OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


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os corpos onde estar 
colocados, nem se poderiam de modo algum mover para qualquer parte; foi o que 
te demonstramos um pouco acima. 
Além disso, nada existe que possas dizer separado, afastado de qualquer 
outro corpo ou do vazio, como se fosse uma terceira parte da natureza: 
efetivamente, tudo o que existe deve ser alguma coisa em si próprio; se for sensível 
ao tato, por menor e mais tênue que seja, irá aumentar, desde que exista, com 
aumento grande ou pequeno, o número e conjunto total dos corpos; se o tato não 
der por ela, se não puder impedir que alguma coisa o atravesse por qualquer parte, 
então será aquilo a que chamamos vazio. Depois, tudo o que existir por si, ou terá 
ação própria, ou deverá aproveitar-se de outros corpos ativos, ou ser de modo que 
nele possam existir e fazer-se coisas; nada, porém, pode dar espaço se não for vazio 
e vago; portanto, além dos corpos e do vazio, não fica, no número das coisas, nada 
que caia em qualquer momento na denúncia dos nossos sentidos ou que possa ser 
percebido pelo raciocínio do espírito. 
Tudo aquilo que tem um nome, encontrá-lo-ás ou inerente a uma destas 
coisas ou como acidental. É inerente tudo o que não se pode separar ou abstrair do 
corpo sem a destruição deste, como, por exemplo, o peso da pedra, o calor do 
fogo, o fluido da água, a tangibilidade de todos os corpos, a intangibilidade do 
vazio. Mas a escuridão, a pobreza e a riqueza, a liberdade, a guerra, a paz, tudo 
aquilo que, por chegar ou partir, não modifica a natureza dos corpos, tem, segundo 
o nosso costume e como é justo, o nome de acidental. 
Do mesmo modo, o tempo não existe por si:21F11 é dos próprios 
acontecimentos que vem o sentimento do que se deu no passado, depois do que é 
presente, em seguida do que há de vir; na realidade, ninguém tem idéia do tempo 
em si próprio, separado do movimento das coisas e do seu plácido repouso. 
Quando se diz que foi roubada a filha a Tíndaro, e que as gentes de Tróia foram 
dominadas pela guerra, é preciso ver que isto nos não leve a afirmar que tudo teve 
existência própria, quando é certo que as gerações de homens, de que foram 
acidentes, já há muito as fez desaparecer o irrevogável passado; tudo aquilo que se 
deu pode ser considerado acidente ou das gerações ou dos lugares. Finalmente, sem 
a matéria, que forma os corpos, e sem o lugar e o espaço, em que tudo se dá, jamais 
a chama de amor levantada pela beleza da filha de Tíndaro no peito de Alexandre 
teria inflamado os célebres combates desta guerra terrível ou incendiado Pérgamo 
quando o cavalo de madeira, sem que os troianos o soubessem, teve de noite o seu 
parto de gregos; por onde se vê que os acontecimentos, sem exceção, não podem, 
como os corpos, existir ou subsistir por si próprios, nem existir, seja como for, à 
maneira do vazio: é melhor considerá-los acidentes da economia do espaço, em que 
tudo acontece. 
 
11 O problema do tempo fica em Lucrécio por tratar, apesar dos versos que dedicou ao assunto; e não podia ser de outro modo: se admitisse 
um tempo absoluto isto poria no seu mundo uma terceira entidade, além do espaço e da matéria, e uma entidade que não era nem da 
natureza da matéria nem da natureza do espaço; se pusesse o tempo como existente no observador, isso o obrigaria a aceitar uma estrutura 
idealista do universo; adotou pois, e cremos que mais por instinto do que por inteligência, uma solução que na realidade não é solução, 
visto que põe o tempo como resultado da impressão que faz no espírito do observador o decorrer dos acontecimentos; mas não vê que só 
existe o decorrer quando se afere o mundo por um padrão de tempo. No que Lucrécio pode ter razão é em ter pensado que mundo e tempo 
estão indissoluvelmente ligados. 
Os corpos são em parte formados pelos elementos e em parte pelo que 
resulta da reunião destes elementos: o que é elemento, nada o pode destruir; tudo 
venceu pela sua solidez. Entretanto, parece difícil de aceitar que haja nos corpos 
alguma coisa toda sólida; o fogo do céu atravessa paredes de casas exatamente 
como os gritos e os sons; o ferro incandesce no lume e despedaçam-se as rochas 
com a violência do fervente vapor; a dureza do ouro cede, abalada pelo calor; a 
rigidez do bronze se liquefaz, vencida pela chama; o calor e o frio penetrante se 
infiltram pela prata, visto que os sentimos a um e outro quando temos na mão uma 
taça e se deita de cima, segundo o uso, o orvalho das águas; nada no Universo 
parece sólido nas coisas. Mas, visto que temos de ir seguindo o raciocínio exato e a 
natureza, deixa que em poucos versos mostremos que há coisas sólidas e eternas, 
que ensinemos serem os germes os elementos dos corpos; é deles que se compõe 
tudo o que existe de criado. 
Em primeiro lugar 22F12 e em virtude de se ter estabelecido que é dupla e 
diferente a natureza dos dois elementos \u2014 a matéria e o espaço em que tudo 
sucede \u2014, é evidente que cada um deles existe por si próprio e puro. Com efeito, 
em todo lugar por que se estende o espaço a que chamamos vácuo não há matéria 
alguma; por outro lado, em todo lugar em que existe matéria não pode haver 
nenhum vácuo ou vazio. Portanto, os corpos primeiros são matéria sólida e sem 
vazio. 
Além disso, visto existir o vácuo em todas as coisas criadas, é fatal que haja 
em torno matéria sólida, e, pensando bem, não se poderia aceitar que qualquer 
corpo incluísse e escondesse em sua matéria o vácuo, se não se admitisse que existe 
qualquer coisa de sólido que o contém. Ora, não há nada que possa conter o vácuo 
dos corpos a não ser o agregado da matéria; portanto, pode ser eterna a matéria, 
que se compõe de elementos sólidos, embora todo o resto se desfaça. 
 
12 No que se segue, até a refutação da doutrina de Heráclito, Lucrécio de certo modo não faz mais do que repetir ou ampliar algumas das 
noções já expostas; parece que a insistência era uma das características da escola epicurista e nem de outro modo se poderia explicar que o 
mestre tivesse escrito centenas de trabalhos sobre um acervo de idéias tão limitado e simples; mas em Lucrécio a facilidade na repetição 
deve provir também de uma característica comum aos romanos, a de não saber passar com discrição e ligeireza sobre cada um dos temas 
que tinham a tratar; dir-se-ia que sentem sempre certa desconfiança perante a capacidade intelectiva e retentiva do auditor ou do leitor. 
Mas também, se não houvesse coisa alguma a que pudéssemos chamar 
vácuo, tudo seria sólido; e, ao inverso, se não houvesse quaisquer corpos que 
enchessem o espaço ocupado, tudo o que há constaria apenas de vácuo, de vazio. 
É, portanto, evidente que a matéria e o vazio se misturam e se separam 
alternativamente, pois o mundo não é inteiramente cheio nem inteiramente vazio. 
Há, conseqüentemente, certos corpos que podem interromper, enchendo-o, o 
espaço vago, e corpos, como já demonstramos um pouco acima, que não podem 
ser desfeitos por nenhum choque vindo de fora, nem despedaçar-se por terem sido 
penetrados por outro corpo, nem cair em ruínas por outro qualquer motivo, 
porquanto sem vácuo nada pode ser esmagado, nem quebrado, nem cortado e 
dividido em dois pedaços, nem apanhar umidade, ou o agudo frio ou o penetrante 
fogo que tudo destroem; e. quanto mais vazio se contém num corpo, tanto mais 
profundamente o atacam e arruínam estas coisas. 
Se, por conseqüência, e conforme ensinei, são os elementos compactos sem 
vazio, é força que sejam eternos; além de tudo, se a matéria não fosse eterna, já há 
muito tempo haveriam todas as coisas volvido ao nada, e do nada teria renascido 
tudo o que vemos. Mas, como já antes demonstrei que nada pode ser criado