DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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Existe outro livro também intitulado Toldos Jeschut, publicado no ano de 1705 pelo Sr. Huldrich, que
segue mais de perto o Evangelho da infância mas que comete, a todo momento, os anacronismos e faltas
mais grosseiros. Faz nascer e morrer Jesus Cristo no reinado de Herodes, o Grande; pretende terem sido
dirigidas a esse príncipe as queixas sobre o adultério de Panter e de Maria, mãe de Jesus.
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 O autor, que toma o nome de Jonatã, que se diz contemporâneo de Jesus Cristo e morador em
Jerusalém, adianta que Herodes consultou os senadores de uma cidade da terra de Cesárea sobre o caso
de Jesus Cristo. Não seguiremos um autor tão absurdo em todas as suas contradições.
 No entanto é a favor de todas essas calúnias que os judeus se entretêm em seu ódio implacável contra
os cristãos e contra o Evangelho; nada esqueceram eles para alterar a cronologia do Velho Testamento e
para espalhar dúvidas e dificuldades sobre o tempo da vinda do nosso Salvador.
 Ahmed-ben-Cassum-al-Andacusi, mouro de Granada que viveu nos fins do século XVI, cita o antigo
manuscrito árabe que foi encontrado junto a seis lâminas de chumbo, gravado em caracteres árabes,
numa gruta perto de Granada. D. Pedro y Quinones, arcebispo de Granada, prestou ele próprio
testemunho. Essas lâminas de chumbo que chamamos de Granada foram depois transladadas para Roma,
onde, após um exame de vários anos, foram finalmente condenadas como apócrifas, sob o pontificado de
Alexandre VII; não continham senão histórias fabulosas concernentes à vida de Maná e seu filho.
 O nome de Messias, acompanhado do epíteto falso, ainda se dá a esses impostores que, em épocas
diversas, procuraram mistificar a nação judaica. Houve desses falsos Messias antes mesmo da vinda do
verdadeiro ungido de Deus. O sábio Gamaliel fala(52) de um certo Teodas cuja história se lê nas
Antigüidades Judaicas de José; livro 20, capítulo 2. Jactava-se de haver passado o Jordão a pé seco;
conseguiu grande número de adeptos que o seguiam; mas os romanos, caindo sobre sua tropa,
dizimaram-na, cortaram a cabeça do desgraçado chefe e a expuseram em Jerusalém.
 Gamaliel fala também de Judas, o Galileu, que é sem dúvida o mesmo mencionado por José, no
capítulo 12 do segundo livro da Guerra das Judeus. Diz que esse falso profeta reunira quase trinta mil
adeptos; porém a hipérbole é o característico do historiador judeu.
 Desde os tempos dos apóstolos viu-se Simão, cognominado o Mágico (53), seduzir os habitantes de
Samaria a ponto de o considerarem como a virtude de Deus.
 No século seguinte, no ano 178 e 179 da era cristã, sob o império de Adriano, apareceu o falso
Messias Barco Queba, à testa de um exército. O imperador enviou contra ele Júlio Severo, que depois de
vários encontros encerrou os revoltosos na cidade de Biter; manteve um assedio obstinado e foi
violentíssimo em suas represálias; Barco Queba foi preso e condenado à morte. Adriano julgou não poder
prevenir as revoltas contínuas dos judeus, senão proibindo-os por édito de irem a Jerusalém; estabeleceu,
mesmo, postos de vigilância nas portas dessa cidade, para proibir a entrada ao resto do povo de Israel.
 Lemos em Sócrates, historiador eclesiástico(54), que no ano 434 apareceu na ilha de Cândia um falso
Messias chamado Moisés. Dizia-se o antigo libertador dos hebreus, ressuscitado para os libertar de novo.
 Um século depois, em 530, houve na Palestina um falso Messias chamado Julião; anunciou-se como
um grande conquistador que, à frente de sua nação, destruiria pelas armas todo o povo cristão; seduzidos
por suas promessas, os judeus, armados, massacraram muitos cristãos. O imperador Justiniano enviou
tropas contra ele. Travou-se batalha contra o falso Cristo: foi preso e condenado ao suplício extremo.
 No princípio do século VIII Sereno, judeu espanhol, apresentou-se como Messias, pregou, teve
discípulos e morreu como eles na miséria.
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 Vários falsos Messias surgiram no século XII. Apareceu um na França, sob o reinado de Luís, o
Jovem; foi enforcado, ele e seus correligionários, sem que jamais se conhecessem os nomes nem do
mestre nem dos discípulos.
 O século XIII foi fertilíssimo de falsos Messias; contam-se sete ou oito, aparecidos na Arábia, na
Pérsia, na Espanha e na Morávia. Um deles, que se fazia chamar David el Re, passou por ter sido um
grande mártir, seduziu os judeus, vendo-se à testa de um partido considerável; mas esse Messias foi
assassinado.
 Jacques Zieglerne, da Morávia, que viveu em meados do século XVI, anunciou a próxima
manifestação do Messias, nascido, segundo afirmava, havia catorze anos. Ele o tinha visto, dizia, em
Estrasburgo, e guardava com cuidado uma espada e um cetro para lhos entregar quando ele estivesse em
idade de ensinar.
 No ano de 1624 outro Zieglerne confirmou a predição do primeiro.
 Em 1666 Sabatê Seví, nascido em Alepo, se apresentou como o Messias predito pelos Zieglerne.
Principiou por pregar nas estradas reais e no meio dos campos; os turcos riram-se dele, apesar da grande
admiração dos seus discípulos. Parece que não agradou à maioria da nação hebraica, pois os chefes da
sinagoga de Smirna lavraram contra ele uma sentença de morte; mas livrou-se da pena, sofrendo somente
o medo e o exílio
 Contratou três casamentos que não chegou a realizar, segundo se diz. Associou-se a um certo Natã
Leví: este fez o papel do profeta Elias, que devia preceder o Messias. Dirigiram-se a Jerusalém e Natã
anunciou Sabatê Seví como o libertador das nações. A população judaica declarou-se a seu favor; mas os
que tinham alguma coisa a perder o anatematizaram.
 Seví, para fugir à borrasca, retirou-se para Constantinopla, e de lá para Smirna. Natã Leví enviou-lhe
quatro embaixadores que o reconheceram e saudaram publicamente na qualidade de Messias; essa
embaixada teve certa influência no povo e mesmo em alguns doutores, que declararam Sabat Seví
Messias e rei dos hebreus. Mas a sinagoga de Smirna condenou seu rei a ser empalado.
 Sabatê pôs-se sob a proteção do cadi de Smirna, e teve em breve ao seu favor todo o povo judeu. Fez
erguer dois tronos, um para ele e outro para sua esposa favorita; tomou o nome de rei dos reis e deu a
José Seví, seu irmão, o de rei de Judá. Prometeu aos judeus assegurar a conquista do império otomano.
Chegou mesmo à insolência de fazer riscar da liturgia judaica o nome do imperador, substituindo-o pelo
seu. Foi remetido à prisão dos Dardanelos. Os judeus tornaram público que: só se poupara a sua vida por
que os turcos sabiam muito bem que ele era imortal. O governador dos Dardanelos enriqueceu-se à custa
dos presentes que os hebreus lhe prodigalizaram para visitar o seu rei, o seu Messias, prisioneiro que,
entre grades, conservava toda a sua dignidade, deixando que lhe beijassem os pés.
 Entretanto o sult\ufffd\ufffdo, que tinha a sua corte em Andrinopla, resolveu acabar com essa comédia; mandou
chamar Seví e disse-lhe que se ele fosse Messias deveria ser invulnerável; Seví concordou. O grão senhor
mandou que o colocassem como alvo das flechas de seus pagens; o Messias compreendeu logo nada ter
de invulnerável e pretextou que Deus apenas o enviara para render testemunho à santa religião
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muçulmana. Fustigado pelos ministros da lei, tornou-se mafomista e morreu desprezado igualmente por
judeus e muçulmanos: o que desacreditou de tal forma a profissão de falso Messias que Seví foi o último
deles.(55).
METAMORFOSE, METEMPSICOSE
 Não é muito natural que todas as metamorfoses de que a terra está repleta tenham feito imaginar, no
Oriente, onde tudo foi imaginado, que nossas almas passam de um corpo a outro? Um ponto quase
imperceptível torna-se um verme, esse