8th Divisões do Tempo e Espaço; Fernand Braudel
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e o proletariado dos países capitalistas avan
çados Todavia, não se trata aqui de uma separação "nova", mas de uma antiga
ferida, por certo incurável. Existia muito antes da época de Marx.
Temos, portanto, três grupos de condições, todos de alcance geral. ,
ocv vj^1* &
Primeira regra:
um espaço que vá ntamente
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CMsQ CQr^*^° 0^rO-<?f>
\u201eOs limites de uma economia-mundo situam-se onde começa uma outra econo
mia do mesmo tipo, ao longo de uma linha, ou melhor, de uma zona que, de um e
outro lado, não há vantagem, economicamente falando, em transpor, a não ser em
casos excepcionais. Para o grosso dos tráficos, e nos dois sentidos, &quot;a perda na tro
ca ultrapassaria o ganho&quot;&quot;. Por isso. como regra geral, as fronteiras das econo-
n
As divisões do espaço e do tempo
^- mias-mundos se apresentam comozonas pouco animadas, inertes. Como espessos
^ &quot;Invólucros, difíceis detranspor, muitas vezes barreiras naturais, noman 's lands, no
xJ \man'sseas. Eo Saara, a despeito dassuascaravanas, entrea África Negra e a Áfri-
Gca Branca. Eo Atlântico, vazio aosule a oesteda África, quedurante séculos barra
S u &quot;>a passagem para o oceano Índico, cedo conquistado para os tráficos, pelo menos na
^- u| i sua parte norte. Éo Pacífico, que a Europa conquistadora não consegue ligar bem
'\u2022>>.< com c'a mesma: o périplo de Magalhães, afinal, é a descoberta apenas de uma por-
\u201e ta de entrada no mar do Sul. não de uma porta de entrada e de saída, isto é, de re-^
gresso. Para regressar à Europa, o périplo completou-se com a utilização da rota
portuguesa do cabo da Boa Esperança. Mesmo no princípio, em 1572. as viagens
do galeãode Manila não derrubaram verdadeiramente o monstruoso obstáculo que
era o mar do Sul.
Obstáculos igualmente maciços eram as fronteiras entre a Europa cristã e os
/Bálcãs turcos, entre a Rússia e a China, entre a Europa e a Moscóvia. No século
XVII, o limite oriental da economia-mundo européia passa a leste da Polônia: ex-
clui a vasta Moscóvia. Esta. para um europeu, é o fim do mundo. A um certo via
jante12 que, em 1602. a caminho da Pérsia, aborda o território russo a partir de
Smolensk, a Moscóvia surge como uma região &quot;grande e vasta&quot;, &quot;selvagem, deser-'
ta, pantanosa. coberta de matagais&quot; e de florestas, &quot;cortada por brejos que se atra
vessam por estradas feitas com restos de árvores derrubadas&quot; (contou &quot;mais de 600
passagens desse tipo&quot; entre Smolensk e Moscou &quot;freqüente em muito mau esta
do&quot;), região onde nada é como nos outros lugares, vazia (&quot;podem-se percorrer 20
ou 30 milhas sem encontrar uma cidade ou uma aldeia&quot;), com estradas execráveis,
mesmo com bom tempo, região, enfim, &quot;tão bem fechada a qualquer acesso, que é
impossível entrar e sair de lã furtivamente, sem autorização ou salvo-conduto do
grão-duque&quot;. País impenetrável, é a impressão de um espanhol que, evocando a
memória de uma viagem de Vilnaa Moscou por Smolensk, por volta de 16S0,afir
ma que &quot;toda a Moscóvia é uma floresta contínua&quot; onde os únicos campos são os
que o machado abriu11. Ainda em meados do século XVIII, o viajante que ultrapas-^.
sasse Mittau, a capital da Curlándia, só encontrava abrigo em &quot;hospícios pio-
Ihentos&quot;, mantidos por judeus, &quot;onde era preciso deitar-se em meio às vacas, aos
porcos, às galinhas, aos patos e a um viveiro de israelitas, tudo exalando odores por
causa de um fogão sempre quente demais&quot;1&quot;1.
Convém, uma vez mais. rr.ediressas distâncias hostis, pois é no interior destas
dificuldades que se estabelecem, crescem, duram e evoluem as economias-mundos.
Precisam vencer o espaço paradominá-lo e o espaço nunca deixa de se vingar, de
impor novos esforços. £ milagre a Europa ter deslocadoseus limites de umasó vez.
ou quase de uma só vez. com os grandes descobrimentos do final do século XV.
Mas era preciso manter o espaço aberto, tanto as águas atlânticas como o solo ame
ricano. Manter um Atlântico \azio, uma América meio vazia, não era fácil. Mas
também não era fácil abrir caminho até uma outra economia-mundo, levar até ela
uma &quot;antena&quot;, uma linha de alta tensão. Quantas condições a preencher para que a
porta do comércio do Levante se mantivesse aberta durante séculos entre duas vigi
lâncias, duas hostilidades... O sucesso da rota do cabo da Boa Esperança teria sido
impensável sem esse triunfo prévio de longa duração. E vejam-se quantos esforços
ela custará, quantas condições exigirá: Portugal, o seu primeiro operário, esgotar-
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2c3.AS ECONOMIAS-MUNDOS EUROPÉIAS AESCALA DO PLANIfT \
Aeconomia atropela em via deexpansão é representada pelos seus tráficos mau importantes em escala mun
dial. Em 15&quot;'. j partir de Veneza, são explorados, por apropriação direta, oMediterrâneo f.eráp. III j rede
das galcrc zimercatoj eoOcidente: as etapas prolongam essa exploração ate oBatuco, j Sonegae. para
além das Esctlas do Levante, alé o oceano Indico.
BIBLIOTECA
Em 1775. «1 tentáculos dos tráficos europeus estendem-vao mundo inteiro: por sem pontos de partida distin
S2 TnTn , luJ&quot;-opar Jüi ***«*? bruànicas. Londres tornou-se ocentro domando. So
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Asdivisões do espaçoe do tempo rj
se-á literalmente nisso. Avitória caravaneira do Islã através dos deserto!itulMaté f
conquista, uma conquista lentamente assegurada pela construção de uma rede de
oásis ede pontos de água. - ? J
Spotmda rffgra; no ceuSiüa
/ uma cidadf capitalista dominante.\u2014, b1
Uma ^nnomia-mundo possui sempre um pólgjn^a^uma cidade no centra
da lo^sücTd^sle^negócios: as informaçõe^sj^rc^donas^os capitais, oscre-_
-ttos°os homens, as n Ir rlfí ^aiç oh^am aela edela voltam .fsSS^mditarifleis são grandes comerciantes, por vezes excessivamen-
^rÍCCidades-etapa rodeiam opólo amaior ou menor distância - mais respeitosa
'ou n^nÍs - alciadas ou cúmplices, mais freqüentemente ainda sujeitas ao seupape secundário. Sua atividade ajusta-se àda metrópole: montam guarda ao seu re- -Srremetem para ela ofluxo dos negócios, redistribuem ou encaminham os bens
uueebíhes confia, agarram-se&quot; ao seu crédito ou submetem-se aele Veneza naoZ tlnh^Antuérpla não está sozinha: Amsterdam^^f^trópoles apresentam-se com um séquito, uma comitiva: RichardJJJ»flto«. \u2022
esse respeito, de arquipélagos de cidades, eaexpressão da aimagem. Stendhaltt-
nhTa ilusão de que as grandes cidades da Itália, por generosidade, tinham preserva-dò as menos gldes<\ Mas como poderiam destruí-las? Subjugá-las s,m nada
mais p seL8necessi.avam dos seus serviços Uma ridade-mundo nâo pode atin-
^ ^manter oseu alto nível devida sem osacrifício, desej^u^aç^u^
L. Das outras com as quais se parece - uma cdade euma cidade - mas das
^uais difere: éuma supercidade. Eoprimeiro sinal pelo qual areconhecemos epre-
cisamente o fato de ser assistida, servida.
PhilippedeComm^ies, em 1495. Veneza &quot;é amais tr.unfan.e cidade que a. .NIa OP nião de Descartes, Amsterdam éuma espécie de &quot;inventario do possível, e
escreve Guez de Ba.zac. em 5de maio de 1631: &quot;Que lugar poderíamos esco
no mundo [ 1em que todas as comodidades etodas as cur.osidadesque se possam
desehr fos em tão fáceis como neste?- Mas essas cidades deslumbrantes tambémd a Icertam. escapam ao observador. No tempo de Voltaire ou de Moiuesquie.
oual óoestrangeiro que não se empenha em compreender, em explicar Londres. A
viaJm à nulãlerra. um gênero literário, éum empreendimento de descoberta queSa sempre por se deparar com aoriginalidade irônica de Londres. Equem nos
contaria, hoje. o verdadeiro segredo de Nova YorkQualquer cidade um pouco importante, sobretudo se eaberta p, r. omari
uma &quot;Arca de Noé&quot;. &quot;uma verdadeira feira de mascaras . uma torre de Babel
èécomo opresidente de Brosses definia.lW&quot;. Mas oeme dtete verda-deiras metrópoles? Apresentam-se sob o signo de extravagantes misturas, sejam
Lo dres. Istambul. Ispahan ou Ma.aca. Surat ou Calcutá (esta a£»*&quot;\u2022>£
meiros sucessos).Jm_Am-tmhm soh os pilares da Bolsa que é^ma smtcscd^
universo lil li ir Tnrlm mirtii *\u2022 \u2022&quot;&quot;&quot;H&quot; Fm VRneza' t»uun ü
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As divisões do espaço e do tempo
ver curiosidade em ver homens de todas as partes do mundo, vestidos cada qual a
seu modo diversamente, vá à