Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014

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DisciplinaDireito Processual Penal I18.660 materiais138.261 seguidores
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do ofendido ou ainda do interrogatório do acusado. Os acareados serão reperguntados, para que expliquem os pontos de divergências, reduzindo-se a termo o ato de acareação. Assim, o momento adequado para efetuar a acareação é após a colheita de todos os depoimentos orais.
 O art. 400 do CPP dispõe sobre a ordem dos atos processuais na audiência una de instrução e julgamento no procedimento comum ordinário. Após ser ouvida, a testemunha não pode ir embora, pois há a possibilidade de as partes pedirem uma acareação, procedimento previsto no art. 229, CPP.
 De acordo com o art. 229, CPP, a acareação será admitida entre (i) acusados, entre (ii) acusado e testemunha, entre (iii) testemunhas, (iv) entre acusado ou testemunha e a pessoa ofendida, e (v) entre as pessoas ofendidas, sobre os pontos que divergiram.
 O réu, mesmo na acareação, continua, todavia, com o direito constitucional ao silêncio. Assim, é possível defender que a participação do réu na acareação não foi recepcionada pela Constituição, pois não teria o dever de depor e sua participação não voluntária nesse ato seria um constrangimento desnecessário.
 Momento da acareação é após colheita de toda prova oral. \u201cO momento oportuno para acareação se dá depois da colheita de toda a prova oral. No caso concreto, constata-se ausente qualquer contradição entre os depoimentos apontados pela defesa do réu (...), razão pela qual se indefere o pedido (...). Não é necessário o julgamento dos embargos de declaração para dar início à instrução do processo ou à oitiva das testemunhas arroladas pelas partes, dada a ausência de efeito suspensivo do recurso em questão\u201d (STF, AP 470-QO5, Rel. Min. Joaquim Barbosa, j. 08.04.2010, Plenário, DJE 03.09.2010).
 8.9.9. Prova documental
 Conforme definido no art. 232, CPP, consideram-se documentos quaisquer escritos, instrumentos ou papéis, públicos ou particulares. Documento é todo instrumento que expresse a existência de um fato ou acontecimento juridicamente relevante. São documentos os escritos, grafias, símbolos, papéis, gravuras, fotos, fitas de vídeo e som, codificações digitais de imagens em movimento e áudio etc.
 Os documentos podem ser públicos ou particulares; originais ou cópias. Nos termos do parágrafo único do art. 232, a fotocópia do documento, devidamente autenticada, vale como o documento original.
 O art. 231 prescreve que, em regra, as provas documentais podem ser trazidas a qualquer tempo, respeitados o contraditório e a ampla defesa. Excepcionalmente, no procedimento do júri, não é admitido que a parte apresente documento no plenário pelo menos até três dias antes do julgamento.
 As provas documentais também poderão ser colhidas através de mandado de busca e apreensão, proferido pelo juiz.
 O art. 233 do CPP explicita uma das possibilidades de exclusão de prova ilícita, já abordadas no art. 157, CPP, dispondo sobre o sigilo de correspondência, que deverá ser preservado, ressalvado o direito de defesa do destinatário, que pode juntar a carta como prova mesmo sem o consentimento do signatário.
 Todo documento em língua estrangeira, caso seja necessário, será traduzido por tradutor público, ou, na falta, por pessoa idônea nomeada pela autoridade.
 Os documentos originais juntados a processos já findos poderão ser devolvidos à parte que os produziu, sob as condições do art. 238, CPP.
 Quando contestada a veracidade do documento, utiliza-se o procedimento específico e com autuação em apartado prevista no art. 145 e seguintes do CPP, o Incidente de falsidade. A falsidade pode ser tanto material \u2013 que consiste na alteração do aspecto físico do documento \u2013 como ideológica, que consiste na alteração no conteúdo do documento.
 8.9.10. Indícios
 Para o CPP, indício é a circunstância conhecida e provada que, tendo relação com o fato, autorize, por indução, conclusão sobre a existência de outra ou outras circunstâncias (art. 239, CPP).
 O indício, portanto, revela o conhecimento de fato desconhecido e a ele vinculado por dedução lógica. É meio de prova do processo penal obtido por meio de atividade intelectual, não materializado nos autos como os demais meios de prova.
 Para que o indício tenha valor jurídico deve obedecer aos seguintes requisitos: a) deve estar provado e certo; b) deve possuir nexo causal com a circunstância e provar por indução; e c) deve estar em harmonia com as demais provas.
 Exemplo clássico de utilização de indícios como meio de prova processual penal na esfera federal constitui utilizar passagens aéreas e reservas como indícios da internacionalidade do crime de tráfico, cuja competência para processar e julgar é da Justiça Federal.
 Indícios como meio de prova da internacionalidade do delito. \u201cOs autos revelam a presença de fortes indícios quanto à destinação do entorpecente apreendido em poder do paciente. Isso porque as \u2018circunstâncias da abordagem do acusado, o bilhete de passagem aérea emitido em nome de (...), com destino a Lima, no Peru, encontrado em sua mala, juntamente com o entorpecente, bem com as declarações por ele prestadas, no sentido de que estivera recentemente no exterior e que novamente iria viajar para o estrangeiro, constituem indícios da internacionalidade do delito de tráfico de entorpecentes, a fixar a competência da Justiça Federal para processar e julgar o feito (CR, art. 109, V)\u201d (STF, HC 102.497, Rel. Min. Ayres Britto, j. 10.08.2010, Primeira Turma, DJE 10.09.2010).
 8.9.11. Exame corpo de delito e prova pericial
 O art. 158, CPP, determina que, caso a infração deixe vestígios, é indispensável o exame corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado.
 Corpo de delito consiste no conjunto de vestígios deixados pela infração penal. Já o exame de corpo de delito consiste na avaliação que comprova tais vestígios. Por isso, é possível diferenciar o exame de corpo de delito (i) direto do (ii) indireto. O exame de corpo de delito direto é aquele no qual o vestígio é examinado diretamente pelo próprio avaliador (perito). Já o exame de corpo de delito indireto consiste, na impossibilidade de realização do exame de corpo de delito direto (ocultação do cadáver, no crime de homicídio, por exemplo), no uso de prova testemunhal ou documental para avaliação e comprovação do delito (art. 167, CPP).
 Duas correntes existem quanto à forma do exame de corpo de delito indireto. Para a corrente majoritária, não é necessário um laudo, pois o exame é feito pelo juiz ao analisar a prova testemunhal ou documental sobre a materialidade do delito. Já para a segunda corrente, deve existir laudo com a manifestação do perito sobre a prova testemunhal ou documental que substituem o exame de corpo de delito direto.
 O corpo de delito retrata a materialidade do delito. Já o exame de corpo de delito deve ser realizado por perito, que emitirá laudo contendo suas descrições e conclusões. O processo penal, então, não dispensa o conhecimento técnico-especializado para dirimir dúvidas sobre a materialidade e autoria da infração penal.
 O perito é aquele que, possuindo formação especializada, aporta seus conhecimentos ao processo penal, fornecendo subsídios para o livre convencimento fundamentado do juiz. Há duas espécies: o perito oficial e o perito não oficial.
 O perito oficial é aquele que, portador de título de curso superior, foi investido em função pública habilitada a realizar perícias. O art. 159, CPP, determina que o exame de corpo de delito e outras perícias sejam realizados por perito oficial.
 Perito não oficial é aquele que, portador de título de curso superior, é nomeado pelo juízo criminal para realizar perícia especificada na própria ordem de designação. O § 1.º do art. 159 determina que, na falta de perito oficial, o exame será realizado por duas pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso superior preferencialmente na área específica,