OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


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poder também 
dissolver-se nos membros até que finalmente pereçam inteiras com o corpo. E, se 
se disser que as almas humanas sempre vão para corpos humanos, ainda 
perguntarei como pode ser que de sapientes fiquem tolas, e não tenha experiência 
menino algum, nem seja o filhote de égua tão hábil e forte como o cavalo adulto. 
Dirão como refúgio que num corpo tenro se faz tenro o espírito. Se isto é 
assim, ter-se-á que dizer que a alma é mortal, porque, ao trocar de membros, perde 
tão fortemente a vida e a sensibilidade anteriores. Mas de que modo poderá a força 
do espírito, juntamente com o corpo, chegar, já firme, àquela desejada flor da idade, 
a não ser que lhe tenha sido consorte desde os primeiros tempos? Por que razão 
quer sair dos membros caducos? Acaso teme ficar fechada num corpo podre e cair-
lhe a habitação já cansada pelo largo tempo? Mas, para imortais, não há perigo 
nenhum. 
Finalmente, parece ridículo58F48 que a alma assista aos conúbios de Vênus e aos 
partos das feras e que, sendo imortais, lutem em número incalculável pelos 
membros mortais e se batam entre si para entrar primeiro e com mais força; a não 
ser que haja entre as almas combinação estabelecida, de maneira a entrar primeiro a 
que primeiro chegue voando, sem que haja qualquer encontro violento. 
 
48 Insistindo na tese, para ele fundamental, Lucrécio apresenta como absurdo que almas imortais disputem entre si a entrada num corpo 
mortal. Por outro lado, a alma não pode viver fora do corpo mortal e, a considerarmos a alma como imortal, ver-nos-íamos em dificuldades 
para explicar como pode ela viver unida a um corpo mortal. Por fim, mostra que a alma não apresenta nenhum dos caracteres que lhe 
garantiriam a imortalidade. 
Por fim, nem a árvore pode subsistir no ar, nem as nuvens no alto mar, nem 
os peixes viver nos campos, nem existir sangue nos lenhos, nem haver seiva nas 
pedras. Está determinado e disposto o lugar onde cada coisa tem de crescer e 
residir. Assim, a substância do espírito não pode nascer sozinha sem o corpo nem 
estar muito longe dos nervos e do sangue. Se realmente o conseguisse, mais 
depressa poderia a própria força do espírito existir na cabeça ou nos ombros ou no 
fundo dos calcanhares, e nascer em qualquer parte, porque sempre estaria no 
mesmo homem, no mesmo vaso. Mas como se vê que há no nosso corpo lugar 
determinado e disposto onde a alma e o espírito podem crescer à parte, tanto mais 
devemos negar que possam gerar-se e perdurar fora do conjunto do corpo. Por 
isso, quando o corpo morre tem de se confessar que perece a alma dispersa pelo 
corpo todo. Juntar o mortal ao eterno e julgar que podem ter sensibilidade conjunta 
e utilizar-se mutuamente é não ter senso algum. Que se há de imaginar de mais 
diferente, separado, discordante, do que alguma coisa de mortal ligada ao que é 
imortal e eterno e suportando com ele as mesmas terríveis tempestades? 
Além disto, todas as coisas que são eternas têm de repelir com um corpo 
sólido os choques, não deixando penetrar em si nada que possa dissociar o 
entrelaçamento das partes, e é isto o que sucede com os elementos da matéria de 
que anteriormente mostramos a natureza; ou, então, de permanecer por todos os 
tempos, porque não sofrem os golpes, tal como acontece com o vácuo, que 
permanece intato e não recebe choque nenhum; ou, ainda, porque não há à volta 
nenhum lugar onde as coisas possam dissolver-se e dissociar-se, tal como é eterno 
o conjunto dos conjuntos fora do qual não há lugar para onde fujam, nem corpos 
que possam cair sobre eles e dispersá-los pela violência da pancada. 
Mas, se por acaso se tem de considerar a alma como imortal, por estar 
fortificada de defesas vitais, ou porque não lhe chega nada que seja contra a 
segurança ou porque aquilo que vem se retira repelido, seja como for, antes que lhe 
possamos sentir os efeitos nocivos, (Lacuna) o que é certo é que, além de adoecer 
com as enfermidades do corpo, acontece que se atormenta muitas vezes acerca do 
futuro, tremendo de medo e fatigando-se de cuidados e a remorder os erros antigos 
e as faltas. Acrescenta a isto o furor próprio do espírito e o esquecimento das 
coisas, acrescenta-lhe o mergulhar nas ondas negras do letargo. 
A morte, portanto, nada é para nós 59F49 e em nada nos toca, visto ser mortal a 
substância do espírito. E, como não sentimos dor alguma quanto ao tempo 
passado, quando os cartagineses acorreram de todos os lados para o combate, 
quando o Universo, sacudido pelo tumulto trépido da guerra, tremeu de horror sob 
as altas abóbadas do céu e em todos os homens havia dúvida ansiosa sobre a qual 
dos dois caberia o domínio da terra e do mar, assim também, quando não 
existirmos, quando houver a separação do corpo e do espírito, cuja união forma a 
nossa individualidade, também a nós, que não existiremos, não nos poderá 
acontecer seja o que for nem impressionar-nos a sensibilidade, mesmo que a terra 
se misture com o mar e o mar com o céu. 
E se, depois de se separarem do nosso corpo, a substância do espírito e o 
poder da alma continuam sentindo, nada há nisso que nos interesse, visto que é só 
pela ligação e adaptação da alma e do corpo que existe a nossa individualidade. 
Também, se o tempo depois de morrermos juntar toda a nossa matéria e de novo a 
dispuser onde agora está situada e outra vez nos for dada a luz da vida, nada nos 
importará o que se tiver feito, visto que foi interrompido uma vez o curso da nossa 
memória. Agora nada nos importa o que fomos, nem nos afeta por isso qualquer 
angústia. 
Efetivamente, se contemplarmos todo o tempo imenso que passou, os 
variados movimentos da matéria, facilmente se pode acreditar que alguma vez 
estiveram na mesma posição em que estão agora os elementos de que somos 
formados neste momento: todavia não o podemos recordar no espírito; entre um 
 
49 Feita a demonstração de que a alma não é imortal, o que levou mais duma terça parte de todo o Livro III, Lucrécio conclui que a morte 
não pode de modo algum ser nada terrível; a morte é, na realidade, visto que por ela se atinge o não-ser, a libertação de todos os males da 
vida. Não haverá memória nenhuma de todos os sofrimentos por que se passou, exatamente como na vida não se conserva a lembrança das 
provações que não se experimentaram. Dos males futuros também nenhum nos pode alcançar porque, para sofrer-se um mal, é necessário 
existir. É por isso que não se deve igualmente ter nenhuma preocupação com aquilo que sucederá ao corpo depois de morto: deve ser 
indiferente que o enterrem, o queimem, ou o deixem como pasto de feras e de aves de rapina; é um erro que vem de ligar o eu, o que existe 
agora, ao corpo inanimado; não haverá consciência porque não seremos nessa altura o que somos enquanto vivemos, um conjunto de corpo 
e alma. 
tempo e outro sobreveio uma pausa da vida e todos os movimentos, separados de 
todos os sentidos, erraram vagueando por aqui e por além. 
Ê preciso, de fato, se por acaso tem de haver alguma coisa de mísero e de 
triste, que haja nesse mesmo tempo aquele a quem tem de acontecer: como, porém, 
a morte o suprime, como impede de existir aquele a quem poderia ser armado tal 
conjunto de males, ficamos a saber que nada há de temível na morte, que não pode 
ser infeliz quem não existe, e que não interessa nada que já tenha nascido nalguma 
época, visto que a morte imortal lhe roubou a vida mortal. 
Assim, quando se vir um homem lamentar-se sobre si próprio por lhe 
acontecer, depois de morto, que ou apodreça o corpo abandonado, ou se desfaça 
com as chamas ou com as mandíbulas das feras, pode-se concluir que não são 
palavras sinceras,