OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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os pontos principais. 
De fato, os elementos destas substâncias entrecruzam os movimentos de tal 
modo que não se pode separar nenhuma nem há possibilidade de as localizar: 
ficam, pois, e sendo muitas, como as propriedades de um só corpo. Toda 
substância de qualquer órgão de um animal tem cheiro, calor, sabor: todavia, de 
todas estas qualidades se faz somente um corpo. Assim o calor, o ar, o invisível 
poder do sopro, criam, misturados, uma única substância e aquela força móvel que 
divide por elas o movimento que por si criou e que é a primeira origem dos 
movimentos sensitivos dos órgãos. 
Esta última substância está profundamente escondida, dissimulada, e não há 
no nosso corpo nada que se encontre mais dentro do que ela: ela é por sua vez a 
própria alma de toda a alma. Assim como, nos nossos membros e por todo o 
corpo, estão misturados e ocultos a força do espírito e o poder da alma, visto serem 
formados de poucos e raros elementos, assim também esta força sem nome se 
esconde com seus minúsculos elementos e é ela própria, por assim dizer, a alma de 
toda a alma, e domina em todo o corpo. 
É necessário, do mesmo modo, que o sopro, o ar e o calor misturados entre 
si existam em todo o corpo e que um ou outro domine ou esteja subordinado, de 
maneira que entre si constituam um conjunto: caso contrário, o calor e o sopro por 
um lado, por outro lado o poder do ar, destruiriam a sensibilidade e, desagregando-
se, dispersariam tudo. 
Com efeito, o espírito possui o calor, que recolhe quando referve em ira e 
faz brilhar os olhos com ardor agudo. Há também o sopro frio, companheiro do 
medo, que provoca o arrepio dos membros e abala o corpo. E há também aquela 
condição pacífica do ar que se mostra no peito tranqüilo e no sereno rosto. Existe, 
porém, mais calor naqueles que têm ardentes corações e cujo espírito iracundo 
facilmente ferve de ira. 
Neste gênero vem em primeiro lugar a violenta força dos leões que muitas 
vezes, rugindo, rasgam o peito com o abalo e não podem conter no peito as ondas 
de cólera. É mais de sopro o frígido espírito dos veados e mais depressa lhes lança 
pelos órgãos gélidas auras que fazem aparecer nos membros um trêmulo 
movimento. A natureza dos bois vive mais de plácido ar; jamais os fachos da cólera 
a exasperam, jamais fumegam rodeando-a com as sombras da negra escuridão; 
também nunca fica entorpecida pelos gélidos dardos do pavor: está colocada a 
meio, entre os veados e os terríveis leões. 
O mesmo acontece com a raça dos homens:50F40 embora a educação dê a 
alguns uma uniforme polidez, todavia lhes deixa os antigos vestígios do caráter que 
tinha cada um; e não se deve supor que se pode arrancar o mal pela raiz; um corre 
mais facilmente para as iras furiosas, outro é atingido mais cedo pelo temor, um 
terceiro aceita as coisas com mais paciência do que devia. 
É de necessidade que nos outros apareçam ainda muitas diferenças e que 
sejam vários os caracteres dos homens e os costumes que se lhes seguem; mas não 
posso agora expor as suas causas ocultas nem encontrar os nomes bastantes para 
todos os princípios de formas de que provém esta diferença das coisas: o que vejo 
poder afirmar-se neste ponto é serem tão pequenos os vestígios de caráter que se 
deixam, e que a razão não pode afastar de nós, que nada impede se passe uma vida 
digna dos deuses. 
 
40 De um modo geral, os materialistas são pessimistas quanto à natureza humana. Para Lucrécio, a educação não consegue modificar os 
defeitos inerentes a cada qual; eles voltarão a revelar-se de cada vez que lhes for dada oportunidade conveniente. Pode dizer-se que 
nenhum pensador da Antigüidade considerou a educação como podendo modificar a natureza, o que tem sido por vezes a idéia de alguns 
pedagogos modernos; mas o que eles puseram como assente é que a natureza humana é em si própria boa e que os defeitos provêm apenas 
das condições gerais da vida (o problema da inclusão da estrutura biológica dos indivíduos entre estas as condições gerais nunca foi 
plenamente tratado). De resto, não havia em tudo isto senão crenças, inclinações pessoais ou considerações metafísicas; só no nosso tempo, 
a tese de uma bondade humana essencial recebeu o apoio de provas científicas com os estudos sobre os primitivos atuais. 
Portanto, esta substância é contida por todo o corpo, sendo ela própria a 
guarda e a causa da segurança do corpo; estão presos um ao outro por raízes 
comuns e é evidente que não se podem separar sem destruição. Assim como não é 
fácil arrancar o perfume aos grãos do incenso sem que pereça a sua substância, 
assim também não é fácil extrair de todo o corpo a substância do espírito e da alma 
sem que tudo se dissolva, de tal modo se implicaram os seus princípios desde a 
primeira origem e aparecem dotados de uma vida consorte. Parece que nenhum 
deles pode existir sem a força do outro, ou terem o corpo e a alma sensibilidade 
por si próprios. É pelos seus movimentos comuns que a sensibilidade se inflama e 
acende pelos nossos órgãos. 
Além disso, o corpo não pode nascer nunca por si próprio, nem cresce nem 
parece durar depois da morte. Não é como a água que perde o vapor que lhe foi 
dado e nem por isso fica destruída, mas permanece intata: não é, digo eu, do 
mesmo modo que os órgãos podem suportar, abandonados, a retirada da alma: 
perecem profundamente abalados e em podridão se abatem. É assim que, desde os 
primeiros tempos, no próprio organismo e no ventre da mãe, os contatos mútuos, 
do corpo e da alma, aprendem os movimentos vitais, de maneira que a separação 
não se pode fazer sem desastre e sem mal; vês, portanto, que, se as suas existências 
estão ligadas na mesma segurança, é porque são idênticas quanto à sua substância. 
Depois, se alguém negar a sensibilidade do corpo, e julgar que é a alma, 
espalhada por todo o corpo, que recebe este movimento a que chamamos 
sensibilidade, não há dúvida de que vai contra fatos manifestos e verdadeiros. 
Quem há de dar para o fato de o corpo sentir outra explicação que não seja a que a 
realidade nos deu e ensinou? E, quanto ao fato de que o corpo, saindo a alma, não 
tem mais sensibilidade, o que é certo é que perde o que, durante a vida, não era 
mesmo seu; e, quando sai da vida, perde ainda muitas outras coisas. 
Dizer, por outro lado, que os olhos nada podem ver, e que por eles, como 
por uma porta aberta, o espírito contempla, é bem difícil; o próprio sentido da vista 
leva a outra idéia, leva a sensibilidade como por força às próprias pupilas, 
sobretudo quando não podemos fitar um brilho forte por nos ferir a luz os olhos. 
O que não acontece com as portas: nunca um portal, por estar aberto e por nós 
olharmos, sofre qualquer incômodo. Por outro lado, se os nossos olhos são como 
portas, parece que o espírito devia ver melhor as coisas depois de lhos tirarem, 
como se suprimissem obstáculos. 
Neste assunto, não podes de modo algum adotar a doutrina venerável do 
ilustre Demócrito,51F41 a de que os elementos do corpo e do espírito se justapõem, 
alternando-se um a um, e assim entrelaçam os membros. Efetivamente, não só os 
elementos da alma são muito menores do que aqueles de que se compõem o corpo 
e os órgãos, como também são inferiores em número e se dispersam raros pelos 
membros; no entanto, pode admitir-se que os objetos mais pequenos que podem 
provocar nos nossos corpos movimentos sensíveis são do tamanho dos intervalos 
que têm entre si os elementos primordiais da alma. 
De fato, algumas vezes não sentimos a aderência do pó, nem a greda que cai 
de lado sobre os membros, como não sentimos também o nevoeiro noturno nem a 
fina teia de aranha que esbarra conosco, quando nos enreda ao irmos