OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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porque não haveria elemento nenhum que 
pudesse, por ser desfavorável o tempo, ver-se impedido de união geradora. E 
também não seria necessário nenhum tempo para se reunirem as sementes e 
crescerem os seres, se do nada pudessem surgir; de meninos pequenos se fariam de 
relance homens na força da idade e da terra sairiam as árvores já formadas. Sabe-se, 
porém, que nada disto acontece: tudo cresce pouco a pouco, como é natural, e de 
elementos determinados; e tudo o que vai crescendo se mantém na sua espécie. Por 
aí se pode ver que tudo se desenvolve sobre matéria própria e dela se alimenta. 
A isto acresce que sem as chuvas regulares não pode a terra produzir os 
frutos que são fonte de alegria, nem pode a natureza, privada de alimento, propagar 
as raças de animais e conservar a vida; e é mais fácil admitir que existe um grande 
número de corpos comuns a muitos seres, como acontece com os elementos das 
palavras, do que a possibilidade de haver alguma coisa que não tenha princípio. 
Finalmente, por que razão não poderia a natureza ter feito homens tão 
grandes que pudessem passar a vau o oceano, separar com as mãos os altos montes 
e ultrapassar, vivendo, muitos séculos de vida, se não fosse porque há uma 
quantidade determinada de matéria para tudo o que se gera e dela se compõe tudo 
o que surge? Tem de se admitir que nada pode nascer do nada, porque toda criatura 
precisa de algum germe para que depois lhe seja possível elevar-se nas suaves auras 
do ar. 
Além de tudo, se vemos os lugares cultivados valerem mais do que os 
incultos e restituírem às mãos frutos melhores, é porque a terra contém, com toda 
certeza, os germes das coisas, e somos nós quem, revolvendo com o arado as 
fecundas glebas e amanhando a terra, os fazemos eclodir. Se eles não existissem, 
tudo, sem o nosso trabalho, se tornaria, até espontaneamente, muito melhor ainda. 
Acrescente-se a isto que a natureza faz voltar todos os corpos aos seus 
elementos, mas nada aniquila inteiramente;18F8 se alguma coisa estivesse sujeita a 
 
8 É evidente que, se nada pode vir do nada, alguma coisa tem sempre de existir para que outra apareça: nada, portanto, pode voltar 
inteiramente ao nada; tudo o que desaparece se transforma noutro ser. 
perecer em todos os seus elementos, poderia desaparecer subitamente da nossa 
vista; não seria necessária nenhuma força para produzir o fim das suas partes e para 
lhes desfazer a ligação. Mas, de fato, como todos os seres se compõem de germes 
eternos, não permite a natureza que se veja o fim de coisa alguma senão quando 
surge alguma força que pelo choque a despedace, ou se insinue pelos espaços 
vazios e a dissolva. 
Se fora certo que o tempo, a tudo quanto faz desaparecer pela idade, 
consome inteiramente a matéria, como poderia Vênus trazer de novo à luz da vida 
as gerações de animais, e como, depois de eles terem surgido, poderia a terra 
criadora encontrar com que os sustentar e fazê-los crescer, apresentando-lhes 
alimento? Donde vêm ao mar as fontes próprias e os rios que de longe lhe trazem 
águas alheias? E o céu, como alimenta os astros? Efetivamente, já há muito o 
tempo infinito e os dias passados deveriam ter destruído tudo o que tem corpo 
mortal. Pois se durante todo este tempo e a idade transata houve elementos com 
que se pudesse refazer este mundo, é seguro que eles são dotados de natureza 
imortal; nada, portanto, pode volver ao nada. 
Por fim, a mesma força,19F9 a mesma causa, poderia destruir sem distinção 
todas as coisas, se a matéria eterna a não mantivesse como que numa rede mais ou 
menos cerrada. O simples contato seria uma causa de morte, porque nada haveria 
de corpo eterno cujo contexto só pudesse ser desfeito por uma força determinada. 
Mas como há, de elemento a elemento, ligações especiais, e a matéria é eterna, 
permanecem os seres com seu corpo incólume, até que apareça uma força bastante 
forte que lhes desagregue a estrutura. Nada, portanto, volta ao nada; tudo volta, 
pela destruição, aos elementos da matéria. 
Acabam as chuvas por se perder quando o ar que as engendrou as precipita 
no seio da terra-mãe; mas surgem as brilhantes searas e verdejam os ramos das 
árvores, e crescem elas próprias e se carregam de frutos. Deles se alimentam a 
 
9 Para que os corpos se possam transformar noutros corpos são necessárias duas condições: pela primeira, deve haver, como ligação entre 
eles, dando-lhes as suas características comuns de corpos, um elemento eternamente idêntico a si próprio; pela segunda, esse elemento deve 
ser bastante móvel, bastante capaz de troca e de combinação, para desempenhar cabalmente o seu papel. Por outro lado, como não vemos 
nos corpos nenhum desses elementos, devem eles ser invisíveis; chega-se assim à idéia do átomo que aparece desde muito cedo na filosofia 
grega e que veio até o nosso tempo, embora a concepção moderna de átomo seja bastante diferente da do átomo grego, que mais 
corresponderia talvez, pelo menos com certos pensadores, à nossa idéia de molécula. 
nossa raça e a raça dos animais bravios, por eles vemos as alegres cidades 
florescerem em crianças e cantarem os bosques frondosos com suas aves novinhas; 
é por eles também que as ovelhas, que de gordas se cansam, deitam nos pastos os 
corpos nédios e o lácteo resplandecente néctar líquido lhes mana dos úberes 
pejados; é por eles, ainda, que a nova geração brinca ligeira, por entre as ervas 
tenras, com suas patas incertas e a juvenil cabeça perturbada pelo leite puro. Por 
conseguinte, não é destruído inteiramente nada do que parece destruir-se, porque a 
natureza refaz os corpos a partir uns dos outros e não deixa que nenhum se crie 
senão pela ajuda da morte de algum outro. 
Mas agora, visto que te ensinei que nada pode surgir do nada, nem os seres 
criados podem volver ao nada, e para que não principies a duvidar do que se disse, 
pelo fato de que não se podem distinguir com a vista os elementos das coisas, 
escuta exemplos de corpos cuja existência é segura na natureza e que, no entanto, 
não se podem ver. 
Em primeiro lugar, a força desencadeada do vento chicoteia o oceano, 
afunda grandes navios e dispersa as nuvens, ou então, percorrendo as planícies em 
veloz turbilhão, as alastra de árvores enormes e bate os montes mais altos com seus 
sopros que devastam florestas; tão violento é o seu furor e tão cruel a sua cólera 
quando freme e sibila e ameaça e ruge. 
São, pois, os ventos, e não é maravilha nenhuma, corpos invisíveis que 
varrem o mar e as terras e até as nuvens do céu, e as assaltam de súbito e em 
turbilhão as arrastam; precipitam-se e espalham a destruição exatamente como um 
rio de brandas águas que se enche de súbito com as torrentes que as chuvas 
abundantes fazem descer do alto dos montes, e que levam consigo destroços de 
florestas e árvores inteiras; as sólidas pontes não podem agüentar a repentina 
violência da água que se precipita; o rio, perturbado pelas grandes chuvas, investe 
as estruturas com força irresistível; derruba-as com enorme estrondo, revolve sob 
as ondas as pedras imensas e lança-se sobre todo obstáculo que se oponha à 
corrente. 
É também assim que devem ir os ventos assoprando: mal, como um rio 
violento, se abatem sobre qualquer lugar, levam tudo à sua frente, tudo arruínam 
com seus crebros ataques; ou então arrebatam as coisas, voltejando, e levam-nas em 
giros de turbilhão. Não há, pois, dúvida alguma de que são os ventos corpos 
invisíveis, visto que se descobre serem êmulos, pelas características e pelos feitos, 
dos grandes rios que têm corpo visível. 
Depois, sabemos dos vários odores dos seres e, no entanto, não os vemos