OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


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vida humana, tudo penetra da cor da morte e não 
deixa prazer algum límpido e puro. 
É certo que muitas vezes dizem os homens que mais se deve temer doença e 
desonra do que o abismo da morte, e que sabem que a natureza do espírito é a do 
sangue, ou até a do vento, se a tanto os leva a fantasia, e que, portanto, para nada 
precisam da nossa doutrina: mas é bom que vejas, pelo que segue, que se trata mais 
de jactância e de fanfarronice do que de qualquer real fundamento. 
Eles mesmos expulsos da pátria, banidos para longe da vista dos homens, 
manchados por um crime vergonhoso, afetados até por todas as desgraças, 
continuam a viver, e em toda parte aonde chegam sacrificam aos mortos, imolam 
reses negras e fazem oferendas aos deuses manes, e. por se verem em dificuldades, 
mais vivamente se voltam para a religião. É por isso que é conveniente observar os 
homens nos perigos e nas provas, e conhecer na adversidade aquilo que são; é 
nesses momentos que se lançam do íntimo do peito as palavras verdadeiras: 
arranca-se a máscara e surge a realidade. 
Por fim, vêm a avareza e a cega cobiça das honras que obrigam os pobres 
homens a ultrapassar os limites do direito e até, cúmplices e servidores do crime, a 
esforçar-se de dia e de noite, com trabalho sem par, por atingir os cimos da riqueza: 
estas chagas da vida são criadas, em parte não pequena, pelo medo da morte. 
Parece, efetivamente, a quase todos, que o vergonhoso desprezo e a dura 
pobreza estão longe de uma vida agradável e tranqüila e se encontram como que 
parados diante das portas da morte; por isso os homens, levados por um falso 
terror, querem fugir para longe, e aumentam então as suas riquezas com o sangue 
dos concidadãos, duplicam ávidos os bens, acumulando a morte sobre a morte; 
 
ambição do poder e das honras; possivelmente Lucrécio pensa que tudo isso surge de uma vontade, consciente ou inconsciente, de se 
afirmar na vida, ou, então, de um meio de aturdimento que não deixe pensar no problema do fim. 
cruelmente se alegram com o triste funeral de um irmão e odeiam e temem as 
mesas dos parentes. 
De igual modo, é muitas vezes deste temor que nasce a macerante inveja: aos 
olhos deles é um poderoso, atrai outro as atenções, marchando entre honras 
esplendorosas, enquanto eles se queixam de andarem rolando na treva e na lama. 
Uns morrem por causa de estátuas e de glória do nome; e algumas vezes de tal 
maneira toma os homens por medo da morte, o ódio à vida e à luz que vêem, que a 
si próprios dão a morte com triste coração, esquecidos de que a fonte dos cuidados 
é esse mesmo terror, que é ele que dificulta a virtude, que é ele que rompe os 
vínculos da amizade: em resumo, persuade-os a derrubar a piedade. 
Já muitas vezes os homens traíram a pátria e os pais queridos pelo desejo de 
evitar as regiões do Aqueronte. Exatamente como os meninos se aterrorizam e 
tudo receiam nas cerradas trevas, assim nós, à luz do dia, tememos coisas que em 
nada são mais temíveis do que aquelas de que os meninos se assustam nas trevas, 
julgando que vão realmente acontecer. É, portanto, necessário que venham dissipar 
este terror do espírito e esta escuridão, não os raios do sol, nem os dardos 
luminosos do dia, mas os fenômenos da natureza e a sua explicação. 
Digo primeiro que o espírito, a que muitas vezes chamamos pensamento, e 
em que se colocam a ordem e o regimento da vida. é uma parte do homem, tal 
como as mãos, os pés e os olhos fazem parte do conjunto do ser vivo. 
(Lacuna) 
[Outros afirmam?] que a sensibilidade do espírito não esta localizada em 
lugar determinado, mas que é uma certa disposição vital do corpo, à qual os gregos 
chamam harmonia, alguma coisa que nos faz viver com sensibilidade, ao passo que 
o espírito não está localizado em parte alguma; de igual modo se diz que existe 
saúde do corpo, embora a saúde não seja parte do ser saudável. 
Assim, não colocam a sensibilidade do espírito num lugar certo: e muito me 
parecem errar, desviando-se fortemente da verdade. Muitas vezes, o corpo que é 
exterior e visível está doente, embora haja alegria numa parte escondida; e, por 
outro lado, acontece muitas vezes o inverso, quando alguém, infeliz no espírito, se 
sente bem disposto em todo o corpo, exatamente como um enfermo que tenha os 
pés doentes pode, no entanto, nada sofrer quanto à cabeça. Além de tudo, quando 
os membros estão entregues ao sono e todo o corpo jaz pesado e sem acordo, há 
todavia em nós alguma coisa que, durante esse tempo, se agita de mil modos e em 
si recebe todos os movimentos de alegria e os vãos cuidados do coração. 
E agora poderás saber que a alma reside nos membros e que não é por meio 
da harmonia que tem o corpo a habitual sensibilidade: primeiro sucede que, embora 
perdida uma grande parte do corpo, todavia permanece em nossos membros a vida; 
e, no entanto, quando escapa um pouco de calor e um pouco de ar é expelido pela 
boca, logo ela abandona as veias e os ossos; daqui podes concluir que nem todos os 
elementos têm papel igual e igualmente nos garantem a segurança; mas são 
principalmente os elementos que são primordiais no vento e no cálido vapor que 
tratam de que a vida permaneça nos membros. Há, por conseguinte, no próprio 
corpo um calor e um vento vital que nos abandonam os membros moribundos. 
Visto, portanto, que está descoberta a natureza do espírito46F36 e é a alma como 
uma parte do homem, abandona esse termo de harmonia roubado pelos músicos lá 
do alto Helicão ou de qualquer outro sítio donde o trouxeram para o aplicar a uma 
coisa que ainda não tinha nome próprio; seja como for que o guardem eles: tu, 
escuta as minhas outras palavras. 
Digo a seguir que o espírito e a alma47F37 se mantêm ligados entre si e formam 
no conjunto uma só substância; mas o que domina no corpo todo, o que é, por 
assim dizer, a cabeça, é aquilo que nós chamamos a reflexão, o pensamento. E este 
está colocado na região média do peito. Aqui sobressaltam o pavor e o medo; é 
 
36 Lucrécio rebela-se contra a idéia de que a alma seja, não uma parte do corpo, tão material como ele, embora mais sutil, mas uma 
"harmonia", alguma coisa que vem de órgãos materiais, como a música, sem que seja ela própria constituída de matéria; nesta última 
concepção, a alma seria de certo modo uma "forma" do corpo; mas admiti-lo seria admitir uma parte não material do mundo; daí a dureza 
de expressão de Lucrécio e de onde a onde um traço de sarcasmo. 
37 Lucrécio distingue entre o espírito e a alma, adotando uma concepção tripartida do homem que se manteve até muito tarde, e não só na 
filosofia grega, e que a filosofia possivelmente terá de considerar de novo, embora por aspectos muito diferentes daqueles que interessaram 
a Lucrécio. Para ele existe um espírito (animus), que é também pensamento, mente (mens) e a alma (anima); o espírito, concentrado num 
ponto, o meio do peito, poderíamos dizer, o coração, a alma dispersa por todo o corpo. Em termos mais ou menos atuais, o espírito de 
Lucrécio corresponde à noção de alma, a alma, à noção de fluido ou princípio vital de certas escolas de pensamento. 
neste lugar onde palpitam docemente as alegrias; aqui, portanto, estão o 
pensamento e o espírito. 
A outra parte, a alma, disseminada por todo o corpo, obedece e move-se 
segundo a vontade e a impulsão do espírito. O espírito raciocina por si só e para si, 
consigo se alegra quando nada vem abalar a alma nem o corpo. E do mesmo modo 
que, sob o impulso da dor, podem sofrer em nós a cabeça ou o olho, e não 
padecemos