OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.825 seguidores
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e os bandos que a 
acompanham. Grupos armados, Curetes Frígios, segundo o nome que lhes dão os 
gregos, vão lutando entre si, pulam em cadência, alegres como sangue, e sacudindo 
com os movimentos da cabeça os terríveis penachos fazem lembrar os Curetes 
Dícteos que, segundo se diz, disfarçaram outrora em Creta os vagidos de Júpiter, 
enquanto, à volta do menino, meninos armados, dançando ligeiro, tocavam com 
ritmo o bronze no bronze, para que Saturno o não apanhasse e não o passasse aos 
dentes, ferindo com ferida eterna o coração da Mãe. Por isso homens armados 
acompanham a Grande Mãe; ou talvez queiram antes dizer que a dança aconselha 
que defendamos com armas e valor a terra pátria e sejamos nós a guarda da honra de 
nossos pais. 
No entanto, tudo isto, apesar de tão belo e tão bem imaginado, anda muito 
longe da verdade. Efetivamente, é fora de dúvida que os deuses, por sua própria 
natureza, gozam da eternidade com paz suprema e estão afastados e remotos de 
tudo o que se passa conosco. Sem dor nenhuma e sem nenhuns perigos, apoiados 
em seus próprios recursos, nada precisando de nós, não os impressionam os 
benefícios nem os atinge a ira. 
Quanto à Terra, o que é certo é que está em todo o tempo privada de 
sensibilidade e só porque possui os elementos dos mesmos corpos os pode, de 
modos variados, trazer à luz do sol. Mas se alguém resolver chamar Netuno ao mar, 
e às searas, Ceres, e preferir abusar do nome de Baco a empregar o vocábulo 
próprio do vinho, concedamos-lhe também que possa dizer que o orbe das terras é 
Mãe dos deuses, contanto que, na realidade, não manche o próprio espírito com 
torpes superstições. 
É por este motivo que, embora pastem as ervas de um mesmo campo, vivam 
sob o mesmo céu e mitiguem a sede no mesmo curso de água, vivem com aspecto 
diferente as lanígeras ovelhas, e os belicosos filhos dos cavalos e as manadas de 
cornudos bois, conservando a natureza dos pais e reproduzindo os hábitos da sua 
espécie. Tão grande é a diferença da matéria em qualquer espécie de erva, tão 
grande também o é num rio! 
Em seguida toma na totalidade um animal qualquer: ossos, sangue, veias, 
calor, líquido, vísceras, nervos concorrem na sua formação; todos corpos que são 
muito diferentes e feitos de elementos de formas dessemelhantes. 
Igualmente, tudo aquilo que arde no fogo tem em si, pelo menos, os 
elementos donde pode lançar lume, produzir luz, espalhar centelhas e dispersar ao 
longe as cinzas. 
Passando em revista os outros corpos com a mesma disposição de espírito, 
encontrarás que se ocultam nas suas substâncias os elementos de muitas coisas, que 
encerram germes de formas variadas. Finalmente, vês numerosos corpos que têm 
ao mesmo tempo cor, sabor e cheiro: primeiro, as dádivas. . . 
(Lacuna) 
Devem compor-se, por conseguinte, de elementos diversos quanto à forma; 
efetivamente o cheiro penetra por onde a cor não passa aos nossos órgãos; a cor 
tem seu caminho certo, e seu caminho certo para entrada nos sentidos tem o gosto: 
por aí verás que são diferentes os feitios dos elementos. Portanto, várias formas se 
juntam num mesmo todo e se compõem os elementos de germes misturados. 
Também nos meus versos te aparecem por toda parte muitos elementos 
comuns a muitas palavras, embora se tenha de reconhecer que versos e palavras se 
compõem de elementos diversos; não porque tenham poucas letras comuns ou 
porque não haja duas palavras compostas pelas mesmas, mas porque em geral os 
conjuntos não são semelhantes. 
O mesmo acontece com as outras coisas: embora lhe sejam comuns com 
muitos outros os elementos primordiais, todavia os conjuntos podem diferir 
muitíssimo entre si: pode-se dizer, com toda razão, que têm composição diferente a 
raça humana, as searas e as vigorosas árvores. 
Não se deve, porém, aceitar que os elementos se possam juntar de todas as 
maneiras. 38F28 De outro modo, ver-se-ia por toda parte nascerem monstros, existirem 
espécies de homens semiferas, brotarem às vezes ramos de um corpo vivo, unirem-
se membros de animais terrestres e marinhos e até apresentar a natureza, pelas 
terras de tudo produtoras, quimeras que exalassem chamas das tétricas goelas. 
Ora, é manifesto que nada disto sucede, visto que todos os corpos criados a 
partir de germes determinados e de determinada mãe conservam, segundo vemos, 
ao crescer, os caracteres específicos. Claro que isto não pode acontecer sem lei 
definida: de todos os alimentos que entram no corpo, uns vão para os órgãos e aí se 
combinando produzem os convenientes movimentos; outros, que lhe são alheios, a 
natureza os devolve à terra, e muitos ainda, que nos são invisíveis, escapam sob o 
impulso de certos choques; são os que não se puderam combinar em parte alguma, 
nem se juntaram, para os reproduzir, aos movimentos vitais do interior. 
Mas não vás julgar que só os animais são determinados por estas leis: o 
mesmo princípio a tudo põe suas marcas. Porquanto, assim como todas as coisas, 
por sua natureza, diferem entre si, assim também se deve compor cada uma de 
elementos diversos, não porque sejam poucas a terem as mesmas formas, mas 
porque em geral os conjuntos não são iguais. Como os germes são distintos, têm 
também de ser diferentes os intervalos, as trajetórias, as ligações, os pesos, os 
choques, os movimentos, os encontros, que não só diferenciam os seres vivos mas 
também distinguem as terras e o total do mar e separam das terras todo o céu. 
 
28 Sendo os átomos em número infinito, havendo a declinação e sendo ilimitado o espaço, poder-se-ia pensar que as suas combinações 
seriam arbitrárias e em número infinito. Lucrecio desfaz o erro afirmando que a natureza não pode produzir monstros, o que inutiliza as 
pretensões supersticiosas da religião, e mostrando que, sendo os átomos finitos em variedade, não pode deixar de ter limites a variedade dos 
corpos que eles formam. No Livro IV e no Livro V Lucrecio volta a tratar do primeiro problema, afirmando que os monstros não podem 
existir por serem formados de elementos discordantes; tudo provém do encontro, em determinadas circunstâncias, dos simulacros de corpos 
que atingem os nossos órgãos dos sentidos. 
Agora, ouve o que tenho para dizer-te,39F29 o que adquiri a preço de um 
agradável trabalho, para que não creias que os corpos brancos, de que os olhos 
contemplam o esplendor, se compõem de elementos brancos, e que os negros 
nasceram a partir de elementos negros: qualquer que seja a cor de que estejam 
impregnados os corpos, não creias nunca que vem tal fato de serem os elementos 
de matéria tintos de semelhante cor. Os elementos não têm cor nenhuma, nem 
semelhante à dos objetos, nem desigual. 
Se te parece que elementos como estes não têm possibilidade de ser 
concebidos pelo espírito, muito erras; os que nasceram cegos, os que jamais viram a 
luz do sol, todavia conhecem pelo tato corpos que não têm, para ele, cor alguma; 
daqui se pode concluir que podem chegar a ser concebidos pela nossa mente 
corpos que não têm à volta cor nenhuma. Depois, nós mesmos, quando tatearmos 
um objeto nas obscuras trevas, não o sentimos tinto de qualquer cor. 
Como demonstrei que isto se passa assim, vou agora mostrar que existe: 
(Lacuna) toda cor se pode transformar em outra qualquer, o que não é possível, de 
forma alguma, fazerem os corpos elementares. É preciso, com efeito, que fique 
alguma coisa de estável para que não seja tudo reduzido inteiramente ao nada. 
Tudo aquilo que, transformando-se, sai de seus limites, produz logo a morte do que 
antes foi. Cuidado, portanto, não dês cores aos elementos dos corpos: todas as 
coisas te voltariam inteiramente ao nada. 
Além disso, se, por natureza,