Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014

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DisciplinaDireito Processual Penal I18.660 materiais138.261 seguidores
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prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas\u201d.
 O art. 155, CPP, chega até a ser redundante, ao proibir o juiz de decidir com base nos elementos da investigação pré-processual, que, como vimos, não produz prova e sim elementos de convicção ao acusador (salvo as provas excepcionais).
 Assim, o juiz possui liberdade na valoração das provas, mas deve fundamentar seu convencimento, sob pena de nulidade, de acordo da regra constitucional prevista no art. 93, IX, CF (\u201ctodos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade...\u201d).
 Em síntese, o sistema da persuasão racional do juízo adotado no Brasil resulta em: (i) o juiz deve valorar as provas que forem produzidas no processo, sob o crivo do contraditório; (ii) nenhuma prova tem valor absoluto ou predeterminado pela lei; (iii) não pode decidir sobre os fatos com base em conhecimentos privados do juiz (\u201co que não está nos autos não está no mundo\u201d); e (iv) o convencimento judicial deve ser fundamentado.
 Como já visto, os jurados não precisam fundamentar seu convencimento, sendo exceção à regra do livre convencimento motivado.
 Necessidade de fundamentação objetiva no convencimento do juiz. \u201cÉ lícito ao juiz indeferir as provas consideradas desnecessárias ou inconvenientes. Todavia, uma vez adstrito ao princípio do livre convencimento motivado, o julgador deve fundamentar, de maneira objetiva, a decisão que indeferiu a produção da prova requerida\u201d (STF, HC 102.759, Rel. Min. Ellen Gracie, j. 29.03.2011, Segunda Turma, DJE 05.05.2011).
 Valoração das provas e sistema da persuasão racional. \u201cVige em nosso sistema o princípio do livre convencimento motivado ou da persuasão racional, segundo o qual compete ao juiz da causa valorar com ampla liberdade os elementos de prova constantes dos autos, desde que o faça motivadamente, com o que se permite a aferição dos parâmetros de legalidade e razoabilidade adotados nessa operação intelectual. Não vigora mais entre nós o sistema das provas tarifadas, segundo o qual o legislador estabelecia previamente o valor, a força probante de cada meio de prova. Tem-se, assim, que a confissão do réu, quando desarmônica com as demais provas do processo, deve ser valorada com reservas. Inteligência do art. 197 do Código de Processo Penal\u201d (STF, RHC 91.691, Rel. Min. Menezes Direito, j. 19.02.2008, Primeira Turma, DJE 25.04.2008).
 
 
 
 
 
 
 		
 Sistema da certeza moral do juiz ou da íntima convicção do juízo
 
 		
 Juiz aprecia a prova com ampla liberdade, não interessando critérios utilizados para decidir. Somente permitido para os jurados no procedimento do júri.
 
 
 
 		
 Sistema da certeza moral do legislador, da verdade formal ou da prova tarifada
 
 		
 Lei estabelece previamente as provas de maior ou menor valor; valores são certos e constantes e há hierarquia de provas.
 
 
 
 		
 Sistema do livre convencimento motivado ou da persuasão racional do juízo
 
 		
 Juiz é livre para decidir, mas deve fundamentar sua decisão. É o sistema adotado no Brasil.
 
 
 
 8.9.4. Interrogatório
 O interrogatório consiste no ato pelo qual o juiz procede à oitiva do réu sobre os fatos que lhe são imputados e demais circunstâncias que interessam ao processo penal.
 Na redação original do Código de Processo Penal, em 1941, o interrogatório constava do Título VII, como um dos meios de prova processuais penais. A partir da Lei 11.719/2008, que cuidou da modificação geral dos procedimentos, o interrogatório do acusado deixou de ser o primeiro ato da instrução criminal para ser o último ato (art. 400, CPP), tudo isso em uma instrução concentrada \u2013 em uma única audiência \u2013 para que o interrogatório não seja um ato isolado dos demais atos de instrução.
 A posição hoje majoritária é que o interrogatório configura-se verdadeiro meio de defesa do acusado. Por outro lado, ainda encontramos na doutrina e jurisprudência os que, embora não neguem a natureza jurídica de meio de defesa, atribuem ao interrogatório natureza mista, considerando-o tanto meio de prova como meio de defesa. Há decisões do STF em ambos os sentidos, e majoritariamente as mais atuais tendem a considerar o interrogatório meio de defesa (ver \u201cJurisprudência\u201d a seguir).
 O art. 185, CPP, estabelece o direito de o acusado ser qualificado e interrogado na presença de seu defensor (caput); expressamente prevê a garantia também ao réu preso (§ 1.o); e assegura ao réu preso que, antes do interrogatório, lhe seja reservada entrevista com seu defensor (§ 5.o).
 Assim, o interrogatório judicial realizado sem a presença do defensor gera nulidade absoluta. No caso do interrogatório policial, entende-se majoritariamente que não há necessidade da presença do defensor do investigado, salvo nos casos de prisão em flagrante, hipótese em que o direito é constitucionalmente assegurado (art. 5.º, LXIII \u2013 \u201co preso será informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer calado, sendo-lhe assegurada a assistência da família e de advogado\u201d).
 O art. 186, CPP, exige que o acusado seja qualificado, cientificado de todo o teor da acusação e informado, antes do início do interrogatório, do seu direito de permanecer calado e de não responder às perguntas formuladas. O parágrafo único é claro: o silêncio do réu não importará em confissão e não poderá ser interpretado em prejuízo da defesa.
 Ainda que eventualmente ostente valor probatório, o interrogatório é a oportunidade da defesa de apresentar sua versão dos fatos, sob seu juízo de oportunidade e conveniência: o réu não é obrigado a fazê-lo, podendo optar pela estratégia da passividade.
 Interrogatório judicial: meio de defesa. \u201cO interrogatório judicial como meio de defesa do réu. Em sede de persecução penal, o interrogatório judicial \u2013 notadamente após o advento da Lei n.º 10.792/2003 \u2013 qualifica-se como ato de defesa do réu, que, além de não ser obrigado a responder a qualquer indagação feita pelo magistrado processante, também não pode sofrer qualquer restrição em sua esfera jurídica em virtude do exercício, sempre legítimo, dessa especial prerrogativa. Doutrina. Precedentes. (...) Assiste, a cada um dos litisconsortes penais passivos, o direito \u2013 fundado em cláusulas constitucionais (CF, art. 5.º, incisos LIV e LV) \u2013 de formular reperguntas aos demais corréus, que, no entanto, não estão obrigados a respondê-las, em face da prerrogativa contra a autoincriminação, de que também são titulares. O desrespeito a essa franquia individual do réu, resultante da arbitrária recusa em lhe permitir a formulação de reperguntas, qualifica-se como causa geradora de nulidade processual absoluta, por implicar grave transgressão ao estatuto constitucional do direito de defesa. Doutrina. Precedente do STF\u201d (STF, HC 94.016, Rel. Min. Celso de Mello, j. 16.09.2008, Segunda Turma, DJE 27.02.2009). No mesmo sentido: HC 101.648, Rel. Min. Cármen Lúcia, j. 11.05.2010, Primeira Turma, DJE 09.02.2011; HC 95.225, Rel. Min. Eros Grau, j. 04.08.2009, Segunda Turma, DJE 23.10.2009. Vide: HC 90.830, Rel. Min. Cezar Peluso, j. 02.03.2010, Segunda Turma, DJE 23.04.2010.
 Interrogatório judicial: meio de defesa e meio de prova. \u201cNão se verificando a regular cientificação do acusado, com uso de todos os meios ao alcance do Juízo para que fosse localizado, negou-se-lhe o direito ao interrogatório, ato classificado pela melhor doutrina, ao mesmo tempo, como meio de prova e de defesa, e, em acréscimo, lhe foi retirada a prerrogativa de, livremente, escolher o advogado incumbido de sua defesa, elegendo, junto