OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


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dos 
raios é muito mais penetrante do que o nosso, aquele que sai das tochas terrestres. 
Pode-se dizer que o celeste fogo do raio, mais sutil, é composto de pequenos 
elementos e por isso atravessa poros por onde não passa este fogo nosso, nascido 
da lenha e produzido pela tocha. 
Por outro lado, a luz passa pelo corno, mas a chuva é repelida por ele. Por 
que razão? Porque os elementos da luz são menores do que aqueles de que é 
formado o criador líquido das águas. E, embora vejamos o vinho correr 
rapidamente pelo filtro, tarda o preguiçoso azeite, ou porque os seus elementos são 
maiores ou porque são mais recurvos e mais implicados uns nos outros, de maneira 
que não podem os germes, separando-se uns dos outros, passar um a um por cada 
poro. 
A isto acresce que o mel e o leite passam na boca com uma sensação 
agradável para a língua; pelo contrário, a repugnante natureza do absinto e da 
bravia centáurea fazem retorcer o rosto com seu terrível sabor; vês, portanto, 
facilmente, que os corpos que podem impressionar agradavelmente o gosto se 
compõem de elementos lisos e redondos; os que aparecem como ásperos e 
amargos têm uma contextura de elementos em gancho: é esta a razão por que 
costumam despedaçar-nos as vias dos sentidos e exercem violência sobre os órgãos 
ao entrarem. 
Enfim, todas as impressões boas e todas as impressões más para os sentidos 
são dessemelhantes entre si, e até, por formação, opostas; não julgues que o som 
desagradável e áspero da estridente serra se compõe de lisos elementos como a 
musical melodia que os citaristas com seus ágeis dedos despertam e modulam pelas 
cordas, não creias também que penetram no nariz dos homens elementos da 
mesma forma quando queimam cadáveres repugnantes e quando a cena foi há 
pouco regada com açafrão da Cilícia ou quando um altar exala os perfumes 
pânqueos; não atribuas também os mesmos elementos às cores agradáveis que 
apascentam os olhos e àquelas que os ferem e obrigam a chorar ou parecem, pelo 
seu mau aspecto, horrorosas e repulsivas. Tudo o que de qualquer modo é 
agradável aos sentidos não se forma sem que haja destes elementos lisos; tudo 
aquilo que é molesto e rude não aparece sem que haja alguma aspereza da matéria. 
Há também alguns que se não podem supor inteiramente lisos nem de todo 
aduncos, com pontas recurvas, mas antes com pequenos ângulos um pouco 
salientes, de modo a poderem mais titilar do que ferir os sentidos: são desta espécie 
o tártaro e os sabores da mula. 
Por fim, o cálido fogo e a gélida geada mordem os nossos sentidos, como a 
dente, mas de maneira diversa, conforme nos indica o tatear de cada uma. Porque o 
tato, o tato, ó sagrados, poderosos deuses!, é o sentido do corpo, quando nele se 
insinua um objeto externo, ou quando o fere uma substância nascida no próprio 
corpo, ou quando lhe apraz o que sai no gerador ato de Vênus, ou quando, por um 
choque, se perturbam no próprio corpo os átomos e, batendo uns nos outros, nos 
confundem os sentidos: o que podes experimentar se bateres com tua própria mão 
em qualquer parte do corpo. É, portanto, necessário que as formas dos elementos 
difiram muito entre si para que possam produzir assim as várias sensações. 
Finalmente, os corpos que parecem espessos e maciços devem ter fatalmente 
na sua composição maior número de elementos em gancho que formam entre si 
ramificações compactas. Nos desta espécie vem em primeiro lugar a pedra 
diamantina, que pode sustentar com a maior resistência todos os choques, e as 
valentes rochas, e as forças do resistente ferro, e o bronze que, resistindo, grita nas 
portas. Mas devem compor-se mais de elementos lisos e redondos os líquidos que 
têm uma constituição fluida: a semente da papoula absorve-se tão facilmente como 
água porque nada retém entre si os elementos esféricos e cada qual, quando 
impelido, logo rola e escapa. 
Por fim, todos os corpos que vês dispersarem-se num momento, como por 
exemplo o fumo, as nuvens e as chamas, têm de se compor de elementos lisos e 
redondos, se não inteiramente, ao menos o bastante para que, encadeando-se, não 
embaracem o movimento: só assim podem ferir os corpos e penetrar nas pedras, 
sem que todavia fiquem presos entre si; poderemos assim reconhecer facilmente 
tudo o que é aplacado nos sentidos e constituído por elementos, não ligados entre 
si, mas agudos. 
E não tens que te admirar ao veres corpos amargos, que são ao mesmo 
tempo fluidos, como, por exemplo, a água do mar: a parte que é fluida consta de 
elementos lisos e redondos, mas vão misturados elementos de dor, que são ásperos; 
todavia, não é necessário sempre que sejam aduncos; possivelmente são redondos e 
ao mesmo tempo ásperos, para que possam rolar e ferir-nos os sentidos. 
Para que te convenças mais facilmente que é esta mistura de elementos 
rugosos e de lisos que dá o seu sabor amargo ao corpo de Netuno, há um processo 
de separar e de ver isolada a parte doce, depois que, pela filtragem repetida através 
de terra, chega à cisterna e aí repousa: deixa em cima os elementos do infeto 
amargor, os quais, por serem ásperos, mais facilmente ficam presos à terra. 
Como ensinei isto, 35F25 vou agora juntar uma coisa que dela depende e que é 
boa para demonstrar que os elementos dos corpos variam de forma segundo um 
modo finito. Se não fosse assim, deveria haver certos elementos de infinito 
tamanho, porque, dada a pequenez de todo o elemento, não podem variar muito as 
suas formas: põe que os elementos constam, nas suas partes mínimas, de três ou até 
um pouco mais: quer se coloquem em cima quer embaixo estas partes de um 
mesmo elemento, quer se lhes troque a direita com a esquerda, quer se 
experimentem outras combinações, qualquer que seja a ordem capaz de mudar o 
aspecto de todo o elemento, sempre resulta que, se por acaso se quiserem variar as 
formas, se têm de juntar outras partes; e, de forma idêntica, conclui-se que se se 
quiser variar ainda as formas ter-se-á de, por nova combinação, buscar outras 
partes; portanto, as formas novas implicam um aumento de volume, Não há, pois, 
forma de se crer que possa ser infinita a variedade de formas dos elementos, a não 
ser que se admita uma grandeza monstruosa, o que, como já demonstrei, é 
impossível aceitar. 
Depois, as barbáricas vestes, a resplandecente púrpura melíbea tingida pela 
cor das conchas, o esplendor dourado dos pavões impregnados de ridente graça, 
cairiam superados por novos coloridos; desprezar-se-ia o perfume da mirra e o 
sabor do mele, pelo mesmo motivo, calar-se-iam, opressos, os cantos do cisne e, 
nas cordas, as harmoniosas, fébeas melodias: ante cada valor se levantaria um mais 
alto valor. 
Por outro lado, tudo poderia também ir de mal a pior, exatamente como 
vimos quanto às melhores: haveria para o nariz, os ouvidos, os olhos e o paladar 
sensações cada vez mais desagradáveis. Mas, como não sucede assim, como tudo 
 
25 A idéia de que a variedade dos átomos não é infinita vem naturalmente de Epicuro, mas o filósofo grego acrescentava que ela é em todo 
caso incalculável para a mentalidade humana. O argumento apresentado por Lucrécio de que, se a variedade fosse infinita, acabaria por 
haver átomos extremamente grandes, é interessante, quando se compara com o que ensina a atomística atual: com efeito, se concebêssemos 
um infinito regresso no número das camadas eletrônicas, acabaríamos por ter os átomos de que fala Lucrécio; a sua pequenez, a sua 
invisibilidade, garantem um número finito de variedades. 
aparece encerrado dentro de certos limites, é forçoso confessar que a matéria só 
difere, quanto à forma, em termos limitados; desde o fogo às gélidas geadas há um