OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
591 pág.

OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
Pré-visualização50 páginas
seu agudo tirso me 
atravessou o coração e incutiu-me no peito, ao mesmo tempo, o doce amor das 
Musas; incitado por ele, percorro agora, com vivo espírito, as regiões desviadas das 
Piérides, que ninguém trilhou antes de mim. 
É bom ir às fontes virgens e beber, é bom colher flores desconhecidas e com 
elas trançar para a minha fronte coroa insigne, qual nunca a ninguém a puseram as 
Musas. Primeiro, porque te ensino importantes assuntos e procuro libertar-te o 
espírito dos apertados nós religiosos; depois, porque sobre um tema obscuro vou 
compondo tão luminosos versos, a tudo tocando com a graça das Musas. Isto 
mesmo parece perfeitamente justificado; assim como os médicos, quando tentam 
dar às crianças o repugnante absinto, primeiro põem, no bordo da taça, loiro, fluido 
e doce mel, de modo que, pela idade imprevidente e pelo engano dos lábios, 
tomem a amarga infusão do absinto e, não significando este engano prejuízo, 
possam deste modo readquirir a saúde, assim também eu, como esta doutrina 
 
16 O papel de iniciador refere-se sempre na obra de Lucrecio ao seu aparecimento na literatura latina. Deve, porém, registrar-se que já 
antes de Lucrecio se tinha tentado o poema didático; ninguém, no entanto, tinha composto sobre o epicurismo. As dificuldades entre o vulgo 
e os epicuristas devem entender-se provavelmente no que diz respeito aos ataques à religião tradicional; além de tudo, a doutrina pareceu 
sempre difícil de aceitar e "tristior", como diz o poeta, aos que não dispensavam a consolação de se sentirem ligados a um poder espiritual 
que tivesse seu reino para além das difíceis e incertas aparências do mundo. 
parece muito desagradável a quem a não tratou, e foge diante dela, horrorizado, o 
vulgo, quis, em verso eloqüente e harmonioso, expor-te as minhas idéias, e ungi-las, 
por assim dizer, do doce mel das Musas; a ver se por acaso posso manter o teu 
espírito encantado com meus versos, enquanto penetras toda a natureza e as leis de 
sua formação. 
Mas, como já ensinei que os elementos da matéria são plenos e voam 
invictos através do tempo eterno, vamos agora verificar se tem ou não limite a sua 
soma; e veremos também se o vazio que descobrimos, isto é, o lugar, o espaço, em 
que tudo se passa, aparece como um todo limitado ou se abre, profundo, imenso, 
vasto. 
Tudo o que existe é ilimitado,27F17 qualquer que seja a direção; do contrário, 
deveria ter um fim. Ora, não pode haver fim algum a nada, sem que haja, para além, 
qualquer coisa que o limite, de modo que exista um ponto para além do qual é 
impossível aos sentidos segui-lo. Ora, tem-se de reconhecer que para lá do 
conjunto das coisas nada existe: não tem extremidade; carece, pois, de fim e de 
limite. E não importa a região em que se possa estar: qualquer que seja o lugar em 
que se esteja, sempre se deixa o todo imenso alargar-se por igual a toda parte. 
Depois, se se aceitar que todo o espaço é finito e se alguém chegar correndo 
aos últimos bordos e daí lançar um volátil dardo, achas que, arremessado com toda 
força, se dirigirá aonde foi atirado, voando ao longe, ou te parece que alguma coisa 
o poderá impedir ou deter? Tens de escolher um lado ou outro; ora, qualquer deles 
te impede a fuga e te obriga a conceder que não há limite. 
Efetivamente, quer haja um obstáculo que o impeça de atingir o ponto 
aonde foi arremessado, aí parando, quer prossiga a carreira, o que é certo é que não 
partiu do extremo limite: continuarei sempre com a mesma razão e, qualquer que 
 
17 Lucrécio prova primeiro, pela impossibilidade de se conceber a existência de qualquer limite, que o universo é infinito; se o universo é 
infinito, os átomos que o compõem serão também em número ilimitado. Como já afirmou que os átomos necessitam de espaço para mover-
se, o espaço será igualmente infinito. Para provar a existência de espaço, de vácuo ou de vazio, os epicuristas argumentavam também com a 
necessidade de se distinguirem os átomos uns dos outros: caso contrário, haveria apenas um átomo; se os átomos são em número infinito, o 
espaço terá também de ser ilimitado para que infinitamente faça a separação entre os átomos. Também havia outra linha de raciocínio: os 
epicuristas não podiam conceber o espaço senão como ilimitado; um número limitado de átomos dentro dum espaço infinito conduziria à 
dispersão total do universo, se é que alguma vez se poderia ter formado; os átomos devem ser, portanto, em número ilimitado. Deve 
esclarecer-se que em toda esta nota se empregou finito e limitado, infinito e ilimitado como significando o mesmo, para se manter a 
linguagem de Lucrécio e não porque haja qualquer propriedade na identificação dos termos. 
seja o lugar onde coloques os limites extremos, perguntarei o que sucede por fim ao 
dardo. O que vai acontecer é que nenhum limite poderá estabelecer-se: fugas 
numerosas prolongarão sempre o espaço livre. 
Além disso, se todo o espaço universal estivesse cerrado de todos os lados e 
fosse limitado, já há muito a massa de matéria, arrastada pelo peso, se teria reunido 
no fundo, e nada se poderia passar sob a abóbada do céu, nem haveria mesmo céu, 
nem a claridade do Sol: de fato, toda a matéria acumulada por sedimentação no 
decorrer da eternidade jazeria inerte. Mas não existe descanso algum para os corpos 
elementares, porque não há fundo nenhum a que possam confluir e em que possam 
estabelecer-se. Tudo anda sempre em contínuo movimento e por todos os lados; e 
do infinito se precipitam, sem cessar, os elementos da matéria. 
Finalmente, pelo que se passa à nossa vista, cada objeto parece limitar outro 
objeto: o ar limita as colinas, os montes limitam o ar, e a terra o mar, e, por seu 
turno, o mar termina todas as terras; mas na verdade, nada há, para além do todo, 
que lhe sirva de limite. 
E tal a natureza do espaço e a extensão da imensidade, que os fulgentes raios 
a não poderiam percorrer mesmo que prolongassem o seu vôo por toda a 
eternidade, e nem pelo caminho feito poderiam ter reduzido a distância que 
faltasse; efetivamente, por todo lado se abre às coisas, e em toda direção, um 
espaço sem limites. 
A natureza intervém para que o Universo não se possa fixar limites a si 
próprio: com o espaço vazio limita os corpos, e ao vazio com os corpos o limita; 
assim os alternando, torna o todo infinito: mesmo, porém, que um dos dois não 
limitasse o outro, naturalmente se estenderia por si mesmo sem encontrar limite. 
Nem de outro modo poderiam subsistir uma hora sequer o mar e a Terra e o 
luminoso templo do céu e a raça dos mortais e os sagrados corpos dos deuses. 
Dispersa do seu conjunto, a matéria seria levada, desagregando-se, pelos espaços 
infinitos; ou, antes, nem sequer se teria podido reunir para formar corpo algum, 
porquanto não poderiam juntar-se os elementos dispersos. 
Não é por certo em virtude de um plano determinado nem por um espírito 
sagaz que os átomos se juntaram por uma certa ordem; também não combinaram 
entre si com exatidão os movimentos que teriam; mas, depois de terem sido 
mudados de mil modos diferentes através de toda a imensidade, depois de terem 
sofrido pelos tempos eternos toda espécie de choques, depois de terem 
experimentado todos os movimentos e combinações possíveis, chegaram 
finalmente a disposições tais que foi possível o constituir-se tudo o que existe. E é 
por assim se terem conservado durante muitos anos, uma vez chegados aos devidos 
movimentos, que os rios saciam o ávido mar com suas grandes águas, que a Terra, 
aquecida pelo vapor do Sol, renova as suas produções, e florescem todas as raças de 
seres vivos, e se sustentam os fogos errantes pelo céu. De nenhum modo