OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


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quando a causa da doença se retira e 
recolhe ao esconderijo o humor acre do corpo corrompido, então primeiro se 
levanta como vacilante e a pouco e pouco recobra todos os sentidos e recebe de 
novo a alma. 
Visto que podem ser, no próprio corpo, agitados por tão grandes doenças e 
sofrer dilacerados de mísero modo, por que razão se há de acreditar que sem corpo 
podem passar a vida ao ar livre entre os ventos violentos? 
Também, como vemos que o espírito se cura, tal como o corpo doente, e 
pode ser modificado pela medicina, há aqui indicação de que o espírito vive vida 
mortal. É preciso juntar partes ou transpor-lhes a ordem, ou retirar ao conjunto 
pelo menos um pouco, quer se procure e se pretenda transformar o espírito, quer 
se busque modificar qualquer substância. Mas aquilo que é imortal não deixa que 
lhe troquem elementos ou lhe acrescentem alguma coisa ou lhe tirem seja o que for. 
Efetivamente, tudo aquilo que, mudando-se, sai de seus limites, significa logo a 
morte do que era dantes. Portanto, o espírito, ou pela doença ou por ser 
modificado pelo remédio, mostra caracteres mortais. De tal modo vem sempre a 
verdade ao encontro do falso raciocínio, e, impedindo-lhe a fuga, o demonstra falso 
por uma dupla refutação. 
Por fim, vemos um homem ir-se pouco a pouco e perder a sensibilidade 
membro a membro: primeiro, tornam-se-lhe lívidos os dedos dos pés e as unhas, 
depois morrem os pés e as pernas, depois ainda vai pelas outras partes do corpo, 
lentamente, a passada da gélida morte. Como a substância da alma é também 
dividida e não escapa toda inteira em tempo algum, tem de ser tomada por mortal. 
Se se imaginar por acaso que pode retirar-se para dentro através do corpo e 
levar a um só ponto os seus elementos, retirando assim a sensibilidade a todos os 
membros, então o lugar em que se encontrasse tão grande quantidade de alma 
devia aparecer com sensibilidade maior; como tal não se dá em parte alguma, é de 
força, como dissemos antes, que ela em pedaços se disperse fora e, portanto, 
morra. E mesmo se nos apetecesse aceitar o que é falso, conceder que a alma se 
pode concentrar no corpo daqueles que abandonam pouco a pouco a luz, todavia 
seria preciso aceitar que a alma é mortal, sem que importe se perece dispersa pelos 
ares ou se se embrutece contraída nas suas partes: efetivamente a sensibilidade 
abandona cada vez mais toda a pessoa e por toda parte lhe resta cada vez menos 
vida. 
Como o espírito é uma parte do homem e está fixo num lugar certo, tal 
como estão os ouvidos e os olhos e os outros sentidos que governam a vida, e 
como as mãos, os olhos e o nariz não podem por si próprios, separados de nós, ter 
sensibilidade ou existir, mas em pouco tempo se corrompem em podridão, assim 
também a alma não pode existir por si só, sem o corpo e sem o próprio homem, 
como se ele fosse o vaso que a contém, ou outra coisa qualquer que possas 
imaginar estreitamente ligada a ele, visto que adere ao corpo intimamente. 
Enfim, o poder vivo do corpo e do espírito só tem vigor e desfruta da vida 
se é conjunto; sem o corpo, não pode por si só a substância do espírito produzir 
movimentos vitais, nem por outro lado pode o corpo privado de alma subsistir e 
usar a sensibilidade. Assim como o olho, arrancado das suas raízes, separado do 
resto do corpo, não pode por si só distinguir coisa alguma, assim também parece 
que a alma e o espírito nada podem por si. E nada há nisto de extraordinário, 
porque, misturados pelas veias e pela carne, pelos nervos e pelos ossos, são retidos 
por todo o corpo; não podem os elementos saltar livres a grandes distâncias e por 
isso, encerrados,- produzem os movimentos sensitivos que não podem produzir 
fora do corpo, depois da morte, lançados às auras do ar, visto já não serem retidos 
do mesmo modo. 
De fato, o ar seria um corpo e até um ser vivo, se a alma pudesse dentro dele 
manter-se unida e nele encerrar os movimentos que anteriormente realizava nos 
nervos e no próprio corpo. Por isso, e ainda uma vez, tem de se confessar que, 
depois de disperso o invólucro corpóreo e de expelidos os sopros vitais, se dissolve 
a sensibilidade do espírito e da alma, visto que alma e corpo têm causas conjuntas. 
Finalmente, como o corpo não pode suportar a partida da alma sem que 
apodreça com terrível cheiro, como se há de duvidar de que, tendo-se levantado do 
mais profundo e íntimo de nós, a força da alma não emane difusa como um fumo e 
por isso o corpo caia, transtornado por tão grande e putrefata ruína, visto lhe terem 
sido abalados os fundamentos mais profundos, quando a alma ao sair passou pelos 
membros, por todos os meandros dos caminhos que há no corpo e pelos poros? 
Podes assim conhecer de vários modos que a substância da alma, repartida, saiu 
pelos membros e que já se tinha despedaçado no próprio corpo antes de deslizar 
para fora e flutuar nas auras do ar. 
E até mesmo, mantendo-se dentro dos limites da vida, mas abalada todavia 
por alguma causa, parece que a alma quer ir-se embora e soltar-se de todo o corpo; 
e, como se fosse na hora suprema, o rosto enlanguesce, os membros moles como 
que se soltam do corpo exangue. Isto acontece quando alguém se sente mal ou 
perde os sentidos, quando já todos se agitam e procuram apertar o laço último da 
vida. Então, com efeito, abala-se o espírito e todo o poder da alma, e eles se abatem 
com o próprio corpo; um choque mais violento destruiria tudo. 
Pode-se duvidar ainda de que, saída do corpo, fraca, ao ar livre, arrebatado o 
seu abrigo, não só não possa durar por toda a eternidade mas nem consiga sequer 
subsistir durante algum tempo? Não há nenhum moribundo que sinta sair a alma 
inteira de todo o corpo e ir primeiro à garganta e, mais acima, às goelas; desfalece, 
porém, no lugar certo em que está colocada; exatamente como se sabe que cada um 
dos outros sentidos se dissolve na sua sede. Ora, se o nosso espírito fosse imortal, 
não se queixaria de ao morrer se dispersar: antes seria como sair e abandonar o 
vestuário, à maneira da cobra. 
Finalmente, por que razão a mente e o refletir nunca nascem na cabeça ou 
nos pés ou nas mãos, mas se fixam num só lugar e em certas regiões, se não é 
porque há lugares certos para que nasça cada coisa e aí possa permanecer depois de 
criada, ficando assim cada órgão repartido de maneira que nunca se possa inverter a 
ordem dos membros? A tal ponto se encadeiam os fenômenos! E também não é de 
hábito nascer uma chama nos rios ou surgir no fogo o gelo. 
Além de tudo, se a natureza da alma é imortal e pode ter sensibilidade 
quando separada do nosso corpo, temos que a dotar, creio eu, de cinco sentidos. 
Não podemos imaginar de outro modo as almas dos infernos vagando pelo 
Aqueronte, e assim os pintores e as antigas gerações de escritores apresentaram as 
almas dotadas de sentidos. Mas por si só a alma não pode ter olhos, nariz, mãos, 
nem língua, nem ouvidos: por conseqüência, não pode por si própria sentir e 
existir. 
E visto que sentimos que todo o nosso corpo é a sede da sensibilidade vital, 
que em toda parte a alma está difusa, se com golpe rápido uma força repentina vem 
a cortá-lo ao meio de modo a separá-lo em duas partes, é evidente que a alma 
também será dividida e fendida, e como o corpo cairá em duas metades. Mas o que 
se fende e se divide num número qualquer de partes não pode, evidentemente, 
pretender a imortalidade. 
Dizem que os carros de foices,53F43 quentes da matança e em tumulto, cortam 
membros tão subitamente que se vê palpitar no chão o que caiu, cortado do corpo, 
enquanto o espírito e a sensibilidade do homem não podem dar pela dor, em 
virtude da rapidez do desastre. E, ao mesmo tempo, como o espírito está 
inteiramente