DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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ou assassinarão: pois são filhos do diabo; nasceram ruins; um nada tem de
regenerado e o outro é degenerado. Seria muito mais razoável, muito mais belo, dizer aos homens:
Nascestes bons; vede quão afrontoso seria corromper a pureza do vosso ser. Seria de mister proceder
com o gênero humano como procedemos com os homens em particular. Se um cônego leva uma vida
escandalosa, nós lhe dizemos: "É possível que desonreis a dignidade de cônego? " Faz-se lembrar a um
magistrado que ele tem a honra de ser conselheiro do rei e que deve dar o exemplo. Diz-se a um soldado
a fim de encorajá-lo: "Recorda que pertences ao regimento de Champagne" Dever-se-ia dizer a todo
indivíduo: "Lembra-te de tua dignidade de homem".
 E, com efeito, não obstante a possuirmos, temos sempre necessidade dela: pois que quer dizer esta
frase freqüentemente empregada em todos os povos, concentrai-vos em vós mesmo? Se houvésseis
nascido filho do diabo, se vossa origem fosse criminosa, se vosso sangue fosse composto de um licor
infernal, esta expressão concentrai-vos em vós mesmo significaria: consultai, segui vossa natureza
diabólica, sede impostor, assassino, é a lei de vosso pai.
 O homem não é ruim de nascimento; torna-se depois, assim como adoece. Alguns médicos se lhe
apresentam e dizem: "Nascestes já doente." Pile está perfeitamente certo de que esses médicos, por mais
que façam, não o curarão se sua doença é inerente a sua natureza; esses próprios argumentadores são bem
doentes.
 Reuni todas as crianças do universo, e não vereis nelas senão inocência, doçura e timidez; se
houvessem nascido más, malfeitoras, cruéis, mostrariam algum sinal, tal como as serpentezinhas
procuram morder e os tigrinhos arranhar.
 Mas a natureza não concedeu ao homem mais armas ofensivas do que aos coelhos e aos pássaros, não
lhes pode dar um instinto que os conduza à destruição.
 Portanto o homem não é mau de nascimento. Por que então existe tão grande número de infetados por
essa peste da ruindade? É que aqueles que os dirigem, sendo colhidos pela doença, comunicam-na ao
resto dos homens, como uma mulher atacada do mal que Cristóvão Colombo trouxe da América espalha
esse veneno de extremo a outro da Europa. O primeiro ambicioso corrompeu a terra.
 Ides dizer-me que esse primeiro monstro desenvolveu o germe do orgulho, da rapina, da fraude, da
crueldade, que existe em todos os homens. Sei muito bem que em geral a maioria de nossos irmãos pode
adquirir esses defeitos; estará porém toda gente contaminada pela febre pútrida, pelos cálculos renais,
apenas por que todos estão expostos?
Dicionário Filosófico.
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 Existem nações inteiras completamente boas: os filadélfios, os banianos nunca mataram pessoa
alguma; os chineses, os povos de Tonquim, de Lao, de Siam, do próprio Japão, durante várias centenas
de anos não conheceram a guerra. Apenas de dez em dez anos é possível ver um desses crimes que
comovem a natureza humana nas cidades de Roma, Veneza, Paris, Londres, Amsterdã, cidades onde, de
feito, a cupidez, mãe de todos os crimes, é extensa.
 Se os homens fossem essencialmente maus, se nascessem completamente submetidos a um ser tão
malfeitor como infeliz, que para se vingar de seus suplícios lhes inspirasse todos os seus furores,
ver-se-iam todas as manhãs maridos assassinados por suas mulheres e pais por seus filhos, como
podemos contemplar no alvorecer do dia frangos estrangulados por uma doninha que lhes sugou o
sangue.
 Se houver um bilhão de homens sobre a terra será muito; isto dá aproximadamente quinhentos
milhões de mulheres que costuram, que cozinham, que alimentam seus filhos, que tomam conta da casa
ou cabana própria, e que falam um certo mal de suas vizinhas. Não vejo que grande mal essas pobres
inocentes fazem sobre a terra. Sobre esse número de habitantes do globo há duzentos milhões de crianças
no mínimo, que com toda certeza não saqueiam nem matam, e cerca de outro tanto de velhos e doentes
que o não podem fazer. Restarão quando muito cem milhões de jovens robustos e capazes de praticar o
crime. Desses cem milhões noventa estão continuamente ocupados em forçar a terra, mercê de um
trabalho prodigioso, a fim de que esta lhes dê alimentos e roupas; esses não têm igualmente tempo para
fazer o mal.
 Nos dez milhões restantes estão compreendidos os ociosos que prezam a boa companhia das mesas,
que desejam viver doce e tranqüilamente, os homens de talento ocupados com suas profissões, os
magistrados, os padres, visivelmente interessados em levar uma vida pura, ao menos na aparência. Como
verdadeiros maus, portanto, apenas restarão alguns políticos, amadores ou profissionais, e alguns
milhares de vagabundos que lhes alugam os seus serviços. Ora, impossível seria atuar um milhão de
bestas ferozes ao mesmo tempo; e nesse número estão incluídos os assaltantes das estradas reais. Tendes,
pois, quando muito, sobre a terra, nos tempos mais borrascosos, um homem sobre mil a quem se pode
chamar mau.
 Há pois infinitamente menos mal sobre a terra do que se diz e pensa. E é ainda muito, sem dúvida:
assistimos a desgraças e crimes horríveis; porém o prazer de se lamentar e exagerar é tão grande que à
mínima arranhadela seríeis capaz de bradar que a terra regurgita de sangue. Fostes enganado, todos os
homens são perjuros. Um espírito melancólico que sofreu uma injustiça vê o universo coberto de
danados, como um jovem voluptuoso ceando com sua dama, ao sair da Ópera, não acredita na existência
de infelizes.
MESSIAS
 Messiah ou Meshiah em hebreu; Christos ou Eleimmenos em grego; Unctus em latim; Ungido.
 Vemos no Velho Testamento que o nome de Messias foi dado a príncipes idólatras ou infiéis. Está
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dito(51) que Deus enviou um profeta para ungir Jeú, rei de Israel. Anunciou ele a unção sagrada a
Hazael, rei de Damasco e Síria, pois esses dois príncipes eram os Messias do Altíssimo para punir a casa
de Acabe.
 No 45o. de Isaías o nome de Messias é expressamente dado a Ciro. "Assim disse o Eterno a Ciro, seu
ungido, seu Messias, de quem tomei a mão direita, a fim de que eu submeta as nações diante dele, etc.".
 Ezequiel, no capítulo 28 de suas revelações, dá o nome de Messias ao rei de Tiro, a quem também
chamava Querubim. "Filho do homem, - disse o Eterno ao profeta, - pronuncia em altas vozes uma
queixa ao rei de Tiro, e diz-lhe:
 "Assim disse o Senhor, o Eterno. Eras o sinete da semelhança de Deus, repleto de sabedoria e perfeito
em beleza; foste o jardim do Éden do Senhor, (ou, segundo outras versões) eras todas as delícias do
Senhor. Tuas vestes eram de sardônica, de topázio, de jaspe, de crisólita, de ônix, de berilo, de safira, de
escarbúnculo, de esmeralda e ouro. O que sabiam fazer teus tambores e tuas flautas esteve contigo; eles
foram aprontados no dia de tua criação; foste um Querubim, um Messias".
 Esse nome de Messiah, Christ, era dado aos reis, aos profetas e aos grandes sacerdotes dos hebreus.
Lemos no 1o. dos Reis, XII, 5: "0 Senhor e seu Messias são testemunhas", isto é: "0 Senhor e o rei que
estabeleceu". E alhures: "Não toqueis em meus ungidos nem façais mal algum a meus profetas". Davi,
animado do espírito de Deus, deu em várias ocasiões a Saul, seu sogro renegado, que o perseguia, o
nome e a qualidade de ungido, de Messias do Senhor. "Deus me guarde" - diz freqüentemente - "de
levantar a mão sobre o ungido do Senhor, sobre o Messias de Deus!"
 Se o nome de Messias, ungido do Senhor, foi dado a reis idólatras, a renegados, foi também mui
freqüentemente empregado em nossos antigos oráculos para designar o verdadeiro ungido do Senhor,
esse Messias por excelência, o Cristo, filho de Deus, enfim o próprio Deus.
 Se compararmos todos os diversos oráculos que se aplicam de ordinário ao Messias, não pode haver
ao que parece dificuldade alguma