OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


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o primeiro passo afirmando que o vivo pode provir do não vivo, crença esta que encontramos até muito tarde na 
história da biologia e que hoje ganha novas possibilidades de discussão com a descoberta das proteínas-vírus; para Lucrécio, e para muitos 
dos que se lhe seguiram, a questão não se punha nos mesmos termos em que atualmente se coloca: o que se aceitava como fato averiguado 
era que o ser vivo provinha diretamente do não vivo, por exemplo, os vermes do lodo. O ser vivo seria, pois, a conseqüência, devida à 
modificação do ambiente, do meio, de uma nova estrutura de um certo conjunto de átomos; como se admitia simultaneamente que seres 
vivos provinham de seres vivos, o ser vivo ficava assim com uma dupla possibilidade de origem; mas o primeiro ponto era o importante, 
porque não obrigava, perante o fenômeno da vida, a abandonar a hipótese materialista. 
31 Paralelamente ao que acontece com o próprio ser vivo, a sensibilidade, para Lucrécio, nasce do que é insensível; se fosse doutro modo, 
teria de admitir sensibilidade nos átomos, o que não faria senão recuar o problema; a sensibilidade nasce, portanto, por um certo arranjo, 
por uma certa disposição dos átomos, e a sensação não é mais do que o resultado de um encontro de elementos materiais que vêm de fora 
com os elementos materiais que, formando os órgãos dos sentidos, são, como diz o poeta, guardas vigilantes do nosso corpo. A idéia de que 
a sensação seja um fato puramente psicológico ou uma interpretação de um sinal exterior não aparece, como é natural, no poema de 
Lucrécio. 
A natureza converte em corpos vivos todos os alimentos e daqui faz surgir 
os sentidos dos seres animados, mais ou menos da mesma maneira por que da 
lenha seca faz sair as chamas e tudo transforma em fogo. Vês agora que 
importância tem para os elementos das coisas a ordem em que estão colocados e, 
depois que se misturam, os movimentos que imprimem ou recebem? 
Que é, então, que te fere o espírito e o abala e o leva a exprimir várias 
reflexões de modo a que não creias que do insensível possa surgir o sensível? 
Certamente o fato de que as pedras, a lenha e a terra, mesmo misturadas, não 
podem produzir a sensibilidade vital. Mas será bom lembrarmo-nos, quanto a este 
ponto, de que eu não disse que tudo pode surgir de todas as coisas, mesmo que, 
sejam quais forem os corpos que dão origem ao sensível, possa de todos eles sem 
restrição nascer a sensibilidade: é de grande importância, primeiro a pequena 
quantidade do que cria o sensível, depois a forma de que os elementos são dotados, 
finalmente os movimentos, as ordens, as posições. Ora, de tudo isto nada vemos na 
lenha e na terra: e, no entanto, estes materiais, quando estão como que putrefatos 
pelas chuvas, geram vermes, visto que os elementos, deslocados da ordem anterior 
pelo fenômeno novo, se dispõem de tal modo que têm de aparecer os seres vivos. 
Depois, os que dizem que o sensível só pode vir do sensível, habituados a ter 
sensações por órgãos sensíveis, (Lacuna) concebem os elementos como moles: 
efetivamente a sensibilidade anda toda ligada a vísceras, nervos, veias, que vemos 
todos compostos de substância mole e perecível. 
Aceitemos, no entanto, que possam subsistir eternamente: têm de possuir 
apenas sensibilidade parcial ou de serem inteiramente semelhantes a seres vivos. 
Mas é seguro que não podem as partes do corpo serem sensíveis por si próprias: 
todas as sensações dos membros vão a outros pontos; a mão separada de nós ou 
qualquer outra parte do corpo, quando isolada, não conservam sensibilidade 
alguma. Resta, portanto, assimilá-las a seres vivos inteiros. É necessário, então, que 
sintam o que nós sentimos, de maneira que possam, por todos os lados, cooperar 
na sensibilidade vital. Mas como hão de poder neste caso chamar-se elementos das 
coisas e evitar os caminhos da morte, se são seres vivos e se vivo é, afinal, o mesmo 
que perecível? 
Suponhamos, no entanto, que o podemos: pela sua reunião, pelo seu 
conjunto, nada mais fariam que uma multidão, uma turba de seres vivos, 
exatamente como homens, gados e animais bravios, quando juntos, não podem dar 
lugar a corpo algum. E se, por acaso, perdem a sua sensibilidade própria e adquirem 
outra, que necessidade houve de lhes dar o que depois se lhes tirou? Só resta o 
refugio de há pouco; vemos os ovos de aves transformarem-se em pintos vivos e 
referver de vermes a terra que apodreceu por causa das chuvas excessivas: é por 
conseguinte possível que o sensível nasça do que não tem sensibilidade. 
Se acaso alguém disser que, pelo menos, para que o sensível nasça do 
insensível, é necessária uma certa sensibilidade, ou como que um parto por meio do 
qual venha à luz, bastará explicar-lhe e demonstrar que não há parto algum sem 
união prévia e que nada se transforma sem a existência de um conjunto. 
Em primeiro lugar, é impossível haver sentidos, seja de que natureza forem, 
antes de ter sido gerado o próprio animal: a matéria mantém-se dispersa no ar, nos 
rios, na terra e no que nasce da terra, e não pode reunir-se de maneira a produzir a 
vida, com os movimentos convenientes, por meio dos quais se acendem os 
sentidos que em todo ser vivo tudo velam. 
Depois, se um ser vivo recebe um choque demasiado violento e além do que 
suporta a sua natureza, abate-se de repente e ficam-lhe confundidas a sensibilidade 
de corpo e a do espírito. Com efeito, destroem-se as posições dos elementos e 
impedem-se profundamente os movimentos vitais, até que a matéria, abalada em 
todos os membros, desata os laços vitais que uniam a alma ao corpo e, desagregada, 
a lança fora por todos os poros. Que havemos nós de supor que pode fazer um tal 
golpe senão sacudir e dispersar tudo? 
Pode acontecer também que, depois de um choque menos violento, os 
movimentos vitais que se conservam vençam muitas vezes, acalmem o tumulto do 
imenso golpe e façam voltar tudo aos caminhos naturais, repelindo o movimento 
de morte, já quase dominante no corpo e reacendendo a sensibilidade quase 
perdida. Se fosse de outro modo, como poderia, já do próprio limiar da morte, 
voltar à vida, recobrando os sentidos, de preferência a continuar o caminho já 
quase no final e a ir-se de vez? 
Além disso, visto haver dor quando os elementos da matéria, atraídos por 
qualquer força através das vísceras vivas e dos membros, se agitam dentro dos seus 
lugares próprios, e visto aparecer um doce prazer quando voltam à sua posição, é 
de concluir que não podem os elementos sentir dor alguma e também não podem 
receber gozo nenhum; efetivamente, não são compostos de elementos alguns cujo 
movimento lhes possa causar dor ou dar qualquer espécie de criador prazer. Não 
têm, por conseguinte, nenhuma sensibilidade. 
Depois, se é necessário, para que os seres vivos possam ter sensações, que se 
atribua sensibilidade aos elementos que os constituem, de que elementos será então 
constituído o gênero humano? Sem dúvida riem, abalados por trêmulas 
gargalhadas, cobrem o rosto e as faces com o orvalho das lágrimas, sabem dissertar 
amplamente sobre a mistura de corpos e até investigam quanto aos elementos que 
os compõem a eles; como se assemelham inteiramente aos mortais, devem também 
constar de outros elementos, e esses de outros, de modo que se não ousará parar 
em parte alguma. 
E não te largarei mais: tudo o que disseres que fala, ri e discreteia tem de ser 
formado de elementos que façam o mesmo; se considerarmos isto como delirante e 
louco e acharmos que pode rir quem não é constituído por elementos risonhos, e 
racionar-se e darem-se explicações em termos doutos sem haver elementos 
sabedores e eloqüentes, por que não poderiam os seres que vemos capazes de 
sensação ser compostos de elementos inteiramente privados de