Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014

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DisciplinaDireito Processual Penal I18.642 materiais138.158 seguidores
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o fato investigado e o fato encontrado fortuitamente só se coloca em se tratando de infração penal pretérita, porquanto, no que concerne às infrações futuras, o cerne da controvérsia se dará quanto à licitude ou não do meio de prova utilizado e a partir do qual se tomou conhecimento de tal conduta criminosa\u201d (STJ, HC 69552/PR, Rel. Min. Felix Fischer, DJ 14.05.2007, p. 347).
 Inexistência de limitação subjetiva para utilização de prova por interceptação telefônica. \u201cA autorização para interceptação telefônica abrange a participação de qualquer interlocutor nos fatos objeto da apuração, não havendo, portanto, limitação subjetiva quanto à utilização da prova obtida mediante tal procedimento. Os fundamentos elencados nesse precedente afastam a plausibilidade jurídica do pedido cautelar, não recomendando, assim, a concessão da cautela pretendida\u201d (STF, MS 24464/DF, Rel. Min. Ellen Gracie, j. 24.02.2003).
 8.8.6. Prova emprestada e compartilhamento da prova
 Prova emprestada consiste na existência de prova produzida em um processo e aproveitada em outro. Ela é expressamente prevista no art. 19, parágrafo único, da Lei 9.605/1998, com relação à prova de crimes ambientais, verbis:
 
 Art. 19. A perícia de constatação do dano ambiental, sempre que possível, fixará o montante do prejuízo causado para efeitos de prestação de fiança e cálculo de multa. Parágrafo único. A perícia produzida no inquérito civil ou no juízo cível poderá ser aproveitada no processo penal, instaurando-se o contraditório.
 
 Por aplicação analógica (art. 3.º, CPP), o entendimento é que a prova emprestada é lícita. A utilização de prova emprestada no âmbito do processo penal é permitida, desde que sobre ela (i) ambas as partes forem cientificadas, para que seja possível o exercício do contraditório e ainda (ii) tenha o processo em que ela será utilizada as mesmas partes daquele em que foi produzida. Assim, decidiu o Plenário do STF que \u201ca utilização de prova emprestada legalmente produzida em outro processo de natureza criminal não ofende os princípios constitucionais do processo\u201d (Inq. 2774/MG, Rel. Min. Gilmar Mendes, DJ 06.09.2011).
 Mesmo assim, o STF tem considerado que é legítima a prova emprestada mesmo contra quem não participou do processo no qual a prova foi produzida, desde que (i) a prova emprestada não seja feita em juízo e (ii) a veracidade não seja atacada. Foi o caso do laudo de materialidade do tóxico apreendido, cuja prova emprestada foi aceita pelo STF (RE 328.138/MS, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, j. 16.09.2003).
 Há, porém, precedentes mais antigos do STF que apontam para a necessidade de outras provas a sustentar o corpo probatório, além da prova emprestada. Nesse sentido, decidiu o STF que \u201cA prova emprestada, especialmente no processo penal condenatório, tem valor precário, quando produzida sem observância do princípio constitucional do contraditório. Embora admissível, é questionável a sua eficácia jurídica. Inocorre, contudo, cerceamento de defesa se, inobstante a existência de prova testemunhal emprestada, não foi ela a única a fundamentar a sentença de pronúncia\u201d (HC 67.707, Rel. Min. Celso de Mello, j. 07.11.1989, Primeira Turma, DJ 14.08.1992).
 Outro ponto importante é o uso de prova criminal em processos administrativos ou cíveis, em especial a prova oriunda de interceptação telefônica. O STF aceita o compartilhamento de prova criminal, inclusive para (i) Comissão Parlamentar de Inquérito; (ii) Conselho Nacional de Justiça; (iii) Comissão de Ética de Casa do Congresso Nacional; e até mesmo (iv) Comissão Administrativa Disciplinar, que devem assegurar a manutenção do sigilo transferido.
 Por exemplo, decidiu o STF que é possível utilizar dados obtidos em interceptação de comunicações telefônicas e em escutas ambientais, judicialmente autorizadas para produção de prova em investigação criminal ou em instrução processual penal até mesmo em procedimento administrativo disciplinar, contra a mesma ou as mesmas pessoas em relação às quais foram colhidos, ou contra outros servidores cujos supostos ilícitos teriam despontado à colheita dessa prova (Inq. 2.424-QO-QO, Rel. Min. Cezar Peluso, j. 20.06.2007, Plenário, DJ 24.08.2007).
 Em outro caso sobre compartilhamento de prova, decidiu o STF que \u201cA medida pleiteada pelo Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados se mostra adequada, necessária e proporcional ao cumprimento dos objetivos do § 2.º do art. 55 da Constituição Federal de 1988. 2. Possibilidade de compartilhamento dos dados obtidos mediante interceptação telefônica, judicialmente autorizada, para o fim de subsidiar apurações de cunho disciplinar\u201d (Inq. 2725 QO/SP, Rel. Min. Carlos Britto, j. 25.06.2008, grifo da autora).
 Prova emprestada não ofende princípios constitucionais do processo penal. \u201c1. A utilização de prova emprestada legalmente produzida em outro processo de natureza criminal não ofende os princípios constitucionais do processo. 2. O amplo acesso à totalidade dos áudios captados realiza o princípio da ampla defesa. De posse da totalidade das escutas, o investigado não possui direito subjetivo à transcrição, pela Justiça, de todas as conversas interceptadas. Não há ofensa ao princípio da ampla defesa\u201d (STF, Inq. 2774/MG, Rel. Min. Gilmar Mendes, DJ 06.09.2011).
 
 
 
 
 
 
 		
 Prova ilícita
 
 		
 Inadmissível
 
 
 
 		
 Prova ilícita pro reo
 
 		
 Admitida quando prova inocência do acusado
 
 
 
 		
 Prova ilícita por derivação (teoria dos frutos da árvore envenenada)
 
 		
 Inadmissível
 
 
 
 		
 Prova de fonte independente (teoria da descoberta inevitável)
 
 		
 Lícita e admitida
 
 
 
 		
 Prova emprestada
 
 		
 Lícita e admitida, desde que observados o contraditório e a identidade de partes
 
 
 
 		
 Compartilhamento de provas
 
 		
 Admitido
 
 
 
 8.9. Sistemas de apreciação da prova
 A doutrina aponta três tipos de sistemas pelos quais o juiz pode apreciar e valorar a prova, formando sua convicção sobre os fatos a ele trazidos para posterior julgamento.
 São eles: (i) sistema da íntima convicção ou da certeza moral do juiz; (ii) sistema legal, também chamado de verdade formal ou também sistema tarifado ou sistema da certeza moral do legislador; e (iii) o sistema da livre convicção motivada ou do livre convencimento fundamentado.
 
 8.9.1. Sistema da certeza moral do juiz ou íntima convicção
 O sistema da íntima convicção consiste no reconhecimento da liberdade plena do juiz na apreciação da prova. No Brasil, somente os jurados no procedimento do júri podem apreciar a prova e decidir com base nesse sistema.
 8.9.2. Sistema legal, da certeza moral do legislador, da verdade formal ou da prova tarifada
 O sistema legal ou da prova tarifada consiste no reconhecimento do poder do legislador em valorar as provas lei, avaliando previamente as que possuem maior ou menor peso. Cada prova tem um peso certo e constante, predeterminado pelo legislador, sendo vedado ao juiz decidir valorar as provas. A lei estabelece hierarquia entre as provas. Esse sistema não foi adotado no Brasil.
 8.9.3. Sistema do livre convencimento motivado ou persuasão racional
 O sistema da livre convicção consiste no reconhecimento do poder do juiz para decidir segundo seu convencimento, desde que fundamentadamente, para que haja, eventualmente, possibilidade de recurso.
 É o sistema adotado pelo CPP brasileiro, que em seu art. 155, caput, dispõe que \u201cO juiz formará sua convicção pela livre apreciação da