8th Divisões do Tempo e Espaço; Fernand Braudel
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uma comunidade de camponeses da montanha
que "continuava a viver num ritmo ancestral, segundo as mentalidades do passado,
e a produzir segundo técnicas agrícolas antigas, sobrevivente [em suma] do naufrá
gio generalizado de suas vizinhas": eis a sorte inaudita que teve uma historiadora.
Colette Baudouy56. E soube aproveitá-la bem.
Seja como for. o fato de existirem tais isolais na França de 1970 recomenda
que não nos surpreendam, na Inglaterra, mesmo nas vésperas da Revolução Indus
trial, as regiões atrasadas que a cada passo surgem" diante do viajante ou do pesqui
sador. David Hume'" (1711-1776) observava, em meados do século XVIII. que na
Grã-Bretanha e na Irlanda não faltavam regiões em que a vida era tão barata quanto
na França, o que é uma maneira indireta de falar de regiões que hoje chamaríamos
de "subdesenvolvidas", onde a vida permanece tradicional, onde os camponeses
têm ao seu Jispor os recursos da caça abundante, dos salmões e das trutas que pulu
lam nos rios.Quanto às pessoas, deve-se falar de selvageria E o caso da região de
Fens. na orla do golfo de Walsh, num momento em que são empreendidas na re
gião numerosas melhorias à holandesa, no início do século XVII: obras de hidráuli
ca fazem surgir campos capitalistas num lugar em que até então havia homens li
vres, habituados à pesca e â caça da fauna aquática. Esses primitivos irão lutar
ferozmentepara preservar sua vida. atacando engenheiros e empreiteiros, perfuran
do os diques, assassinando os operários malditos5*. Tais conflitos, modernização
contra arcaísmo, reproduzem-se ainda diante dos nossos olhos tanto na Campania
Encontro de duas economias-mundos: um mercador do '\u2022\u2022dente nos tuonrm ,/- nrnA.,r;. iHustraçàodo Livro da, Maravilhas. Marco Polo. século A, fsTslsfrÍSSífoSSÍuS ""
interior como em outras regiões do mundo». No entanto, essas violências são rela-
toamente mas. Geralmente, a"civilização". JUando precisa, tem muitos meios de
seduzir ede penetrar nas regiões que durante muito tempo deixara abandonadas asi
mesmas. Mas será o resultado tão diferente'.'
Terceira regra (continuação efim):
invólucro e infra-estrutura
Uma economia-mundo apresenta-se como um imenso invólucro. Ela deveria a
pnoru dados os meios de comunicação de outrora. reunir forças consideráveis para
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I
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As divisões do espaço e do tempo
assegurar seu bom andamento. Ora, incontestavelmente ela funciona, embora só te-
nha densidade eespessura, resultados e forças eficazes na zona central e nas regiões
-que a rodeiam de peno. Eestas, além disso, quer as observemos no circulo de
Veneza, de Amsterdam ou de Londres, compreendem zonas deeconomias menos _
vTvás, menos bem Usadas aos centros de decisão. Ainda hoje os Estados Unidos
-têmsuas regiões subdesenvolvidas no interior de suas próprias fronteiras.
Portanto, quer se considere uma economia-mundo, exposta na superfície do
globo ou nas profundezas de sua zona central, o mesmo espanto se impõe: ama
quina funciona e, contudo (pensemos sobretudo nas primeiras cidades dominantes
do passado europeu).' dispõe de pouca potência. Como terá sido possível tal suces
so'' Apergunta ressureirá ao longo de toda esta obra, sem que nossas respostas pos
sam ser peremptórias? aHolanda conseguindo levar as suas vantagens comerciais
até ao interior da França hostil de Luís XIV, a Inglaterra apoderando-se da índia
imensa são proezas, écerto, e no limite do incompreensível.
No entanto, talvez seja lícito sugerir uma explicação por intermédio de uma
imagem.
Tomemos um bloco de mármore60, escolhido nas pedreiras de Carrara por
Michelangelo ou por um dos seus contemporâneos: um gigante por seu peso que,
no entanto, será retirado por meios elementares, depois deslocado graças a forças
certamente modestas: um pouco de pólvora há muito utilizada nas pedreiras e mi
nas duas ou três alavancas, uma dezena dehomens (se tanto), cordas, animais-atre-
ladòs toras de madeira para uma rolagem eventual, um plano inclinado - e está
feito! Está feito porque ogigante está preso ao chão por seu peso; porque ele repre
senta uma força enorme, mas imóvel, neutralizada. Ea massa das atividades ele
mentares não está também encurralada, cativa, prçsa ao chão e,por isso, mais facil
mente manobrável a partir decimàl Os aparelhos e alavancas que permitem essas
proezas são um pouco de dinheiro sonante. de metal branco que chega aDanz.g ou
a Messina a oferta tentadora de um crédito, de um pouco de dinheiro "artificial ,
ou ade um produto raro ecobiçado... Ou opróprio sistema dos mercados. No final
das cadeias mercantis, os preços altos suo incitações contínuas: um sinal e tudo se
põe em movimento^Acrescente-se a força do hábito: a pimenta e as especiarias pas-
saram séculos apresentando-se às portas do Uvante_paraJ4íQClfflttar_Q4ttecioso
metal branco.Claro que também há violência: as esquadras portuguesas ou holandesas tacili-
taram as operações comerciais bem antes da "era da canhoneira". Mas, com maior
freqüência ainda, foram meios aparentemente modestos que manobraram as econo
mias dependentes. Com efeito, a imagem vale para todos os mecanismos da eco
nomia-mundo. tanüTpara o centro com relação às periferias como para o centro
' com relação asi mesmo. Pois ocentro, repita-se, está escalonado, dividido contra si
mesmo: Éas periferias também oestão. Um cônsul russo"1 escreve: "E notório que
-emTãlêniib quase todos os artigos são 50% mais caros do que em Nápoles . Mas
ele se esquece de dizer oque entende por "artigos" equais as exceções implica o
corretivo "quase" implica. Cabe a nós imaginar a resposta e osmovimentos que po
dem ser acarretados por esses desníveis entre as capitais dos dois reinos que consti
tuem o sul desfavorecido da Itália.
proNOMIA-MUNDO:
UMA ORDEM EM FACE DE OUTRAS ORDENS
Seja qual for a evidência das sujeições econômicas, sejam quais forem as suas
conseqüências, seria um erro imaginar a ordem da economia-mundo governando
toda a sociedade, determinando, por si só, as outras ordensda sociedade. Pois há
outras ordens. Umaeconomia nuncaestá isolada. O seu território, o seu espaço são
osmesmos ondese instalam e vivemoutrasentidades\u2014a cultura, o social,a políti
ca_ que incessantemente interferem nela paraa favorecer, ou então paraa contra
riar. Essasmassas são tanto mais difíceis de dissociar umasdas outras quanto aqui
loque se oferece à nossa observação \u2014a realidade da experiência, o "real real",
como diz François Perroux62\u2014 é umaglobalidade, aquilo que designamos por so
ciedade porexcelência, o conjunto dosconjuntos6*. Cadaconjunto64 particular, dis-
tin°uido por razões de inteligibilidade, permanece, na realidade vivida, misturado
aos outros. Não creio por um só momento que haja uma no man 's land entre histó
ria econômica e história social, como propõe Willan65. Poderíamos.escrever as
equações que se seguem no sentidoque quiséssemos: economia é política, cultura,
sociedade; a cultura é economia, política, sociedade, etc. Ou admitir que, numa
dada sociedade, a política comanda a economia e vice-versa, etc. Dizer até, com
Pierre Brunel66,que "tudo o que é humano é político, portanto, toda literatura (mes
moa poesia reclusa de Mallarmé) é política". Com efeito, se uma característica es
pecífica é a superação do seu espaço, não poderemos dizer o mesmo dos outros
conjuntos sociais? Todos comem espaço, tentam estender-se, definem as suas su
cessivas zonas à Thünen.
Assim, determinado Estado surge dividido em três zonas: a capital, a provín
cia, as colônias. E o esquema que corresponde a Veneza no século XV: a cidade e
suas imediações \u2014o Dogado"1 \u2014; as cidades e territórios da Terra Firme; as colô
nias \u2014o Mar. Pai>» Florença, a cidade, o Contado, Io StatoM. A respeito deste últi
mo, conquistado à custa de Siena e de Pisa. poderia afirmar que pertence à catego
ria das pseudocolônias? Inútil falar da tripla divisão da França dos séculos XVII.
XVIII, XIX e XX, ou da Inglaterra, ou das Províncias Unidas. Mas. à dimensão da
Europa inteira, o sistema chamado do equilíbrio europeu"', estudado com predile
ção pelos historiadores, não