OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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caminho limitado, e a mesma medida se tem de contar em sentido inverso. 
Com efeito, todo o calor e todo o frio, e todas as temperaturas médias ficam 
entre os dois extremos e formam, ordenados, um conjunto. Portanto, tudo o que 
foi criado difere dentro de certos limites: de um lado e de outro os contêm duas 
pontas, como de espadas: as chamas e a geada que as regela. 
Como ensinei isto, vou agora 36F26 juntar uma coisa que dela depende e que é 
boa para demonstrar que os elementos dos corpos que têm a mesma forma são em 
número infinito. Com efeito, como a variedade de formas é finita, é força que 
sejam infinitos os elementos semelhantes, e que seja limitada a massa da matéria: 
ora, já provei que isto não é assim, mostrando em meus versos que os corpúsculos 
de matéria, vindos do infinito, sempre mantêm o total pelo choque que provocam 
de todos os lados. 
Talvez o fato de veres que há seres vivos raros te leve a supor neles uma 
natureza menos fecunda: mas pode ser que noutra região e em terras remotas haja 
muitos dessa espécie e por aí se complete o número; o que, entre quadrúpedes, 
sucede principalmente com os elefantes de tromba serpentina, de que há na índia 
tantos milhares que é possível se levantarem muralhas de marfim que vedem o 
acesso: tão grande é a quantidade destes animais bravios de que nós vemos 
pouquíssimos exemplares. 
Mas, para te ceder também nisto, embora houvesse uma coisa única, que 
fosse só ela a existir tal qual é e a que não houvesse igual em todo o orbe das terras, 
se não existisse uma força de matéria donde pudesse ser concebida a criação, não 
poderia ter surgido, nem depois crescer e se nutrir. 
Supondo mesmo que houvesse no total dos elementos os germes limitados 
de um só corpo, onde, quando e por que força e de que modo se poderiam juntar 
 
26 Lucrécio, que expusera a idéia de um número infinito de átomos, propõe também a de um número infinito de átomos de formas idênticas, 
dentro do infinito, digamos total, de tal maneira que se poderia natural-mente fazer corresponder a cada átomo deste conjunto um átomo do 
conjunto de átomos idênticos. Uma reflexão da mesma natureza pôs Cantor na pista de uma das mais notáveis criações da matemática 
moderna (teoria dos conjuntos). 
através do vasto oceano da matéria, através de turba tão alheia? Não têm, creio eu, 
possibilidade de se reunir. 
Assim como é costume, depois de naufrágios grandes e pequenos, lançar ao 
imenso mar, por um lado e outro, barcos, cascos, vergas, proas, mastros, remos 
flutuantes e arremessar a todas as praias os cavernames, para que os vejam os 
mortais e daí tirem lição, de modo a evitarem as insídias do pérfido mar, e a sua 
violência e os seus enganos, e não acreditarem nele em tempo algum, mesmo 
quando sorri o falaz convite do plácido mar, assim também, se aceitares que é 
limitado o número de certos elementos, deverão eles, dispersos por todo o tempo, 
ser atirados em várias direções pelas marés diversas da matéria, sem que jamais 
possam ser impelidos a juntar-se, a reunir-se, nem fiquem em grupo nem, 
crescendo, se desenvolvam. Ora, a realidade mostra claramente que uma e outra 
coisa acontecem, que os corpos se criam e podem crescer depois de criados. Há, 
portanto, em cada espécie, infinitos elementos que chegam para tudo. 
E, assim, também os movimentos de destruição não podem vencer para 
sempre, nem sepultar a vida para a eternidade, exatamente como os movimentos 
que produzem e aumentam os corpos não conseguem assegurar para sempre as 
suas criações. 
Deste modo se vai travando o combate dos princípios, numa guerra 
desencadeada desde tempos infinitos. Ora, num ponto ou noutro vencem as forças 
vitais e são vencidas depois; misturam-se com os lamentos funerários os vagidos 
que soltam os meninos ao verem as regiões da luz; nenhuma noite se tem seguido a 
nenhum dia, nenhum dia se tem seguido a qualquer noite, sem que se tenham 
ouvido misturados aos vagidos dolorosos os choros que são companheiros da 
morte e dos negros funerais. 
Há também nisto alguma coisa que é conveniente manteres bem firme e 
confiada à memória do espírito: nada existe, naquilo cuja natureza é visível a nossos 
olhos, que se componha duma só espécie de elementos, e também nada existe que 
não seja constituído por germes misturados; e quanto mais propriedades tem um 
corpo, quanto mais possibilidades nele se encontram, também mais claramente 
demonstra que contém vários gêneros e várias formas de elementos. 
Primeiro, contém a terra em si os corpos elementares donde as fontes, 
volvendo as frescas águas, vão renovar continuamente os mares e também os 
elementos de que se originam os fogos. Em muitos lugares da Terra o solo ardendo 
se incendeia e no ímpeto se enfurecem suas chamas que vêm do profundo. 
Tem igualmente aqueles com que faz crescer para a humanidade as 
brilhantes searas e as árvores vigorosas e os que lhe permitem apresentar rios, 
frondes e pastos abundantes aos animais errantes pelos montes. Por isso lhe deram 
ao mesmo tempo o nome de grande mãe dos deuses, de mãe dos animais bravios e 
de geradora do nosso corpo. 
A ela cantaram os doutos poetas gregos37F27 (Lacuna) saindo do templo e 
incitando os dois leões atrelados ao carro; queriam dizer com isto que a grande 
Terra está suspensa no espaço e que não há terra em que a Terra se possa apoiar. 
Juntaram-lhe as feras porque toda a descendência, por mais brava que seja, se deve 
abrandar vencida pelos benefícios dos pais. Cingiram-lhe a cabeça com uma coroa 
de muralhas porque ela sustenta e defende as cidades em lugares escolhidos. E é 
ainda com estas insígnias que a imagem da mãe divina é levada pelas terras, no meio 
de um respeitoso temor. 
Vários povos, segundo os antigos costumes sacros, chamam-lhe Mãe do Ida 
e dão-lhe por' guarda bandos frígios porque, segundo dizem, foi desta região que se 
espalharam pelo orbe da terra as produções das searas. Juntam-lhes eunucos, 
porque querem mostrar que todos aqueles que violarem a divindade da Mãe e se 
mostrarem ingratos a seus progenitores devem ser considerados indignos de trazer 
à luz da vida qualquer posteridade. 
 
27 O quadro da Terra adorada pelos homens como deusa é evidentemente um pouco estranho, sobretudo pela sua extensão, dentro do ritmo 
filosófico e, quanto possível, de especulação em que o poema se desenvolve; trata-se, de fato, de um excurso um pouco à maneira da escola 
alexandrina, que se aclimataria em Roma com a poesia de Catulo e dos poetae novi; o gosto pelos efeitos musicais das palavras, a demora 
nos pormenores, o próprio assunto, aparentam todo este trecho com, por exemplo, as "Bodas de Tétis e Peleu" e "A Cabeleira de Berenice". 
Filosoficamente o ponto importante é aquele em que o poeta põe os deuses apenas como nomes de forças naturais; vai aqui ainda, segundo 
parece, mais longe do que a teodicéia tradicional da escola, a não ser que se interprete o passo como significando apenas que os homens 
usam os nomes dos deuses para os aplicar a fenômenos perfeitamente explicáveis por leis naturais; e é esta decerto a interpretação mais 
aceitável. 
Tocam tambores tensos, as mãos soam, à volta, côncavos címbalos, as tubas 
cantam roucas as suas ameaças, a oca flauta com seu ritmo frígio exalta os corações 
e vão os dardos como sinais de violento furor, para que aterrorizem os ânimos 
ingratos e os peitos infiéis do vulgo com o temor da poderosa deusa. 
Logo que, levada através das grandes cidades, silenciosa, beneficia os mortais 
com sua calada proteção, os fiéis, com generosa oferta, juncam de bronze e prata 
todas as ruas que percorre e uma neve de rosas cobre a Mãe