OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


DisciplinaÉtica Filosófica e Ética Profissional254 materiais1.823 seguidores
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ou que um estímulo secreto se lhe esconde no coração, embora 
ele próprio negue acreditar que tenha alguma sensibilidade depois de morto. Creio 
eu que não dá o que promete nem as razões; não se tira, não se arranca 
radicalmente da vida, e acha ele próprio que alguma coisa de si lhe sobreviverá. 
Com efeito, o vivo que se representa a si mesmo no futuro, com as aves e as 
feras lacerando-lhe o corpo já morto, apieda-se de si próprio; não se separa dele, 
não se afasta bastante do corpo estendido e pela imaginação se confunde com ele e, 
de pé, empresta-lhe a sua própria sensibilidade. Por isso, se lamenta de ter sido 
criado mortal e não vê que na morte verdadeira não há outro eu que possa vivo 
chorar a sua perda, e, ficando de pé, doer-se de que o lacerem ou o queimem. 
Realmente, se quando se morre é um mal ser despedaçado pelas mandíbulas 
e pelas mordeduras das feras, não percebo por que motivo não é doloroso abrasar-
se nas chamas ardentes de uma fogueira em que nos colocaram ou sufocar posto 
no mel ou ficar rígido de frio, quando se está deitado sobre a superfície de uma 
pedra gelada, ou de ser triturado e esmagado pelo peso da terra que nos deitaram 
por cima. 
"Já agora não te receberá uma casa alegre,60F50 nem uma esposa excelente, nem 
os filhos queridos correrão a roubar-te beijos e a acariciar-te o peito com silenciosa 
ternura. Já não poderás ter negócios florescentes, já não poderás ser a guarda dos 
teus. Ó infeliz de ti, ó infeliz", dirão ainda, "um dia nefasto te roubou todas as 
vantagens da vida." Mas não acrescentam a seguir: "Também já não te seguirá a 
saudade de tudo isto". Porque se o vissem claramente em seu espírito e se 
cumprissem estas palavras, já libertariam a mente da grande angústia, do grande 
medo. 
"E tu, adormecido como estás na morte, assim ficarás por todo o tempo, 
isento de todas as cruéis dores. Mas nós, perto da horrível pira, te choramos 
incessantemente, a ti já feito em cinzas, e dia algum nos arrancará do peito essa dor 
eterna." Tem, por conseguinte, de se perguntar a quem assim fala para que é 
necessária uma tal amargura; se tudo vem a dar em dormir e estar em sossego, 
quem há de consumir-se num eterno luto? 
Outros homens, ainda, quando se sentam à mesa e seguram os copos e 
sombreiam o rosto de grinaldas, dizem convictos: "Breve é o gozo para os pobres 
homens; depressa passará e depois nunca mais poderemos ressuscitar". Como se o 
primeiro mal na morte fosse esse de a sede abrasar os miseráveis e de cálida os 
queimar ou de haver com eles a saudade de qualquer outra coisa. Ninguém, 
realmente, se lamenta a si e à vida quando repousam por igual o espírito e o corpo. 
Pode haver, pelo que nos respeita, um sono eterno e nenhuma saudade de 
nós nos vem afligir. Todavia, os elementos espalhados pelos nossos membros não 
vagueiam de modo algum longe dos movimentos sensíveis quando o homem se 
levanta do sono e se recobra. Tem, portanto, de se crer que a morte é ainda menos 
para nós, se alguma coisa pode ser menos do que aquilo que vemos nada ser: segue-
se à morte uma dispersão maior da quantidade de matéria e ninguém torna a 
acordar depois que a gelada suspensão da vida o tocou uma vez. 
 
50 Todo o final do Livro é, sob o ponto de vista poético, um dos mais vivos e belos trechos de toda a obra de Lucrécio, com as suas falas 
reproduzidas em discurso direto e a prosopopéia da natureza. Filosoficamente, é o coroamento de tudo quanto ficou para trás: podemos ter 
a certeza de que não há mal algum na morte, de que o castigo dos infernos não é mais do que lenda ou figura poética e de que é na terra que 
realmente se é punido por todo o mal que se faz; que se é punido, sobretudo, por ter ignorado que se deve viver sobriamente, livre de 
ambições e desprendido de todo o laço que possa trazer-nos qualquer espécie de inquietação. 
Finalmente, se de súbito a natureza proferisse palavras e viesse ela própria 
increpar algum de nós: "Que tens tu, ó mortal, que te abandonar de tal modo a 
dores tão excessivas e amargas? Por que choras e te lamentas sobre a morte? 
Efetivamente, se a vida anterior te foi agradável e se todos os prazeres não foram 
como acumulados num vaso furado e não correram e se perderam inutilmente, por 
que razão não hás de, tolo, retirar-te da vida como um conviva farto e aceitar com 
equanimidade um repouso seguro? Mas se tudo aquilo de que gozaste se perdeu em 
vão e a vida te pesa, por que buscas aumentá-la mais, para que tudo de novo tenha 
um mau fim e desapareça sem proveito? Não seria melhor pôr fim à vida e ao 
tormento? Não posso imaginar e inventar agora coisa alguma que te agrade: tudo é 
sempre o mesmo. Se o teu corpo já não está decrépito com os anos, se os membros 
não estão lânguidos de cansaço, tudo fica, no entanto, igual, mesmo que persistas 
em viver, vencendo todos os tempos, e, ainda mais, mesmo que nunca viesses a 
morrer". Que haveríamos de responder senão que a natureza nos intenta um 
processo justo e defende uma causa verdadeira? 
Se é já um homem mais velho, adiantado em anos, que se queixa e lamenta a 
morte, fazendo-se mais infeliz do que seria justo, não tem ela razão em clamar 
ainda mais e em o increpar com acre voz? "Limpa daí as lágrimas, meu pateta, e 
cala-me essas queixas. Envelheces depois de ter gozado de todos os bens da vida. 
Mas, como sempre desejas o que está longe e desprezas o presente, passou-te a vida 
incompleta e sem gosto, e chegou-te a morte à cabeceira, sem tu a esperares, antes 
de poderes retirar-te saciado, cheio das coisas. Mas abandona agora tudo o que não 
vai com a tua idade e retira-te, vamos, diante dos outros: eis o que é necessário." 
É justo, creio eu, que assim proceda, justo que censure e increpe. Sempre a 
velhice se retira expulsa pela novidade, e é necessário que umas coisas se renovem à 
custa de outras: ninguém é entregue ao báratro e aos tenebrosos infernos. É preciso 
que haja material de que se desenvolvam as gerações futuras; e estas também te 
seguirão depois de terem gozado da vida; cairão como caíram as que vieram antes 
de ti. 
Nunca deixará de haver alguma coisa que de outra nasça e a vida não é dada 
como propriedade a ninguém: a todos vem como usufruto. Vê, olhando para trás, 
como nada significou para nós toda a velha porção de eternidade que se passou 
antes que nascêssemos. Eis o espelho que a natureza nos apresenta do tempo 
futuro, do que virá depois da nossa morte. Surge nisto algum horror, alguma 
tristeza? Não é tudo muito mais seguro do que o sono? 
E é fora de dúvida que tudo o que se diz existir no profundo Aqueronte nos 
acontece realmente na vida. Não há nenhum infeliz Tântalo que receie, como é 
fama, o enorme rochedo suspenso nos ares, e esteja paralisado por um medo sem 
objeto real; é antes na vida que o vão pavor dos deuses atormenta os mortais: é nela 
que se temem os acasos que a sorte traz a cada qual. Nenhumas aves atacam um 
Títio prostrado no Aqueronte e é certo que não lhe poderiam encontrar no vasto 
peito nada que perscrutassem durante toda a eternidade; embora fosse enorme a 
extensão do corpo derrubado e não cobrisse apenas nove jeiras com seus membros 
despedaçados, mas todo o orbe terrestre, não poderia, mesmo assim, suportar uma 
dor eterna, nem dar sempre alimento com seu próprio corpo. 
Mas, para nós, Títio existe aqui: prostrado de amor, dilaceram-no aves, 
devora-o a ansiosa angústia ou despedaçam-no os cuidados de qualquer outra 
paixão. Também na vida e diante dos olhos temos nós um Sísifo: é aquele que se 
esforça por conseguir do povo os feixes e os temíveis machados e sempre se retira 
vencido e abatido. Efetivamente, procurar o poder, que é sempre vão e jamais