DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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É que a idéia de par se apresentou ao vosso espírito mais do que a idéia oposta. Seria muito cômico
que nalguns casos desejásseis por existir uma razão para o vosso desejo e que noutros desejásseis sem
motivo. Quando vos quereis casar, sentis a razão dominante, evidentemente; não a sentis quando jogais
par ou ímpar, e contudo é mister que exista uma.
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B
 Mas, uma vez ainda: sou ou não sou livre?
A
 Vossa vontade não é livre mas vossas ações o são. Tendes a liberdade de fazer quando tendes o poder
de fazer.
B
 Mas, todos os livros que li sobre a liberdade de indiferença...
A
 São tolices: não existe liberdade de indiferença; é um termo destituído de senso, inventado por
pessoas que o não possuem.
LOUCURA
 Não se trata de reeditar o livro de Erasmo, que na atualidade não seria mais do que um lugar comum
bastante insípido.
 Chamamos loucura a essa doença dos órgãos do cérebro que impede um homem de pensar e de agir
como os outros. Não podendo gerir seus bens, é interdito; não podendo ter idéias de acordo com a
sociedade, é excluído; se for nocivo, é enclausurado; se for furioso, trancafiam-no.
 É importante observar que esse homem, entretanto, não carece de idéias; ele as tem como todos os
outros enquanto acordado e, freqüentemente, enquanto dorme. Poder-se-á perguntar como sua alma
espiritual, imortal, alojada em seu cérebro, recebendo todas as idéias por meio dos sentidos coordenados
e divididos, não possa concluir um julgamento são. Ela vê os objetos como os viam a alma de Aristóteles
e de Platão, de Locke e de Newton; ouve os mesmos sons, tem o mesmo sentido do tacto: por que
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motivo, pois, recebendo percepções que os mais sábios experimentam, compõe um conjunto
inevitavelmente extravagante?
 Se essa substância simples e eterna possui para as suas ações os mesmos instrumentos das almas dos
cérebros mais sábios, deve raciocinar como eles. Que o impediria? Claro que se um maluco vê vermelho
e os sábios azul; se quando os sábios ouvem uma música o louco ouve o zurrar de um asno; se quando
eles estão no sermão o louco julga estar na comédia; se quando eles ouvem sim, ele entende não, então
sua alma deve pensar ao contrário das outras. Mas o louco tem as mesmas percepções que eles; não há
nenhuma razão aparente pela qual sua alma, tendo recebido mediante os sentidos todos os seus utensílios,
não os possa usar. Ela é pura, dizemos; não está sujeita por si própria a nenhuma enfermidade; ei-la
provida de todos os recursos necessários; passe o que se passar em seu corpo, nada poderá mudar a sua
essência; contudo, ei-la encerrada num manicômio.
 Essa reflexão pode fazer supor que a faculdade de pensar, doada por Deus ao homem, esteja sujeita a
desarranjos como os outros sentidos. Um louco é um doente cujo cérebro sofre, como o gotoso é um
doente que sofre dos pés e das mãos; ele pensa com o cérebro, assim como anda com os pés, sem nada
conhecer nem do seu poder incompreensível de andar, nem do seu não menos incompreensível poder de
pensar. Sofre-se a gota no cérebro como nos pés. Enfim, após mil reflexões, é preciso convir em que
somente a fé, talvez, possa convencer-nos de que uma substância simples e imaterial seja passível de
doença.
 Os doutos ou os doutores dirão ao louco: "Meu amigo, não obstante teres perdido o senso comum, tua
alma é tão espiritual, tão pura, tão imortal como a nossa; porém nossa alma está bem alojada e a tua o
está mal; as janelas da casa estão fechadas para ela; falta-lhe ar, ela sufoca". O maluco, em seus bons
momentos, lhes responderia: Meus amigos, pensais à vossa moda, o que é discutível. Minhas janelas
estão tão abertas como as vossas, porquanto eu vejo os mesmos objetos e ouço as mesmas palavras: é
pois necessário que, ou minha alma empregue mal os seus sentidos, ou seja ela própria um sentido
viciado, uma qualidade depravada. Numa palavra, ou minha alma é louca por sua própria conta ou eu não
tenho alma".
 Um dos doutores poderá responder: "Meu irmão, Deus criou, é possível, almas loucas, assim como
criou almas sábias." O louco replicará: "Se eu fosse acreditar no que me dizeis, seria ainda mais louco do
que já sou. Por obséquio, vós que sabeis tanto, dizei-me, por que sou louco ?"
 Se os doutores tiverem ainda um pouco de bom senso lhe responderão: "Ignoro-o absolutamente."
Eles não compreenderão por que um cérebro tem idéias incoerentes; não compreenderão melhor por que
outro cérebro tem idéias regulares e coerentes. Julgar-se-ão sábios, e serão tão loucos como ele.
LUXO
 Há dois mil anos que se declama contra o luxo, em verso e em prosa, porém amando-o sempre.
 Que não se disse dos primeiros romanos? Quando esses salteadores devastaram e pilharam as
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colheitas dos seus vizinhos, quando, para aumentar sua pobre aldeia, destruíram as pobres aldeias dos
volscos e dos sanitas, eram homens desinteressados e virtuosos: ainda não tinham podido roubar ouro,
nem prata, nem pedrarias, porque não havia nos burgos o que saquear. Nem seus bosques nem seus
hortos tinham perdizes ou faisões e louva-se a sua temperança.
 Quando, pouco a pouco, eles pilharam tudo, roubaram tudo, desde os confins do Adriático ao
Eufrates, quando tiveram bastante espírito para gozar o fruto de suas rapinas durante setecentos ou
oitocentos anos; quando cultivaram todas as artes, apreciaram os prazeres e até os fizeram gozar aos
vencidos, então cessaram, diz-se, de ser sábios e honestos. Todas essas declamações servem para
provar que um ladrão jamais deverá comer o jantar que tomou de um terceiro nem vestir o traje que
roubou, nem enfeitar-se com o anel, produto de seu saque. É preciso, dizes, atirar tudo isso ao rio a fim
de viver como gente honrada; digam antes que não se deveria roubar. Condenai os salteadores quando
saqueiam, não os trateis porém como insensatos quando desfrutam de boa fé o produto de seus roubos.
Quando um elevado número de marinheiros ingleses se enriqueceu na tomada de Pondichéry e de
Havana, não teriam eles o direito de gozar em Londres como paga do trabalho que tiveram nos confins
da Ásia e da América?
 Desejariam os declamadores ver enterradas zelosamente as riquezas adquiridas na guerra, pela
agricultura, pelo comércio e pela indústria? Eles citam os lacedemônios. Por que não citam também a
república de São Marinho? Que benefícios fez Esparta à Grécia? Teve ela alguma vez homens como
Demóstenes, Sófocles, Apeles, Fídias? O luxo de Atenas criou grandes homens em todo gênero; Esparta
teve alguns capitães e ainda em número menor do que as outras cidades. Vão é que uma república tão
pequena como a dos lacedemônios conserve a sua pobreza. Chega-se à morte tanto na miséria como
gozando daquilo que nos pode tornar a vida agradável. O selvagem do Canadá subsiste e atinge a velhice
como o cidadão inglês que tem cinqüenta mil guinéus de renda. Mas quem irá comparar, jamais, o país
dos iroqueses à Inglaterra?
 Que a república de Ragusa e o cantão de Zug façam leis suntuárias: eles têm razão, é preciso que o
pobre não gaste além de suas posses; mas li nalgum lugar(49):
 "Sabei que se o luxo enriquece um grande estado põe a perder um pequeno".
 Se por luxo entenderdes o excesso, sabemos muito bem que em tudo o excesso é pernicioso: na
abstinência como no epicurismo, na economia como na liberalidade. Não sei como pode acontecer que,
nas minhas aldeias, onde a terra é ingrata, os impostos pesados, a proibição de exportar o trigo que foi
semeado, intolerável, não existe contudo um colono que não tenha uma boa roupa de banho e não seja
bem calçado e bem nutrido. Se esse colono trabalha com a sua bela roupa, com linho branco, os cabelos
frisados,