OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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e igualmente 
animadas, ou ver-se uma frota fazer-se ao largo com celeuma, em nada influi para 
que fujam do espírito, temerosas, as pávidas crendices, nem os temores da morte 
deixam o peito vazio e livre de cuidados. 
E, se pensarmos que tudo isto é ridículo e vão, o que é verdade é que os 
terrores dos homens e os cuidados pertinazes não temem o som das armas nem os 
terríveis arremessos, e audaciosamente se metem entre reis e poderosos, não 
receando os fulgores do ouro nem o brilhante esplendor de um vestuário de 
púrpura; por que razão se há de duvidar de que só a inteligência o possa fazer, 
quando toda a nossa vida se passa labutando entre trevas? 
Exatamente como trêmulos meninos que tudo receiam nas obscuras trevas, 
assim nós tememos à luz do dia o que em nada é mais de recear do que as fantasias 
que atemorizam os meninos no escuro. E a este terror do espírito e a estas trevas 
não afastam nem os raios do Sol, nem os luminosos dardos do dia: só o fazem o 
estudo da natureza e suas leis. 
Vamos, então, agora explicar 30F20 por que movimento os elementos geradores 
da matéria engendram os vários corpos e os dissolvem depois de engendrados, por 
que força são obrigados a fazê-lo, e que possibilidade lhes foi dada de, movendo-se, 
percorrerem o vago espaço imenso: e tu, não te esqueças de atender ao que eu 
disser. 
É indubitável que a matéria não forma um todo compacto, visto vermos que 
tudo se gasta e por assim dizer se desfaz ao longo dos tempos e se oculta na velhice 
aos nossos olhos; o conjunto, no entanto, parece permanecer intato, pois o que se 
retira de qualquer corpo, e por aí o diminui, vai aumentar aquele a que se junta: 
obrigam uns a envelhecer, outros a prosperar; e não param nesse ponto. Assim 
continuamente se renova o Universo e vivem os mortais de trocas mútuas. 
Aumentam umas espécies, diminuem outras, e em breve espaço se substituem as 
gerações de seres vivos e, como os corredores, passam uns aos outros o facho da 
vida. 
Se julgas que podem parar os princípios das coisas e parando gerar seus 
novos movimentos, andas desviado e muito longe de um verdadeiro raciocínio. 
Efetivamente, como erram através do vazio, é fatal que ou sejam os elementos das 
coisas levados pelo seu próprio peso ou pelo casual choque dos outros: de fato, 
quando se encontrem, em direções opostas, ressaltam de repente e cada um para 
seu lado; e não há nada que estranhar, porque são duríssimos, de maciço peso, e 
nada por detrás lhes levanta obstáculo. E, para que imagines melhor as agitações de 
todos os elementos da matéria, lembra-te de que não há no Universo qualquer 
fundo, e que não há lugar onde assentem os elementos, porque o espaço é sem fim 
e sem limites: já mostrei e demonstrei com exato raciocínio que o espaço imenso se 
estende de todos os lados e para todas as partes. 
 
20 Lucrécio, assim como, no Livro I (ou antes: no que forma, do Livro I, uma introdução geral ao poema), tinha indicado o assunto do seu 
trabalho, dá agora indicações do que será o tema do Livro II: o movimento dos átomos, a causa que o provoca e os efeitos que dele provém. 
Como os corpos são formados de átomos e incessantemente uns decaem ou morrem, enquanto outros nascem e crescem, é evidente que os 
elementos atômicos que os formam devem precipitar-se sem pausa dum ponto a outro e por toda a imensidade do Universo; os átomos estão, 
portanto, em movimento contínuo, e, para dar alguma idéia do que é este movimento, Lucrécio introduz a comparação com as partículas 
que dançam nos raios do sol e cuja agitação o poeta atribui aos invisíveis choques dos átomos; é curioso observar a afinidade entre a 
reflexão de Lucrécio e a teoria do movimento browniano estudado pela física moderna. 
E, porque isto é assim, não é de admirar que não tenha sido dado repouso 
algum aos elementos dos corpos através de todo o imenso espaço vazio: agitados 
por um movimento constante e variado, uns ressaltam a grande distância, depois de 
se chocarem, outros em breve espaço sofrem o efeito da pancada. 
Aqueles que, por mais densa composição, pouco se afastam depois do 
choque, ligados como estão pelo entrelaçado de seus esquemas, formam os rijos 
fundamentos das rochas e os feros corpos do ferro e as restantes coisas deste 
gênero. Outros, que são poucos, vagueiam pelo vazio imenso e ressaltam longe e de 
longe voltam, com grandes intervalos: estes nos dão o leve ar e o esplêndido 
luminar do Sol. Há, além de todos eles, muitos que vagueiam pelo espaço imenso e 
que não têm lugar nas composições das coisas nem jamais foram recebidos e 
consorciaram movimentos. 
Do que acabo de dizer temos nós sempre presente, ante os olhos, o traslado 
e imagem. Observa os raios do Sol que entram dando sua luz na obscuridade de 
uma casa: verás que na própria luz dos raios se misturam, de modos vários, 
numerosos corpos diminutos, e, como se fosse em eterna luta, combatem, dão 
batalhas, por grupos certos se guerreiam e não há pausa, agitados como estão pelos 
encontros e pelas separações freqüentes. Podes imaginar por isto o que será a 
perpétua agitação no vago espaço dos elementos das coisas na medida em que um 
pequeno fato pode dar idéia de grandes coisas, e elementos para seu conhecimento. 
Há também outro motivo para observar os corpos que se vêem agitar-se nos 
raios do Sol: tais movimentos desordenados revelam os movimentos secretos, 
invisíveis, da matéria. Verás que muitos, ao impulso de choques invisíveis, mudam 
de direção, e, repelidos, voltam para trás, para um lado, para outro, realmente para 
todos os pontos. Ora, é evidente que esta marcha errante vem toda ela dos 
elementos. 
Efetivamente, são os próprios elementos os primeiros a se moverem por si 
mesmos; vêm depois os corpos cuja composição é reduzida e que estão, digamos 
assim, mais perto de forças elementares: movem-se impelidos pelos choques 
invisíveis destas últimas, e, por seu turno, põem em movimento os que são um 
pouco maiores. Assim o movimento sobe desde os elementos e a pouco e pouco 
chega aos nossos sentidos, até que se movem aquelas mesmas coisas que podemos 
ver na luz do Sol, embora permaneçam invisíveis os choques que os causam. 
E agora, Mêmio, em poucas palavras poderás saber que movimento foi dado 
aos elementos da matéria. Quando a aurora lança sobre as trevas a nova claridade e 
as aves variegadas, voando pelos profundos bosques, percorrendo o leve ar, 
enchem todos os lugares com suas vozes límpidas, todos nós podemos ver como o 
Sol, que então se levanta, tudo cobre rapidamente com seu manto de luz. 
E, no entanto, este calor que o Sol envia, esta luz serena, não transpõem um 
espaço inteiramente vazio; têm que ir mais devagar enquanto fendem as ondas 
aéreas. Depois os corpúsculos de calor não vêm um a um, mas caminham presos 
uns aos outros e como englobados; atrasam-se eles próprios entre si e encontram 
obstáculos exteriores: têm, portanto, que ir mais tardos. 
Aos elementos, que são simples e compactos, e avançam por um espaço 
vazio, nada os demora pelo exterior; e, como formam as suas partes um todo único, 
são levados na direção que tomaram de princípio; devem, portanto, ter uma 
mobilidade sem igual e deslocar-se muito mais depressa do que a luz do Sol e 
transpor, no mesmo tempo, uma distância muito maior do que aquela que 
percorrem no céu os raios solares. (Lacuna) Mas não continuemos a examinar os 
elementos um a um para ver de que maneira se realiza cada coisa. 
No entanto, contrariamente a isto31F21 alguns, ignorantes da matéria, crêem que 
não teria podido a natureza, sem favor dos deuses, acomodar-se tanto aos objetivos 
humanos, variando as estações do ano, criando as searas e todas