Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014

Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014


DisciplinaDireito Processual Penal I18.752 materiais138.640 seguidores
Pré-visualização50 páginas
comete crime de falso testemunho caso negue ou cale a verdade em juízo (art. 342 do Código Penal). Nesse caso, o juiz encaminhará cópia do depoimento para o Ministério Público para que sejam tomadas as providências cabíveis.
 Assim, a testemunha não poderá eximir-se da obrigação de depor. Poderão, entretanto, recusar-se a fazê-lo o ascendente ou descendente, o afim em linha reta, o cônjuge, ainda que desquitado, o irmão e o pai, a mãe, ou o filho adotivo do acusado, salvo quando não for possível, por outro modo, obter-se ou integrar-se a prova do fato e de suas circunstâncias. Com isso, no processo penal, essas pessoas próximas do acusado devem depor quando não for possível, por outro modo, obter-se ou integrar-se a prova do fato e de suas circunstâncias.
 Não será, entretanto, tomado o compromisso de dizer a verdade a que alude o CPP (art. 203) aos (i) doentes e deficientes mentais e (ii) aos menores de 14 (quatorze) anos, nem às pessoas próximas do acusado supracitadas.
 Nos termos do art. 223, CPP, será nomeado intérprete para a testemunha que não conhecer a língua nacional, reportando-se a norma, quando a testemunha for deficiente auditivo, ao art. 192, já debatido aqui. O texto legal nada fala sobre deficientes visuais, mas entende-se que não há impeditivo para seu depoimento.
 Em geral, o depoimento da testemunha é prestado oralmente, com declaração, perante o juiz, dos fatos que presenciados. É vedado à testemunha levar seu depoimento por escrito (art. 204, CPP), excetuando-se a hipótese do art. 223, CPP, e no caso de depoimento de Presidente e Vice-Presidente da República, presidentes do Senado, da Câmara e do Supremo Tribunal Federal, que poderá ser escrito. A testemunha pode consultar apontamentos.
 As testemunhas devem ser ouvidas individualmente. O texto legal permite ao juiz, nos termos do art. 209 do CPP, ouvir a testemunha de ofício.
 O art. 207 do CPP ainda prevê que as pessoas que, em razão da função, ministério, ofício ou profissão, devam guardar segredo, são proibidas de depor. A proibição para depor refere-se unicamente aos fatos cujo conhecimento depende de seu exercício, como caso de profissionais ou religiosos que devam guardar sigilo em razão de suas atuações. Com relação a fatos cujo conhecimento não decorra das funções dessas pessoas, e que tenham presenciado pessoalmente, subsistirá o dever de depor. Ainda, se tais pessoas forem desobrigadas pela parte interessada e quiserem dar o testemunho, a proibição é afastada.
 No caso de a testemunha ser militar, não será intimada, mas requisitada a seu superior hierárquico.
 O Presidente da República, o Vice-Presidente, senadores, deputados federais, ministros de Estado, governadores, secretários de Estado, prefeitos, deputados estaduais, membros do Poder Judiciário, ministros do Tribunal de Contas da União e demais autoridades arroladas no art. 221 CPP serão inquiridos em local, dia e hora previamente ajustados. No caso do Presidente e do Vice-Presidente da República, presidentes do Senado, Câmara Federal e do Supremo Tribunal Federal, o depoimento poderá ser feito por escrito.
 O entendimento do STF é que o não atendimento ao chamado da justiça para prestar o testemunho por mais de trinta dias gera a perda da prerrogativa prevista no caput do art. 221, CPP (ver no tópico \u201cJurisprudência\u201d adiante).
 Após a qualificação da testemunha e antes de ela prestar compromisso, pode o advogado contraditá-la, por suspeita de parcialidade ou por ser indigna de fé (art. 214 CPP). A contradita deverá ser feita oralmente imediatamente antes de a testemunha se manifestar, tão logo seja qualificada \u2013 caso contrário, haverá preclusão da contradita.
 Serão aplicadas as regras do art. 254 (suspeição do juiz) à suspeição da testemunha.
 Por outro lado, há o dever de colaborar com a Justiça. Assim, a testemunha for intimada e não comparecer à audiência sem qualquer motivo justo, o juiz requisitará à autoridade policial a sua condução coercitiva \u2013 condução com auxílio de força pública, se necessário (art. 218, CPP). A condução coercitiva decorre do dever de colaborar com a Justiça e depor.
 Caso alguma testemunha resida fora da jurisdição onde está tramitando o processo, será ouvida por carta precatória (art. 222 do CPP). A instrução criminal não será suspensa pela expedição da precatória. Há possibilidade também de oitiva da testemunha por videoconferência (art. 222, § 3.º).
 O art. 222-A, CPP, determina que as cartas rogatórias (instrumento de cooperação jurídica internacional em matéria penal)4 só serão expedidas se demonstrada previamente a sua imprescindibilidade, arcando a parte requerente com as custas do envio. Trata-se de dispositivo que buscou reprimir, principalmente, o manejo de provas requeridas no exterior apenas para o prolongamento da tramitação do feito, como estratégia defensiva meramente procrastinatória visando à prescrição.
 A lei faculta ao juiz antecipar providência acautelatória de oitiva de testemunha, de ofício ou a requerimento da parte, nos casos de enfermidade ou de velhice, quando perceba que ao tempo da instrução essa testemunha poderá não mais existir (art. 225, CPP).
 Finalmente, o art. 9.º da Lei 9.807/1999 prevê ainda que \u201cem casos excepcionais e considerando as características e gravidade da coação ou ameaça, poderá o conselho deliberativo encaminhar requerimento da pessoa protegida ao juiz competente para registros públicos objetivando a alteração de nome completo\u201d. Ou seja: a identidade original da testemunha protegida não é tirada dos autos, mas determina-se que a nova identidade não seja revelada.
 Na época da promulgação da lei, discutiu-se se a hipótese seria de acolhimento pela legislação brasileira do testemunho anônimo. Diferentemente do testemunho oculto, em que a testemunha tem a identidade conhecida, mas, para não sofrer intimidações por parte do réu, presta seu depoimento fora da vista dele (previsto no art. 217, CPP), no testemunho anônimo a defesa não tem acesso a nome e dados de qualificação da testemunha \u2013 não sendo possível contraditá-la, por exemplo, o que implicaria em ofensa à garantia do contraditório e direito de defesa.
 Na hipótese do art. 9.º da Lei 9.807/1999, contudo, como a identidade original da testemunha permanece nos autos, há possibilidade de a defesa contraditá-la, levantar seu histórico e exercer o contraditório, não sendo caso, portanto, de testemunho anônimo.
 Prova testemunhal pode suprir auto de corpo de delito. \u201cA jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é firme no sentido de que, nos delitos materiais, de conduta e resultado, desde que desaparecidos os vestígios, a prova testemunhal pode suprir o auto de corpo de delito\u201d (STF, HC 103.683, Rel. Min. Cármen Lúcia, j. 09.11.2010, Primeira Turma, DJE 25.11.2010).
 Perda da prerrogativa do art. 221 CPP em relação ao parlamentar arrolado como testemunha que, sem justa causa, não compareceu ao dia, hora e local por ele indicados. \u201cPassados mais de trinta dias sem que a autoridade que goza da prerrogativa prevista no caput do art. 221 do Código de Processo Penal tenha indicado dia, hora e local para a sua inquirição ou, simplesmente, não tenha comparecido na data, hora e local por ela mesma indicados, como se dá na hipótese, impõe-se a perda dessa especial prerrogativa, sob pena de admitir-se que a autoridade arrolada como testemunha possa, na prática, frustrar a sua oitiva, indefinidamente e sem justa causa. Questão de ordem resolvida no sentido de declarar a perda da prerrogativa prevista no caput do art. 221 do Código de Processo Penal, em relação ao parlamentar arrolado como testemunha que, sem justa causa, não atendeu ao chamado da justiça, por mais de trinta dias\u201d (STF, AP 421/SP, Rel. Min. Joaquim Barbosa, DJE 04.02.2011).
 8.9.7.1. Formulação de perguntas às testemunhas pelas partes \u2013 cross examination
 A Lei 11.690/2008 deu nova redação ao art. 212,