OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


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não têm os primórdios cor nenhuma e 
apresentam várias formas de que tiram e variam toda a espécie de cores, tendo 
grande importância as combinações dos elementos, a posição relativa em que se 
encontram, e os movimentos que imprimem e recebem, é muito fácil agora explicar 
racionalmente por que motivo o que anteriormente foi de cor negra pode de 
repente adquirir uma brancura marmórea, como, por exemplo, o mar quando os 
 
29 A afirmação de que os átomos não têm cor própria vem de Epicuro, que acrescentava mudar-se-lhes a cor sempre que mudavam de 
posição; não temos, no entanto, nenhum pormenor quanto ao mecanismo exato do processo. Como se sabe, também a física atual tem o 
átomo por incolor. As razões são, naturalmente, muito diferentes das de Epicuro, que também, como o expõe Lucrecio pouco adiante, fazia 
os seus átomos sem calor nem frio, sem som, sem cheiro nem gosto algum. Poderia dizer-se que o mundo de Epicuro é realmente o mundo 
onde só o movimento existe; o que é, de certo modo, a visão da atomística atual, apenas com o movimento num contínuo a quatro e não a 
três dimensões. Tal idéia do Universo, a única que é compatível com a verdadeira experiência, traz consigo graves dificuldades para uma 
doutrina de caráter materialista; Epicuro manteve-se na sua posição, mas a ciência moderna caminha rapidamente para uma concepção 
não-materialista do Universo: o que não quer dizer mística ou sobrenaturalista, como se tem pretendido. 
grandes ventos lhe revolvem a superfície e o transformam em ondas com 
esplendores de mármore. 
Bastará dizer que o que comumente vemos preto, desde que se produz uma 
mistura na sua substância, uma mudança de seus elementos, qualquer adição ou 
qualquer diminuição, sucede imediatamente que nos pareça um branco brilhante. Se 
as ondas do mar se compusessem de elementos de cor azul, seria impossível que se 
tornassem brancas. Com efeito, de qualquer modo que se turvem os elementos de 
cor azul, jamais poderão passar à brancura do mármore. 
Se, porém, são elementos tingidos de cores diferentes que produzem a cor 
crua e pura do mar, do mesmo modo que de figuras diferentes e de formas várias 
se pode realizar uma única figura, por exemplo, um quadrado, era de concluir que, 
assim como no quadrado vemos as diversas figuras, assim pudemos ver na água do 
mar ou em qualquer outra cor igualmente crua e pura as cores que seriam entre si 
diferentes e desiguais. Além de tudo, as figuras diferentes em nada impedem que o 
quadrado exista em todo o contorno exterior, ao passo que as várias cores dos 
objetos obstariam a que a cor do conjunto fosse una e a mesma. 
Portanto, o que nos leva e incita a que atribuamos, sem causa alguma, cores 
aos elementos das coisas cai por terra, porque os objetos brancos não se originam 
de elementos brancos, nem os negros se compõem de elementos negros, mas cada 
um deles de vários elementos. De fato, é muito mais natural que a cor branca nasça 
da ausência de qualquer cor do que da negra ou de outra cor que lute contra ela ou 
a ela se oponha. 
Depois, como não podem existir cores sem luz alguma, e como os elementos 
das coisas não aparecem à luz, é evidente que não são os elementos revestidos de 
cor alguma. Realmente, como poderia haver qualquer cor nas trevas? A própria cor 
muda com a luz e doutro modo brilha, segundo a recebe direta ou oblíqua: é esta a 
maneira por que se vêem, ao sol, as penas que as pombas têm na cabeça e à volta 
do pescoço; umas vezes têm o vermelho vivo do rubi, outras, por uma impressão 
diferente, se misturam o azul e as verdes esmeraldas. Do mesmo modo a cauda do 
pavão, quando se banha em plena luz, muda de cor segundo a exposição; como 
estas cores surgem de uma certa incidência da luz, é seguro que não se pode supor 
que doutra maneira pudessem surgir. E como há uma espécie de impressão na 
pupila quando se diz que se sente a cor branca, e depois outra quando se sente a 
cor negra e as restantes, como por outro lado, não importa, quanto aos objetos que 
se tocam, a cor de que estão revestidos, é evidente que não têm os contornos 
necessidade nenhuma de cor, e que só a sua variedade de formas produz as 
diferentes impressões. 
Ainda mais: como não há correspondência fixa entre as formas e a natureza 
da cor e podem todas as formas de átomos ter uma cor qualquer, por que não hão 
de os corpos que eles formam estar igualmente revestidos de toda espécie de cores, 
qualquer que seja a sua espécie? Havia então de se ver corvos de brancas penas, 
passando com seu branco vôo, e nascerem cisnes negros de um germe negro, ou de 
qualquer outra cor, pura ou variada. 
Depois, quanto mais se divide um corpo em partes diminutas tanto mais 
facilmente se pode ver que pouco a pouco se desvanece e se extingue a cor; é o que 
acontece quando o ouro se separa em partículas; e a púrpura e a escarlata, que é 
muito mais viva, todas se perdem quanto se desfazem fio a fio: daqui se pode 
concluir que as partículas se despojam de toda cor antes de chegarem a átomos. 
Aceitarás, finalmente, existirem corpos que não dão nem som nem cheiro e 
por isso não atribuirás a todos sons e odores. Do mesmo modo, e porque não 
podemos ver tudo com os olhos, é lícito concluir que há corpos privados de cor 
como há os que estão desprovidos de qualquer cor ou cheiro; e qualquer espírito 
sagaz os pode conceber, exatamente como nota os que estão privados de outras 
qualidades. 
Mas não deves julgar que os elementos só estão despojados de cor: também 
não possuem temperatura alguma, nem o tépido nem o frio nem o calor, e são 
estéreis de som e privados de sabor, e não lançam do corpo nenhum cheiro 
próprio. Quando se pretende preparar a delicada essência da manjerona, ou da 
mirra, ou da flor do nardo, que néctar nos exala, o primeiro que se há de procurar, 
na medida em que é possível encontrá-lo, é um óleo inodoro que não lance 
qualquer cheiro ao nariz, de maneira a que os perfumes, misturados, cozidos com a 
sua substância, nada percam ao contato da sua acidez. 
Assim também, pela mesma razão, devem os germes das coisas não levar 
qualquer odor ao que vai ser criado, nem som, porque nenhum podem emitir, nem 
por igual motivo qualquer sabor, nem frio nem calor nem tepidez nem coisa 
alguma. De resto, tudo o que é de natureza perecível, de substância branda e mole, 
frágil e friável, porosa e escavada, tudo tem de ser estranho aos elementos, desde 
que desejamos dar ao Universo fundamentos eternos em que se apóie toda a 
salvação: caso contrário todos os corpos voltariam inteiramente ao nada. 
E agora, quanto aos corpos que vemos terem sensibilidade, 40F30 é necessário 
confessar que, no entanto, são compostos de princípios insensíveis; fatos que são 
manifestos e evidentes nem refutam esta idéia nem se levantam contra ela: como 
que nos levam pela mão e nos obrigam a aceitar que, segundo o que digo, podem 
seres vivos nascer de corpos insensíveis. 
Com efeito, podemos ver41F31 que existem vermes vivos a partir da infecta 
lama, quando a terra úmida ganhou podridão por causa das chuvas excessivas; de 
resto todos os corpos se transformam do mesmo modo. Os rios, as frondes e os 
pastos abundantes se transformam em gados, os gados passam a sua essência aos 
nossos corpos e muitas vezes do nosso corpo aumentam a força das feras e o 
corpo das aves de asas poderosas. 
 
30 O ponto difícil para todo o materialismo, e quase diríamos também para todo sistema, mesmo dualista, que admita a matéria como 
realidade, é o da explicação dos fenômenos da sensibilidade, que vão desde o sinal mais elementar de vida até o conjunto dos processos do 
espírito. Lucrécio dá