coisa nem noutra".
B
 Pois bem, quero casar-me.
A
 Isto é responder! Por que quereis casar?
B
 Porque estou apaixonado por uma bela rapariga, bem educada, muito rica, que canta muito bem, filha
de pais honestos e que me ama, assim como sua família.
A
 Eis uma razão. Vedes, pois, que não podeis querer sem razão. Declaro-vos que tendes a liberdade de
vos casar: isto é, que tendes o poder de assinar o contrato.
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B
 Como! Eu não posso querer sem motivo? Que sucede então a este outro provérbio: Sit pro ratione
voluntas: minha vontade é minha razão, eu quero porque quero?
A
 Isso é absurdo, meu caro amigo, pois haveria em vós um efeito sem causa.
B
 Que? Quando jogo par ou ímpar tenho então um motivo para escolher par em vez de ímpar?
A
 Sim, sem nenhuma dúvida.
B
 E qual é essa razão, por obséquio?
A