OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


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depois, por uma ligeira diminuição ou por um ligeiro aumento, e mudada a ordem e 
o movimento, dar origem às auras do ar, e assim tudo se transformar em tudo? 
"Mas", dirás tu, "é fato inegável que todas as coisas crescem da terra para o 
céu e dele se alimentam; e se um tempo favorável lhes não dá chuvas, fazendo 
inclinar os arbustos sob a liquefação das nuvens, se, por sua parte, o sol as não 
aquece, lhes não dá o seu tributo de calor, não podem crescer nem as searas, nem 
as plantas arbóreas, nem os animais." 
Claro que sim: e nós próprios, se não nos ajudassem alimentos sólidos e 
líquidos brandos, perderíamos corpo e toda a vida nos fugiria de todos os nervos e 
de todos os ossos. É fora de dúvida que nos alimentamos e mantemos de certas 
coisas, e que outros de outras o fazem; e nada há nisto que espante: uma 
quantidade de elementos comuns se encontra nos corpos, misturados de mil 
modos, e por isso várias coisas de várias coisas se alimentam. 
Além de tudo, é de grande importância, muitas vezes, considerar as 
combinações que formam, as posições que ocupam e os movimentos que uns dos 
outros recebem. São os mesmos os elementos que formam o céu, o mar, as terras, 
os rios, o Sol, e os que formam as searas, as árvores, e os animais: mas em cada qual 
se movem dispostos de modo diferente. 
É o que se passa nestes meus versos: vão neles muitos elementos comuns a 
muitas palavras: e, no entanto, tem de se reconhecer que versos e palavras diferem 
muito entre si, não só pelo sentido como também pelo som com que soam. Tanto 
podem os elementos, só porque mudam de posição! Mas os princípios das coisas 
têm ao seu dispor mais numerosos meios para que possam criar os corpos mais 
variados. 
Estudemos agora a homeomeria de Anaxágoras:25F15 é o nome que lhe dão os 
gregos e que a pobreza de vocabulário pátrio não permite transpor para a nossa 
língua; mas é fácil explicá-lo, ao conceito em si, por outras palavras. 
Primeiro, aquilo a que chama homeomeria das coisas é que, por exemplo, os 
ossos sejam constituídos por pequeníssimos, diminutos ossos, que as vísceras se 
formem de vísceras diminutas, pequeníssimas, que o sangue surja do juntar entre si 
de muitas gotas, que o ouro; segundo o que pensa, possa ser constituído por 
partículas de ouro, que a terra nasça de terras, o fogo de pequenos fogos, e a 
umidade de umidades; e acha que tudo se forma do mesmo modo. Todavia, não 
aceita que haja em parte alguma vazio nas coisas nem que haja limite à divisão dos 
corpos; ora, parece-me que nestes dois pontos erra e, pela mesma razão, tanto 
como os outros de quem falamos acima. 
Acrescente-se a isto que os elementos que concebe são bem frágeis, são 
elementos primordiais e, no entanto, são de natureza igual à dos corpos que 
constituem, do mesmo modo se fatigam e perecem, e nada os salva da destruição. 
De fato, que há neles que possa resistir a um assalto violento, que possa escapar à 
morte, já mesmo nas fauces do seu termo? O fogo, ou a água, ou o ar? 
O que, então? O sangue, os ossos? Creio eu que nada: tudo será tão 
inteiramente perecível como as coisas que vemos, claramente, a nossos olhos, 
acabar vencidas por uma força qualquer. Porém nada pode recair em nada, nada de 
nada pode nascer: bastam as provas que já dei. 
Além disso, como os alimentos aumentam e nutrem o nosso corpo, isto é, as 
veias, o sangue, os ossos, se se disser que esses alimentos são por natureza 
compostos, resultará que se tem de admitir que têm em si, todos eles, quer sejam 
sólidos ou líquidos, pequenas partículas de nervos, ossos e, certamente, veias e 
 
15 A apresentação que Lucrécio faz das concepções de Anaxágoras é ligeiramente caricatural, apesar de haver textos que dão alguma base 
à sua interpretação. No entanto, a "homeomeria" de Anaxágoras parece estar, por certos aspectos, muito próxima dos átomos da física 
moderna; para ele, e falando uma linguagem atual, o átomo do ferro seria diferente do átomo do hélio ou do átomo do chumbo; a 
substância ferro não poderia em caso algum ser formada, por exemplo, de átomos de ouro. Resumindo a evolução da hipótese atomística, 
pode dizer-se que Xenófanes e Empédocles dão o primeiro passo pondo os elementos como mais de um, mas em número limitado; 
Anaxágoras dá o segundo, atribuindo a cada substância o seu átomo próprio; Demócrito, o terceiro, pondo os corpúsculos como podendo 
formar vários corpos diferentes; a física atual fez como que a síntese das três noções, fixando o número de corpos simples, pondo para cada 
um uma determinada estrutura do átomo e formando cada átomo de cargas idênticas de átomo a átomo e capazes de troca. 
gotas de sangue, e que constam de elementos heterogêneos, de ossos e de nervos, 
de soro e de sangue misturados. 
Depois, se todos os corpos que crescem da terra estão na terra, é fatal que a 
terra se componha dos seres heterogêneos que dela saem. Passa a outro campo, e 
poderás usar as mesmas palavras. Se na lenha se escondem chama, fumo e cinza, 
tem de se admitir que se compõe a lenha de elementos heterogêneos. Além disso, 
todos os corpos que a terra alimenta, ela os faz crescer com as substâncias 
heterogêneas que depois saem da lenha. 
Resta aqui uma leve possibilidade de fuga, e é o que faz Anaxágoras, dizendo 
que tudo existe misturado e escondido em tudo, mas que só nos aparece o corpo 
cujos elementos se encontrem em maior número, colocados mais à frente, e com 
mais eficiência. Isto, porém, está bem longe da verdadeira razão. Se assim fosse, 
muitas vezes as searas, quando são esmagadas pela terrível força da pedra, 
mostrariam algum sinal de sangue ou de outras coisas que em nosso corpo se 
criam. 
Pela mesma razão, era de esperar que manasse sangue das ervas que 
esmagamos entre pedra e pedra, e aparecessem gotas doces e saborosas de gosto 
igual ao do leite das lanígeras ovelhas; e surgissem freqüentemente pelas fendas das 
glebas as espécies de ervas e as searas e as frondes que na terra em pequenos 
elementos devem ocultar-se; e que, para terminar, se pudesse distinguir na lenha, 
quando se quebrasse, a cinza, e o fumo, e os fogos diminutos. Ora, os fatos nos 
mostram com toda evidência que as coisas não estão assim misturadas nas coisas, 
mas que nelas devem estar ocultos, de modos variados, elementos comuns a muitos 
corpos. 
"Mas", dirás tu, "acontece muitas vezes, nos altos montes, que as árvores 
mais elevadas rocem os cimos uns pelos outros, sob o ímpeto dos austros 
violentos, até que a flor do fogo rebente e flameje." Sem dúvida: e, no entanto, o 
fogo não está oculto nos troncos: estes encerram numerosos elementos inflamáveis 
que se juntam ao roçarem e dão origem aos incêndios das florestas. Se de fato o 
fogo estivesse dissimulado nos bosques, não poderia ocultar-se nunca e logo 
abrasa-ria as florestas e queimaria as árvores. 
Vês então agora, como acima te disse, que tem a maior importância saber-se 
com que elementos estão misturados os elementos e qual a posição que ocupam, e 
quais os movimentos que transmitem e recebem? Vês como podem os mesmos 
elementos, mudando um pouco, criar fogo e madeira? É o mesmo que acontece 
com as palavras: mudando um pouco os elementos, podemos nomear, com som 
diverso, "madeira" e "fogo". 
Por fim, se julgas que não se pode produzir tudo o que vês nos objetos 
manifestos sem que se atribua aos elementos dos corpos a mesma natureza que a 
estes últimos, por aí se vão perder os princípios mesmos das coisas: vão gargalhar 
sacudidos pelo trêmulo riso, vão banhar de lágrimas salgadas o rosto e as faces. 
Vamos agora saber do que resta e ouvir coisas mais claras. 26F16 Bem sei que 
tudo é obscuro; mas uma grande esperança de glória com