OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


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as outras coisas a 
que incita os mortais, pondo-se como guia da vida a própria, divina voluptuosidade, 
e incitando-se, pelos trabalhos de Vênus, a que se reproduzam as gerações para que 
não pereça o gênero humano. 
 
21 Neste passo, Lucrecio não põe de parte a idéia de uma causa final do Universo; levanta-se contra qualquer possibilidade de uma causa 
final humana, isto é, de tudo ter sido criado por um poder benevolente, para uso, gozo e conforto da humanidade; e apresenta, como 
argumento, o grande número de defeitos que, sob o ponto de vista humano, se podem encontrar no mundo. A opinião contrária era 
sustentada pelos estóicos: o mundo era bom e só nós o tínhamos estragado pelo nosso procedimento, extravagante e ambicioso. Quando 
mais adiante, no Livro V, Lucrecio trata de novo a questão, não faz mais do que repetir por outra forma os mesmos argumentos destes 
versos. 
Mas parece, quando pensam que tudo fizeram os deuses por causa dos 
mortais, que andam muito longe da verdade. Efetivamente, embora eu ignorasse 
quais são os princípios das coisas, ousaria afirmar, pelas próprias leis do céu e por 
outros fatos numerosos, que de modo algum o mundo foi criado para nós por um 
ato divino: tanto é o mal que o macula. Mas é isto, Mêmio, um ponto de que 
trataremos mais tarde; agora exporemos o que resta acerca dos movimentos. 
É agora a oportunidade, 32F22 segundo creio, e neste mesmo assunto, de te 
demonstrar que nenhum corpo pode por sua própria força levantar-se, deslocar-se 
de baixo para cima. Cuidado, não te induzam em erro neste ponto os elementos das 
chamas. É sem dúvida voltando-se para cima que elas surgem e tomam seus 
aumentos; e é também para cima que crescem as searas brilhantes e as árvores, ao 
passo que os graves, por sua própria natureza, tendem todos para baixo. Mas nem 
mesmo quando o fogo salta até os telhados das casas, e com rápida chama devora 
traves e vigas, se deve julgar que o faz espontaneamente sem que qualquer força o 
obrigue; é exatamente o que sucede quando o sangue, saindo-nos do corpo, se 
eleva em jato no ar e se espalha, vermelho. 
Não vês também com quanta força vigas e traves são repelidas pela água? 
Quanto maior é a pressão que exercemos de cima para baixo, quanto mais 
tentamos, com toda força, obrigá-los a descer, tanto mais vigorosamente a água os 
repele e vomita, a ponto de a maior parte emergir e aparecer à superfície. Todavia 
não duvidamos de que estes corpos, entregues a si próprios, serão levados pelo 
espaço de cima para baixo; do mesmo modo devem as chamas poder, quando sob 
pressão, elevar-se nos ares, embora o peso que nelas existe por natureza lute por 
fazê-las descer. 
 
22 A aceitação de um movimento eterno dos átomos suscita um problema, o da força que lhes imprime esse movimento; na física de hoje, a 
progressiva desmaterialização do átomo destrói, segundo parece, a dificuldade, mas, para Lucrecio, que vê os átomos como corpúsculos, 
tem de se dar uma explicação cabal. Para ele há duas espécies de movimentos dos átomos: o primitivo, de cima para baixo, provocado pelo 
peso, e os secundários, resultantes dos choques dos átomos entre si. Quanto à segunda espécie de movimento, não havia objeções; quanto à 
primeira, já tudo se passava de outro modo; efetivamente, se os átomos caem de cima para baixo \u2014 e já é estranha esta idéia de cima e de 
baixo num Universo infinito \u2014 e se, como o próprio Lucrecio o afirma, não há no Universo centro a que concorram, é evidente que os 
átomos cairiam eternamente em linhas paralelas e nunca mais poderia surgir corpo nenhum. Como resposta, Epicuro ideou a teoria do 
clinamen, que Lucrecio expõe logo a seguir e que tem um defeito grave: o de ser uma hipótese puramente gratuita, sem apoio de observação 
dos sentidos, única fonte de conhecimento, segundo a doutrina. A idéia da declinação dos átomos foi das que mais chamaram a ironia dos 
adversários do epicurismo na Antigüidade e os próprios partidários da doutrina procuraram passar sobre este ponto o mais depressa 
possível. No entanto, além da importância para a cosmogonia, a idéia da declinação era fundamental para a moral epicurista: era a única 
possibilidade que restava, num Universo totalmente mecanicista, de introduzir uma parcela de liberdade. Parece que Demócrito, mais 
coerente, negava a existência de liberdade. 
E não vês que os fogos noturnos que voam pelo alto dos céus levam atrás de 
si longas caudas de chamas, qualquer que seja a direção que a natureza tenha dado à 
sua marcha? Não vês cair na Terra estrelas e astros? E o Sol, lá de cima dos céus, 
dispersa por toda parte o seu calor e cobre de luz todos os campos: portanto, desce 
para a Terra o fogo do Sol. Vês ainda os rios atravessarem obliquamente as bátegas 
de água: ora de um lado, ora do outro, arrancam-se das nuvens os seus fogos; e 
muitas vezes é na Terra que vem cair a flâmea força. 
Há neste assunto um ponto que desejamos conheças: quando os corpos são 
levados em linha reta através do vazio e de cima para baixo pelo seu próprio peso, 
afastam-se um pouco da sua trajetória, em altura incerta e em incerto lugar, e tão-
somente o necessário para que se possa dizer que se mudou o movimento. Se não 
pudessem desviar-se, todos eles, como gotas de chuva, cairiam pelo profundo 
espaço sempre de cima para baixo e não haveria para os elementos nenhuma 
possibilidade de colisão ou de choque; se assim fosse, jamais a natureza teria criado 
coisa alguma. 
Se alguém pensasse que os elementos mais pesados poderiam, pela maior 
velocidade com que se deslocam através do vazio, cair de cima sobre os mais leves 
e dar, assim, lugar a choques que tornassem por sua vez possíveis os movimentos 
de criação, muito longe andaria ele da verdade. É fora de dúvida que tudo quanto 
cai através da água ou do ar sutil tem de acelerar, segundo o peso, a sua queda: os 
elementos da água e a natureza leve do ar não podem retardar por igual cada uma 
das coisas e cedem mais depressa quando sofrem a pressão de maiores pesos. 
Mas, pelo contrário, em tempo algum e em lugar algum poderia o vazio estar 
por baixo de qualquer coisa sem que, segundo lhe pede a sua natureza, continue a 
ceder-lhe; por isso, todos eles devem ser levados pelo inerte vácuo com igual 
velocidade, embora sejam desiguais os pesos. Não poderão, portanto, os mais 
pesados cair jamais sobre os mais leves, nem por si próprios originar os choques 
pelos quais a natureza gera as coisas. 
É, por conseguinte, absolutamente necessário que os elementos se inclinem 
um pouco, mas somente um pouco, para que se não pareça conceber movimentos 
oblíquos e o refute a realidade. De fato, pelo que observamos, é evidente e 
manifesto que os graves, por si próprios, não podem tomar caminhos oblíquos, 
pelo menos visíveis para nós, quando se precipitam de cima para baixo. Mas quem 
há que possa verificar que em nada se desviam do caminho direito? 
Finalmente, se todo movimento é solidário de outro e sempre um novo sai 
de um antigo, segundo uma ordem determinada, se os elementos não fazem, pela 
sua declinação, qualquer princípio de movimento que quebre as leis do destino, de 
modo a que as causas não se sigam perpetuamente às causas, donde vem esta 
liberdade que têm os seres vivos, donde vem este poder solto dos fados, por 
intermédio do qual vamos aonde a vontade nos leva e mudamos o nosso 
movimento, não em tempo determinado e em determinada região, mas quando o 
espírito o deseja? É sem dúvida na vontade que reside o princípio de todos estes 
atos; daqui o movimento se dirige a todos os membros. 
E não é verdade que os cavalos, com toda a sua força impaciente, não 
podem irromper no próprio momento