DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE
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DICIONÁRIO FILOSÓFICO VOLTAIRE


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Filosófico.
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 Era o boi Apis adorado em Menfis como deus, como símbolo ou como boi? É de crer que os fanáticos
nele vissem um deus, os cultos mero símbolo e que o vulgo ignorante adorasse o boi. Terá Cambises
feito bem, quando conquistou o Egito, em matar esse boi com as próprias mãos? Por que não? Com isso
fez ver aos imbecis que se podia passar seu deus à faca sem que a natureza se armasse para vingar o
sacrilégio.
 Incensaram-se muito os egípcios. Não sei de povo mais desprezível. Encarrapatou-se-lhes sempre no
caráter e no governo um vício radical que os fez um povo de eternos e vis escravos. Que tenham, em
épocas imemoriais, conquistado a terra. Na clareira dos tempos históricos, porém, avassalaram-nos
quantos povos quiseram dar-se ao trabalho - assírios, persas, gregos, romanos, árabes, mamelucos,
turcos, enfim, toda gente, salvo os cruzados, que não lhes conheciam a fraqueza. Foi a milícia dos
mamelucos que venceu os franceses. Não há talvez mais que duas coisas sofríveis nessa nação: primeiro,
que adorando um boi nunca constrangeram quem adorasse um macaco a mudar de religião; segundo,
terem inventado a chocadeira artificial.
 Gabam-se-lhes as pirâmides. Mas as pirâmides são monumentos de um povo de escravos. Foi preciso
pôr de baixo de canga toda uma nação, sem o que essas vis massas não teriam sido levantadas. Que
finalidade tinham? Conservar em uma pequena câmara a múmia de algum príncipe, de algum
governador, de um intendente qualquer, porque ao cabo de mil anos sua alma devia reanimá-la. Mas se
esperavam a ressurreição dos corpos, por que lhes extraiam os miolos antes de embalsamá-los? Será que
os egípcios deviam ressuscitar sem cérebro?
APOCALIPSE
 Justino o Mártir, que escreveu pelo ano de 170(5) da nossa era, é quem primeiro fala no Apocalipse.
Perfilha-o ao apóstolo João o Evangelista. Perguntando-lhe o judeu Trifão se não cria que Jerusalém
devesse ser algum dia restaurada, respondeu Justino que sim, como o acreditavam todos os cristãos que
pensavam com acerto. "Houve entre nós" - diz - "uma personagem de nome João, um dos doze apóstolos
de Jesus, o qual predisse passarão os fiéis mil anos em Jerusalém".
 Foi opinião por muito tempo aceita pelos cristãos a de um reinado de mil anos. Esse período
desfrutava de grande crédito entre os gentios. Passados mil anos retomavam os corpos as almas entre os
egípcios. O mesmo espaço de tempo, et mille per annos, penavam as almas no purgatório de Virgílio. A
nova Jerusalém de mil anos teria doze portas, em memória dos doze apóstolos. A forma seria quadrada.
Comprimento, largura e altura seriam de doze mil estádios - quinhentas léguas - de maneira que as casas
teriam também quinhentas léguas de alto. Haveria de ser bem desagradável morar no último andar. Mas
enfim é o que diz o Apocalipse, capítulo 21.
 Se foi Justino o primeiro em atribuir o Apocalipse a S. João, personalidades houve que lhe refugaram
o testemunho, atendendo a que no mesmo diálogo com o judeu Trifão diz ele que, consoante o relato dos
apóstolos, Jesus Cristo, descendo ao Jordão, ferveu-lhe e inflamou-lhe as águas. O que não consta em
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nenhum dos escritos dos apóstolos.
 O mesmo S. Justino não hesita em citar os oráculos das sibilas. E pretende ter visto restos das celas
em que, no tempo de Herodes, foram encerrados no farol de Alexandria os setenta e dois intérpretes. O
testemunho de um homem que teve a má fortuna de ver tais celas parece indicar mas é que devia ser
metido nelas.
 Posteriormente Sto. Ireneu, que também acreditava no reinado de mil anos, diz ter sabido de um velho
que o Apocalipse era de autoria de S. João(6). Mas já se reprochou a Sto. Ireneu o haver escrito não
deverem existir senão quatro Evangelhos pela só razão de ter o mundo apenas quatro partes, quatro
serem os ventos cardeais e não ter Ezequiel visto mais que quatro animais. Chama ele a isso
demonstração. Em singularidade, a demonstração do ar. Ireneu não fica atrás da visão do sr. Justino.
 Clemente de Alexandria, nas Electa, só se refere a um Apocalipse de S. Pedro, a que se reportava
extraordinária monta. Tertuliano, partidário ferrenho do reinado de mil anos, não se contenta em afirmar
que S. João predisse a ressurreição e o reinado milenário na cidade de Jerusalém: quer também que esta
Jerusalém já se começava a formar no ar; que todos os cristãos da Palestina, e até os pagãos, a tinham
visto durante quarenta dias sucessivos às últimas horas da noite. Infelizmente, porém, mal despontava o
dia a cidade se esvaecia.
 Em seu prefácio sobre o Evangelho de S. João e nas Homilias, cita Orígenes os oráculos do
Apocalipse, mas igualmente cita os oráculos das sibilas. Já S. Dinis de Alexandria, que escreveu por
meados do século III, diz em um de seus fragmentos conservados por Eusébio (7) que a quase totalidade
dos eruditos rejeitava por uma boca o Apocalipse como livro destituído de razão. Que esse livro não o
escreveu S. João, e sim um tal Cerinto, que se servira de um grande nome para dar mais peso a suas
fantasias
 O concílio de Laodicéia (360) não recenseou o Apocalipse entre os livros canônicos. Singular é haver
Laodicéia repulsado um tesouro que lhe fora enviado expressamente, e que também o refutasse o bispo
de Éfeso, cidade em que se descobrira, enterrado, esse livro de S. João.
 Para todos S. João ainda padejava na sepultura, fazendo a terra levantar e baixar continuamente.
Entanto esses mesmos senhores certos de que S. João não estava de todo morto, também estavam certos
de que ele não escrevera o Apocalipse. Os advogados do reinado de mil anos, não obstante,
mantiveram-se irremovíveis em sua opinião. Sulpício Severo (História Sagrada, livro 9) chama
insensatos e ímpios aos que não acatavam o Apocalipse. Afinal, depois de muita dúvida, muita oposição
de concílio a concílio prevaleceu o parecer de Sulpício Severo. Deslindado o mistério, decidiu a igreja
ser o Apocalipse incontestavelmente de S. João. Não há, pois, apelar.
 Atribuíram as comunhões religiosas cada qual a si as profecias desse livro. Nele viram os ingleses as
revoluções da Grã Bretanha. Os luteranos, as convulsões da Alemanha. Os reformados da França, o
reinado de Carlos IX e a regência de Catarina de Médicis. Todos tiveram igualmente razão.
 Bossuet e Newton comentaram o Apocalipse. As declamações eloqüentes de um e as sublimes
descobertas de outro foram-lhes, todavia, muito mais honrosas que seus comentários.
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ATEU, ATEÍSMO
 Antigamente, quem quer que tivesse um segredo numa arte corria o risco de passar por bruxo. Toda
seita nova era acusada de degolar crianças em seus mistérios. Todo filósofo que se desgarrasse da jíria da
escola era criminado de ateísmo pelos fanáticos e espertalhões. E condenado pelos cretinos.
 Anaxágoras tem o atrevimento de pretender não ser o sol conduzido por Apolo montado numa
quadriga: chamam-lhe ateu e o obrigam a expatriar-se.
 Aristóteles é culpado de ateísmo por um sacerdote. Não podendo fazer punir o caluniador, retira-se
para Calcis. Mas a morte de Sócrates é o que de mais odioso tem a história da Grécia
 Quem primeiro induziu os atenienses a verem um ateu em Sócrates foi Aristófanes, que os
comentadores admiram por ter sido grego, esquecendo-lhes que Sócrates também o era.
 Esse poeta cômico, que não foi nem cômico nem poeta, não seria admitido entre nós a representar
farsas na feira de Saint-Laurent. Parece-me muito mais vil e desprezível do que o despinta Plutarco. Eis o
que diz o sábio Plutarco de tal farsista: "A linguagem de Aristófanes denuncia o miserável charlatão que
é. São as graçolas mais canalhas e repugnantes. Não chega a agradar o povo e as pessoas de
discernimento