OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


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sensibilidade? 
Realmente todos somos oriundos duma semente celeste; é pai de nós todos 
aqueles donde a terra nossa mãe criadora recebe as gotas de líquida chuva; assim 
fecundada, dá à luz as esplêndidas searas e as árvores vigorosas e a raça humana, dá 
à luz todas as gerações de animais bravios, visto que lhes apresenta os alimentos de 
que se nutrem todos os corpos, passando uma doce vida e propagando a sua 
espécie; por isso bem merecidamente recebeu o nome de mãe. 
E tudo o que saiu da terra à terra volta, tudo o que foi enviado das regiões 
do céu outra vez o recebem os espaços do céu. A morte não destrói os corpos a 
ponto de aniquilar os elementos da matéria: só lhes quebra a união. Depois 
combina-os de outro modo e faz que todas as coisas modifiquem as formas e 
mudem de cor e adquiram sensibilidade, manifestando-a logo; isto te fará ver de 
que importância são para os mesmos elementos as combinações e as posições que 
possam ter e os movimentos que entre si transmitam e recebam; não tomes, pois, 
como podendo residir nos elementos primordiais e eternos o que vemos flutuar à 
superfície das coisas e nascer por instantes e subitamente perecer. 
Do mesmo modo é importante nestes meus versos a ligação de cada parte e 
a ordem por que vem colocada. Efetivamente, caracteres idênticos designam o mar, 
as terras, o céu, os rios e o sol e ainda as searas, as plantas e os animais; se nem 
todos são iguais, a grande maioria é muito semelhante; mas o significado difere 
devido à posição. De igual modo, se se trocam nos corpos as combinações, os 
movimentos, a ordem, as posições, as formas, também se muda o próprio corpo. 
Dá agora atenção a razões verdadeiras:42F32 uma coisa fortemente nova se 
prepara para te chegar aos ouvidos, um novo aspecto das coisas se te vai revelar. 
Mas nada há tão fácil que não pareça à primeira vista difícil de acreditar, e nada tão 
grande e tão admirável que todos não deixem de admirar a pouco e pouco. 
Primeiro, a pura e clara cor do céu e tudo o que ele próprio em si mesmo 
encerra, os astros errantes por um e outro lado, e a lua, e o sol brilhando com 
preclaro esplendor; se tudo isto aparecesse agora pela primeira vez aos mortais, se 
de improviso se apresentasse diante deles, que se poderia dizer de mais admirável 
que tudo isto ou que menos ousariam os homens ter acreditado? Creio que nada; o 
 
32 A nova verdade que Lucrécio anuncia e para que pede toda a atenção de Mêmio não é na realidade mais do que a extensão a uma escala 
universal da idéia de que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos; como o Universo é ilimitado e nele atuam, com os mesmos 
elementos, as mesmas causas, tem de se aceitar, segundo o poeta, que haja, não apenas um mundo, tal como o conhecemos, mas vários, 
idênticos ou semelhantes a ele; é a idéia que teve tantos defensores, que aparece, já com um nível literário e elegante em Fontenelle, e que 
pode ter um último eco nas fantasias astronômicas sobre os canais de Marte. 
espetáculo teria sido admirável. E agora, cansados, saciados de olhar, nem levantam 
os olhos aos celestes espaços luminosos. 
Deixa, pois, só porque te sentes atemorizado pela novidade, de afastar do 
ânimo o que é racional: mas pesa tudo com mais agudo juízo e, se isto te parece 
verdadeiro, entrega as armas; se, porém, o vês falso, lança-te ao ataque. O espírito, 
realmente, procura pensar, visto haver um espaço infinito fora dos limites do 
mundo, que há então para além, lá onde a mente quereria investigar, lá onde o 
espírito se levanta num vôo livre e espontâneo. 
Em primeiro lugar, não há para nós em parte alguma, nem de ambos os 
lados, nem de cima, nem de baixo, nenhuma espécie de limite; assim o demonstrei, 
assim o proclama a natureza por si própria a grandes brados, assim claro sai da 
natureza do vácuo: não é, portanto, verossímil, seja como for, que, abrindo-se por 
todos os lados o espaço sem barreiras, voando de mil maneiras, animadas de 
movimento eterno, partículas em número incontável, no total infinito, só tivesse 
sido criado este mundo e este céu e que todos os outros elementos, os de fora, 
permanecessem inativos, tanto mais que tudo se fez naturalmente: foi por eles 
próprios, espontaneamente, batendo ao acaso, que os elementos, depois de se 
terem unido de mil modos, mas em vão e inutilmente, formaram por fim as bases 
de que sairiam os princípios das grandes coisas, da terra, do mar, do céu, das 
espécies de seres vivos. É força, por conseguinte, confessares que existem outros 
agrupamentos de matéria semelhantes a este nosso, o qual o éter estreita em ávido 
abraço. 
Depois, quando há, preparadas, grandes quantidades de matéria, quando está 
pronto o lugar, e não há para demora nem objeto, nem causa, é evidente que tudo 
tem de se arranjar e tomar forma. Ora, se há tão grande quantidade de elementos 
que não bastaria para os enumerar a vida inteira dos seres vivos, e subsistem a 
mesma força e a mesma natureza que podem, em todos os lugares, reuni-los do 
mesmo modo por que foram reunidos neste mundo, é força confessares que há 
noutros pontos outras terras e várias raças de homens e várias gerações de bichos 
bravos. 
Acresce a isto que nada há no Universo que seja único, que nasça isolado e 
só e isolado cresça: tudo pertence a qualquer geração e muitas são as da mesma 
espécie. Repara primeiro nos animais: verás que foi gerada assim a raça dos que 
erram pelos montes e a prole dos homens e, por fim, os mudos bichos escamosos e 
as diferentes espécies dos que voam. 
Por isso se tem de aceitar que, de igual maneira, não são únicos nem a Terra 
nem o Sol nem a Lua nem o mar nem tudo o mais que existe: pelo contrário, são 
em quantidade inumerável; de fato, têm um termo de existência marcado tão 
Fixamente e compõem-se de elementos tão naturais como todas as espécies de 
coisas que por cá aparecem com toda abundância. 
Se retiveres tudo isto,43F33 já bem conhecido, logo a natureza te aparece como 
livre, isenta de senhores soberbos e realizando tudo espontaneamente, sem 
qualquer participação dos deuses. De fato \u2014 e pelo sagrado coração dos deuses, 
que em paz tranqüila passam um plácido tempo e uma vida serena! \u2014, quem 
poderia ter mãos bastante firmes para manejar as fortes rédeas do infinito, quem 
poderia fazer girar harmoniosos todos os céus, aquecer com fogos etéreos todas as 
terras fertilizadas, em todos os lugares, em todos os tempos achar-se sempre 
pronto a fazer trevas com as nuvens, a abalar com o trovão os espaços serenos do 
céu, depois enviar os raios e abater muitas vezes o seu próprio templo, e, retirando-
se para os desertos, lançar furiosamente o dardo que muitas vezes passa além dos 
maus e tira a vida aos que o não merecem, aos que não são culpados? 
Depois do tempo em que surgiu o mundo, e do primeiro dia e do conjunto 
aparecimento do mar, da terra e do sol, vieram juntar-se-lhe do exterior muitos 
 
33 A constância das leis naturais, que Lucrécio acaba de demonstrar, ê, segundo sua opinião, o argumento mais forte a favor da tese de que 
os deuses não intervém no governo do mundo e passam o tempo na paz inalterável de uma contemplação bem-aventurada. E, assim como 
nada fizeram para que ele surgisse, também nada poderão fazer para lhe sustar a velhice e impedir a morte. Para Lucrécio, o mundo não é 
eterno, embora o seja o conjunto dos átomos que formam o Universo; o mundo \u2014 mar, terra, céus \u2014 é um corpo que nasceu como os 
outros, existe como os outros, e como os outros se há de dispersar, de modo a que os seus átomos possam entrar em novas formações. 
Segundo o que pensa, o mundo, por já dele se desprenderem mais elementos do