OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores
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OS PENSADORES - Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio - Coleção Os Pensadores


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53 O prólogo que aparece nos manuscritos é reproduzido, quase sem modificações, dum trecho do Livro I; duas hipóteses são possíveis para 
explicar a repetição: uma, a de que o próprio poeta o tivesse posto como prefácio provisório, incerto sobre o lugar que melhor caberia ao 
texto na elaboração geral do poema; a segunda, a de que um leitor tivesse feito a cópia, de modo a equilibrar o Livro IV com os outros. De 
qualquer modo, dão-no neste lugar os dois manuscritos mais importantes, O, já citado, e Q (= Quadratus, Vossianus, Q. 94, Leyde). 
manter o teu espírito encantado com meus versos, enquanto penetras toda a 
natureza e lhe sentes a utilidade. 
Mas, como ensinei64F54 quais são os elementos primordiais das coisas, como 
distantes pela variedade de formas, voejam por sua livre vontade, levados por um 
eterno movimento, e de que modo se pode qualquer coisa criar a partir deles; como 
ensinei também qual é a natureza do espírito, de que elementos é formada, como 
convive com o corpo, e de que modo, quando separada, volta aos elementos 
primitivos, agora começarei a expor-te o que intimamente se liga a todos estes 
assuntos, isto é, o que são as coisas a que chamamos simulacros dos objetos. 
São eles como películas arrancadas da superfície dos objetos e que voejam de 
um lado e outro pelos ares; indo ao nosso encontro quando estamos acordados, 
aterram-nos o espírito, exatamente como em sonhos, quando muitas vezes 
contemplamos figuras espantosas e imagens daqueles que já não têm luz; são elas 
que muitas vezes nos arrancam cheios de horror ao sono em que repousávamos; 
ora, não vamos acreditar que as almas fogem do Aqueronte ou que espectros 
voejam entre vivos, ou que alguma coisa de nós pode ficar depois da morte, visto 
que o corpo e a substância da alma, aniquilados ao mesmo tempo, se dispersam nos 
seus elementos respectivos. 
Digo, pois, que são emitidos dos objetos,65F55 da superfície dos objetos, efígies 
e leves representações desses mesmos objetos; deveria dar-se-lhes o nome de 
películas ou de cascas, visto que têm a forma e o aspecto do corpo de que são 
imagens, daquele mesmo de que emanam para errarem no espaço. Pelo que vou 
expor, será possível, mesmo a um espírito obtuso, compreender isto. 
Primeiro, porque muitos objetos emitem elementos abertamente, uma parte 
em solução difusa, como a lenha quando emite o seu fumo ou a chama quanto ao 
seu calor, e parte mais cerrada e condensada, como às vezes as cigarras quando 
 
54 Ao prólogo segue-se, como de costume, o argumento do Livro: Lucrécio anuncia que tratará dos simulacros dos objetos e das visões 
aterrorizadoras que eles podem provocar nos espíritos não preparados pela sólida doutrina. 
55 A afirmação de que da superfície dos objetos se desprendem figuras, imagens sutis, películas, apóia-se numa tentativa de prova por 
analogia: o fumo, o calor das chamas, a pele velha das serpentes, a cor dos toldos no teatro; os elementos que compõem essas imagens são, 
segundo Lucrécio, muito mais sutis, muito mais delicados do que aqueles que constituem os próprios corpos. A teoria não é tão extravagante 
como pode parecer à primeira vista e facilmente se poderia traduzir em termos modernos; para a visão, por exemplo, cada objeto se 
comporta como se dele se desprendesse a cada momento uma carapaça de ondas que reproduzem, pelos seus vários comprimentos, os 
acidentes de cor do objeto. 
abandonam por causa do calor as suas túnicas redondas, e como os vitelos quando 
deitam ao nascer películas da superfície do corpo; e também como a serpente 
escorregadia despe o seu vestuário entre os espinhos, o que faz que vejamos as 
moitas enriquecidas por seus despojos que esvoaçam; ora, como isto se dá, também 
deve uma tênue imagem ser emitida pelos corpos da sua superfície exterior. 
Não há nenhuma possibilidade de aceitar mais facilmente que se desprendam 
dos corpos as coisas de que falei do que aquelas que são tênues, sobretudo porque 
à superfície há muitos elementos diminutos, que podem ser lançados na mesma 
ordem em que estavam e conservar a figura da forma, e isto tanto mais facilmente 
quanto menos podem ser impedidos, visto estarem colocados mesmo à frente. 
Efetivamente, vemos muitos objetos emitir e lançar não só o mais profundo 
e íntimo de si próprio, como já dissemos antes, mas até mesmo parte da sua 
superfície e a própria cor. E isto o que fazem vulgarmente os toldos amarelos, 
vermelhos e verdes, quando, estendidos nos grandes teatros, ondulam drapejando 
pelos mastros e pelas traves: por baixo deles, todo o público sentado nos degraus, 
todo o adorno da cena e as estátuas dos deuses e das deusas se tingem e são 
levados a tomar a sua cor flutuante; e, quanto mais restrito é o âmbito do teatro, 
tanto mais todos os objetos, na rarefeita luz do dia, sorriem nesta graça difusa. 
Portanto, se os toldos emitem cor da superfície, também quaisquer outros 
objetos devem emitir tênues imagens, visto que num caso e noutro é da superfície 
que elas são lançadas. Existem, por conseguinte, imagens fiéis dos objetos, as quais 
voejam por um lado e outro, formadas como são de um sutil material e não podem 
ser vistas quando tomadas em separado. 
Além de tudo, se o odor, o fumo, o calor e as outras coisas semelhantes se 
dispersam ao sair dos objetos, é que, ao virem dos íntimos lugares em que 
nasceram, separam-se por causa das sinuosidades do caminho, visto não 
encontrarem estradas retas que lhes sirvam de saída ao pretenderem escapar logo 
que se formam. Mas, pelo contrário, quando é emitida a leve membrana duma cor 
de superfície, nada há que a possa dilacerar, visto que, por estar colocada na frente, 
tem seu caminho livre. 
Finalmente, todas as imagens que nos aparecem nos espelhos, na água, em 
toda a superfície brilhante, têm fatalmente que ser como imagens emitidas dos 
próprios objetos, visto apresentarem um aspecto idêntico. Existem, por 
conseguinte, imagens sutis dos objetos e efígies semelhantes a eles, as quais 
ninguém pode ver em separado, e que todavia se tornam visíveis, quando repelidas 
freqüentemente, continuamente, pela superfície dos espelhos; e de nenhuma outra 
maneira se poderia explicar como se conservam de tal forma que sejam capazes de 
reproduzir figuras semelhantes a cada objeto. 
E, agora, aprende quão tênue é a substância de cada imagem, porque os 
elementos estão tão abaixo dos nossos sentidos e são tão mais pequenos do que os 
objetos que os nossos olhos começam a não poder distinguir; e, para confirmar 
isto, ouve em poucas palavras como são sutis os elementos das coisas. 
Primeiro, há animais tão pequenos que, partidos em três, sua terça parte já 
não se pode ver de modo algum. Como se lhes há de imaginar o intestino ou 
qualquer coisa de semelhante? Que será o coração ou o olho? Que serão os 
membros? E as articulações? Como tudo há de ser pequenino! E que havemos de 
dizer daqueles elementos de que fatalmente lhes há de ser formada a alma e a 
substância do espírito? Não vês como são sutis e diminutos? Depois há todas as 
coisas que exalam do seu corpo um cheiro penetrante, a panacéia, o repugnante 
absinto, os desagradáveis abrótonos, a terrível centáurea; se por acaso segurares 
numa qualquer, mesmo de leve, como não hás de reconhecer que numerosas 
imagens dos objetos vagueiam de inúmeras maneiras, sem força alguma e 
imperceptíveis aos sentidos? 
Mas não julgues que só eles vagueiam,66F56 esse tais simulacros das coisas que 
das coisas provêm. Há também outros que se geram espontaneamente e por si 
próprios se apresentam neste céu a que chamamos ar. Formados de maneira 
 
56 Além dos simulacros que se desprendem dos