NOÇÃO DE NATUREZA, AMBIENTE, MEIO AMBIENTE, RECURSOS AMBIENTAIS E RECURSOS NATURAIS
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NOÇÃO DE NATUREZA, AMBIENTE, MEIO AMBIENTE, RECURSOS AMBIENTAIS E RECURSOS NATURAIS


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Agric. São Paulo, São Paulo, v. 51, n. 2, p. 15-26, jul./dez. 2004 
NOÇÃO DE NATUREZA, AMBIENTE, 
MEIO AMBIENTE, RECURSOS AMBIENTAIS 
E RECURSOS NATURAIS1 
 
 
Richard Domingues Dulley2 
 
 
RESUMO: Este artigo procura estabelecer, a partir das reflexões de alguns autores, quais se-
riam as principais diferenças entre os conceitos de natureza, ambiente, meio ambiente, recur-
sos naturais e recursos ambientais. O objetivo é melhorar o entendimento sobre cada um, de 
modo que os interessados possam aplicá-los em suas análises de forma adequada, evitando-se a 
utilização indiscriminada de uns e outros. Na realidade, há suficientes elementos para inferir 
que as diferenças entre esses conceitos existem, e são substanciais e significativas. O mais im-
portante, entretanto, é que para o futuro entre os principais recursos ambientais ou naturais 
que devem ser preservados estão os recursos genéticos presentes na natureza do país e que 
constituem parte incomensurável da riqueza nacional. 
 
Palavras-chave: natureza, ambiente, meio ambiente, recursos naturais, conceitos. 
 
 
 
NOTIONS OF NATURE, ENVIRONMENT, SPECIFIC ENVIRONMENT, 
ENVIRONMENTAL RESOURCES AND NATURAL RESOURCES 
 
ABSTRACT: Grounded in a few authors´reflections, this article tries to establish the princi-
pal differences among the concepts of nature, environment, specific environment, natural re-
sources and environmental resources. The objective was to improve the understanding of each 
one, so that interested people will be able to appropriately apply in their analyses, thus avoid-
ing the indiscriminate utilization of these terms. In fact, there are enough elements to infer 
that the differences among those concepts exist and are substantial and meaningful. The im-
portant point, however, is that, for the future, the main environmental or natural resources 
that must be preserved are the genetical resources present in a country\u2019s nature, which consti-
tutes an incommensurable part of the national wealth. 
 
Key-words: nature, environment, specific environment, natural resources, concepts. 
 
JEL Classification: N56, Q20, Q30. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1Registrado no CCTC n. ASP-10/2004. 
2Engenheiro Agrônomo, Doutor, Pesquisador Científico do Instituto de Economia Agrícola. 
Dulley, R. D. 
Agric. São Paulo, São Paulo, v. 51, n. 2, p. 15-26, jul./dez. 2004 
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1 - INTRODUÇÃO 
 
 Os textos que tratam de temas relacionados aos 
impactos que os diversos sistemas de produção agrí-
cola provocam na natureza acabam por utilizar os 
termos natureza, ambiente, meio ambiente, recursos 
ambientais e recursos naturais quase que como sinô-
nimos. Essa falta de rigor na utilização dos conceitos, 
embora não seja importante para os leigos, dificulta o 
entendimento para aqueles que se dedicam a estudar 
as questões ambientais. À primeira vista, destacar esta 
questão semântica pode parecer apenas um preciosis-
mo, porém uma simples decisão de denominar o con-
teúdo deste artigo de \u201cquestões ambientais\u201d, \u201cques-
tões da natureza\u201d, \u201cquestões do meio ambiente\u201d ou 
\u201cquestões dos recursos naturais\u201d tem importância. E 
isso porque a visão geral mais comum e predominan-
te, que é a leiga, distingue muito pouco esses termos, 
e o entendimento que se tem da natureza e a forma 
pela qual agricultores, industriais, trabalhadores e 
consumidores, enfim a sociedade de modo geral se re-
laciona com ela e considera ou encara qualquer tipo 
de ação impactante decorrente de suas atividades, de-
pendem em grande parte desse entendimento inicial. 
 É importante portanto investigar os elementos 
que fundamentam essa visão mais comum, procu-
rando melhor entender e diferenciar do ponto de 
vista teórico os conceitos de natureza, ambiente, 
meio ambiente, recursos ambientais e recursos natu-
rais, no sentido de promover o esclarecimento, ou 
senão, pelo menos o debate. 
 Buscou-se, portanto, neste artigo resgatar o 
pensamento de diversos autores que têm se dedica-
do ao estudo e à reflexão sobre esses temas e conse-
guiram avançar na diferenciação do real significado 
de cada termo. Evidentemente, o que se segue não se 
pretende constitua uma \u201cpalavra final\u201d, uma vez 
que na área do estudo da natureza quase tudo está 
sempre em construção. 
 
 
2 - NATUREZA 
 
 Em relação ao estudo da natureza destacou-se 
o pensamento de alguns autores como base para as 
considerações e reflexões feitas neste trabalho. Um 
enfoque bastante original e esclarecedor é o de Leno-
ble (1969), sendo importante destacar que essas refle-
xões foram feitas há mais de 30 anos. Sua idéia básica 
é a natureza que o homem conheceu e conhece é 
sempre pensada. E esclarece que essa idéia é pensada 
no espaço e no tempo. Lenoble (1969) considera que 
\u201cnão existe uma Natureza em si, existe apenas uma Na-
tureza pensada. (...). A natureza em si, não passa de uma 
abstração. Não encontramos senão uma idéia de natureza 
que toma sentido radicalmente diferente segundo as épocas e 
os homens.\u201d Dessa forma, o significado da natureza 
não é o mesmo para grupos sociais de diferentes luga-
res e épocas na história (LENOBLE, 1969). A natureza é 
pensada, a partir de relações sociais. 
 E ademais, considera que \u201c...Toda idéia da natu-
reza pressupõe, com efeito, uma complexa aliança de ele-
mentos científicos (o que são as coisas?), morais (que atitude 
deve tomar o homem perante o mundo?), religiosos (a natu-
reza é o todo ou é a obra de Deus ?)\u201d (LENOBLE, 1969). 
 O termo natureza, ainda segundo esse autor, 
\u201c... ao mesmo tempo que se aplica ao conjunto das coisas ... 
designa também. ... um princípio considerado produtor do 
desenvolvimento de um ser e que realiza nela um certo 
tipo de ação\u201d e que na origem do termo natureza 
\u201c...está a palavra latina natura que liga-se a raiz nasci 
(nascer) e significa em primeiro lugar: a ação de fazer 
nascer\u201d (LENOBLE, 1969). 
 Verifica-se, portanto, que o conceito de natu-
reza daquele autor é abrangente e diferencia clara-
mente o natural do artificial. Assim, o termo natural 
trataria das coisas e fenômenos da natureza e o arti-
ficial das coisas e fenômenos do homem. Segundo 
Lenoble (1969), para os gregos, \u201co natural é uma or-
dem independente das coisas humanas", e o artificial se-
ria resultado de um prodígio do homem. Existiriam, 
nesse caso, também alguns artifícios que o homem 
poderia utilizar em relação à natureza, que seriam 
proibidos por violar a própria natureza. A arte seria 
a habilidade da imitação da natureza, sem entretanto 
reproduzi-la, e a técnica uma forma de domínio so-
bre a natureza, sem entretanto reproduzi-la. Exem-
plifica com a substância sulfato de cobre, que na 
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realidade não é uma coisa, mas uma fórmula pensa-
da e que pode ser \u201creproduzida\u201d, mas não de "forma 
natural". Considera ainda que o termo natural não se 
aplica apenas a coisas, abrangendo também os hábi-
tos sociais, de modo que \u201c... toda mudança grave da 
ordem humana é, ao mesmo tempo, uma alteração da 
natureza\u201d. 
 É preciso lembrar também que não se pode 
dissociar o natural do social, pois outros temas, além da 
destruição da natureza, como o tratamento cruel de 
animais domésticos, a exploração desumana de traba-
lhadores e crianças e as restrições por parte dos con-
sumidores aos organismos geneticamente modificados, 
que até há poucos anos, não eram sequer cogitados 
pelas legislações específicas, nem mesmo os monitora-
dos por entidades internacionais, passaram, recente-
mente, a serem considerados parte da crise ambiental. 
 Aquele mesmo autor destaca que apesar das 
divergências existentes entre escolas de pensamento e 
polêmicas, a concepção que