DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
187 pág.

DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
Pré-visualização50 páginas
capaz de favorecer os judeus, no sentido de justificar, se o pudessem,
sua obstinação. Vários grandes teólogos concordam que, no estado de opressão sob o qual gemia o povo
judeu, e depois de todas as promessas que o Eterno lhe fez com tanta freqüência, podia suspirar pela
vinda de um Messias vencedor e libertador, e que assim se torna de certa forma escusável o não haver a
princípio reconhecido esse libertador na pessoa de Jesus.
 Pertencia ao plano da sabedoria eterna que as idéias espirituais do verdadeiro Messias permanecessem
desconhecidas pelas multidões cegas; foram-no ao ponto de os doutores judeus tomarem o cuidado de
não negar senão os trechos que alegamos deverem ser entendidos como referentes ao Messias. Dizem
vários que o Messias já veio na pessoa de Ezequias; é também o pensamento do famoso Hilel. Outros,
em grande número, pretendem que a crença da vinda de um Messias não é absolutamente um artigo
fundamental de fé, e que esse dogma, não assomando nem no Decálogo nem no Levítico, não passa de
uma esperança consoladora.
 Vários rabinos dizem não duvidar que, segundo os antigos oráculos, o Messias não tenha vindo nos
tempos determinados; mas que ele não envelhece, que ficará sobre esta terra e esperará, para se
Dicionário Filosófico.
file:///C|/site/livros_gratis/dicionario_filosofico.htm (148 of 185) [19/06/2001 11:47:00]
manifestar, que Israel tenha celebrado como é de mister o sabate.
 O famoso rabino Salomão Jarquí ou Rasquí, que viveu no princípio do duodécimo século, diz em suas
Talmúdicas que os antigos hebreus acreditaram que o Messias nascera no dia da última destruição de
Jerusalém pelos exércitos romanos; é, como se costuma dizer, chamar o médico depois da morte.
 O rabino Quinquí, que também viveu no duodécimo século, anunciou que o Messias, cuja vinda
julgava muito próxima, expulsaria da Judéia os cristãos que a possuíam até aquele momento; é verdade
que os cristãos perderam a Terra Santa; mas foi Saladino quem os venceu; por pouco que esse
conquistador tenha protegido os judeus declarando-se a seu favor, parece que em seu entusiasmo eles o
transformaram em seu Messias.
 Os autores sacros, e o próprio Nosso Senhor Jesus, comparam freqüentemente o reino do Messias e a
eterna beatitude a dias de esponsais, a festins; porém os talmudistas abusaram estranhamente dessas
parábolas; segundo eles, o Messias dará a seu povo, reunido na terra de Canaã, uma refeição cujo vinho
será o mesmo feito por Adão no Paraíso terrestre, e que se conserva em vastas adegas, guardadas pelos
anjos no centro da terra.
 Servir-se-á de início o famoso peixe chamado o grande Leviatã, que engole de um só trago um peixe
maior do que ele, o qual não deixa de ter trezentas léguas de comprimento; toda a maça das águas está
apoiada sobre Leviatã. Deus, a princípio, criou um macho e uma fêmea; mas temendo que eles
revolvessem a terra e enchessem o universo de seus semelhantes, Deus matou a fêmea, salgando-a para o
festim do Messias.
 Os rabinos acrescentam que se matará para esse festim o touro de Beemote, que é tão grande que
come diariamente o feno de mil montanhas; a fêmea desse touro foi morta no princípio do mundo, para
que uma espécie tão prodigiosa não se multiplicasse, o que apenas poderia ser prejudicial às outras
criaturas; asseguram porém que o Eterno não a salgou, pois a vaca salgada não é tão boa como o Leviatã.
Os judeus acrescentaram ainda tanta fé a todas essas fantasias rabínicas que é freqüente jurarem sobre a
parte do boi de Beemote que lhes cabe.
 Depois de idéias tão grosseiras sobre a vinda do Messias e sobre o seu reino, será para admirar que os
judeus, tanto antigos como modernos, e vários mesmo dos primeiros cristãos, desgraçadamente imbuídos
de todas essas loucuras, não tenham podido elevar-se à idéia da natureza divina do ungido do Senhor,
nem atribuíram as qualidades de Deus ao Messias? Vede como os judeus se exprimem lá das alturas em
sua obra intitulada Juaei Lusitani Quaestiones ad Christianos. "Reconhecer" - dizem - "um homem-Deus
é forjar um monstro, um centauro, o composto estranho de duas naturezas que não se poderiam aliar".
Acrescentam que os profetas não ensinam absolutamente que o Messias deve ser homem-Deus, que
fazem distinções expressas entre Deus e Davi, que consideram o primeiro, senhor, o segundo, servidor,
etc.
 Sabe-se muito bem que os judeus, escravos da letra, jamais penetraram como nós o sentido das
Escrituras.
 Quando o Salvador apareceu, os preconceitos judeus se ergueram contra ele. O próprio Jesus Cristo,
para não revoltar seus espíritos cegos, parece extremamente reservado sobre o artigo de sua divindade:
Dicionário Filosófico.
file:///C|/site/livros_gratis/dicionario_filosofico.htm (149 of 185) [19/06/2001 11:47:00]
"Ele queria" - diz São Crisóstomo - "acostumar insensivelmente seus auditores a crer num mistério
grandemente elevado acima da razão". Se toma a autoridade de um Deus perdoando os pecados, isto
revolta todos os que o testemunham; seus milagres mais evidentes não podem convencer de sua
divindade aqueles mesmos em favor dos quais opera. Quando perante o tribunal do soberano sacrificador
ele admite com modéstia ser filho de Deus, o sumo sacerdote rasga-lhe a roupa, rompendo em
blasfêmias. Antes do enviado do Espírito Santo os apóstolos nem sequer suspeitavam a divindade de seu
mestre; ele os interroga sobre o que pensa o povo a seu respeito: respondem-lhe que uns o tomam por
Elias, outros por Jeremias ou qualquer outro profeta. São Pedro precisa de uma revelação particular para
conhecer que Jesus é o Cristo, o filho de Deus vivente.
 Os judeus, revoltados contra a divindade de Jesus Cristo, recorreram a toda sorte de meios para
destruir esse grande mistério; deturpam o sentido dos seus próprios oráculos, ou não os aplicam ao
Messias; pretendem que o nome de Deus, Elói, não é particular à divindade, sendo até concedido pelos
autores sagrados aos juizes, aos magistrados, em geral aos elevados em autoridade; citam, com efeito,
grande número de passos das Santas Escrituras que justificam esta observação, mas que não concedem a
mínima atenção aos termos expressos dos antigos oráculos que falam do Messias.
 Enfim, pretendem que se o Salvador, e depois dele os evangelistas, os apóstolos e os primeiros
cristãos chamam Jesus o filho de Deus, esse termo augusto não significava nos tempos evangélicos senão
o oposto dos filhos de Belial, isto é, homem de bem, servidor de Deus, em oposição a um malvado, um
homem que não teme a Deus.
 Se os judeus contestaram a Jesus Cristo a qualidade de Messias e sua divindade, nada esqueceram
para torná-lo desprezível, para atirar sobre o seu nascimento, sua vida e sua morte, todo o ridículo e todo
o opróbrio imaginado pela sua obstinação criminosa.
 De todas as obras produzidas pela cegueira dos judeus, nada há de mais odioso e extravagante do que
o antigo livro intitulado: Sepher Toldos Jeschut, extraído da poeira dos arquivos pelo sr. Wagenseil, no
segundo tomo de sua obra intitulada: Tela ignea, etc.
 É nesse Sepher Toldos Jeschut que se lê uma história monstruosa da vida do nosso Salvador, forjada
com toda paixão e má fé possíveis. Assim, por exemplo, ousaram escrever que um tal Panter ou Pandera,
habitante de Betlêm, se apaixonara por uma mulher casada com Jocanã. Teve desse comércio impuro um
filho que foi chamado Jesuá ou Jesú. O pai desse menino foi obrigado a fugir, retirando-se para
Babilônia. Quanto ao jovem Jesú, foi enviado à escola; mas, - acrescenta o autor - teve a insolência de
levantar a cabeça e de se descobrir diante dos sacrificadores, em lugar de se apresentar à sua frente com a
cabeça baixa e o rosto coberto, como era costume: ousadia que foi vivamente punida; o que deu lugar ao
exame de seu nascimento, que se revelou impuro e em breve o expôs à ignomínia.
 Esse detestável livro Sepher Toldos Jeschut era conhecido desde o segundo século; é citado por Celso
com confiança e Orígenes refuta-o no nono capítulo.