Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014

Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014


DisciplinaDireito Processual Penal I18.764 materiais138.735 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Federal estabeleceu as únicas hipóteses em que a busca domiciliar pode ocorrer sem autorização judicial. Como já visto, a CF/1988 permite a entrada em determinado domicílio com o consentimento do morador, mas tal consentimento não é concebível para fins de busca e apreensão, especialmente para colheita de prova na esfera penal (ver adiante acórdão do STJ, RHC 18204/RS, Rel. Min. Nilson Naves).
 a) Caso de flagrante delito \u2013 cabe prisão em flagrante, a qualquer momento, superando a inviolabilidade domiciliar e \u201cprescindindo de mandado judicial, qualquer que seja sua natureza\u201d (STF, RHC 91.189, Rel. Min. Cezar Peluso, j. 09.03.2010, Segunda Turma, DJE 23.04.2010). Nos casos de crimes permanentes o flagrante projeta-se no tempo. Assim, cabe busca domiciliar sem mandado judicial enquanto a infração está sendo consumada, como ocorre, por exemplo, com o crime de tráfico de drogas.
 b) Caso de desastre ou para prestar socorro \u2013 cabe busca domiciliar sem autorização judicial, justificada para tornar possível a atuação eficiente dos órgãos públicos em casos emergenciais como incêndios ou enchentes (procurando material combustível, material perigoso etc.).
 8.9.12.2.4. Busca domiciliar com autorização judicial
 A busca domiciliar realizada por ordem judicial deverá, nos termos dos arts. 240 a 250 do CPP, ser realizada sempre durante o dia, com a apresentação do respectivo mandado, podendo ser executada pela noite com o consentimento do morador (art. 245, CPP).
 A expressa constitucional \u201cdurante o dia\u201d é definida, de acordo com a jurisprudência dominante, pelo critério físico-astronômico, que abarca o lapso temporal entre a aurora e o crepúsculo (em geral, das 6 horas às 18 horas, podendo ser alargado no caso do horário de verão).6
 O art. 245 do CPP determina o modus pelo qual a busca domiciliar será realizada: \u201cserão executadas de dia, salvo se o morador consentir que se realizem à noite, e, antes de penetrarem na casa, os executores mostrarão e lerão o mandado ao morador, ou a quem o represente, intimando-o, em seguida, a abrir a porta\u201d.
 Ressalvadas as exceções trazidas pelo o art. 5.º, XI, da CF/1988, qualquer busca domiciliar realizada sem autorização judicial configura crime de abuso de autoridade (art. 3.º, \u201cb\u201d, da Lei 4.898/1965), e os bens apreendidos nessa diligência serão considerados provas ilícitas.
 No caso de busca e apreensão em escritório de advocacia, a diligência deve ser acompanhada por representante da Ordem dos Advogados do Brasil (art. 7.º, §§ 5.º e 6.º, da Lei 8.906/1994 \u2013 Estatuto da OAB). De acordo com entendimento do STF, o \u201csigilo profissional constitucionalmente determinado não exclui a possibilidade de cumprimento de mandado de busca e apreensão em escritório de advocacia\u201d, que pode ser alvo de busca e apreensão desde que o advogado seja também investigado.
 O art. 243 do CPP determina os seguintes requisitos do mandado de busca e apreensão:
 a)   indicação a mais precisa possível da casa onde será realizada a diligência;
 b)   o nome do morador/proprietário;
 c)   nome da pessoa que sofrerá também busca pessoal;
 d)   o motivo e a finalidade da busca e apreensão.
  
 A autorização judicial de busca e apreensão deve ser a mais precisa possível, a depender da natureza dos fatos investigados. Assim, compreende-se que o juiz não necessita determinar previamente e com precisão todos os elementos que farão parte da apreensão. Por isso, é adequado o uso da expressão genérica \u201capreensão de quaisquer elementos de prova a serem identificados\u201d para a averiguação dos fatos delituosos.
 Conceito de casa abrange área não acessível ao público dos escritórios profissionais. \u201cPara os fins da proteção jurídica a que se refere o art. 5.º, XI, da Constituição da República, o conceito normativo de \u2018casa\u2019 revela-se abrangente e, por estender-se a qualquer compartimento privado não aberto ao público, onde alguém exerce profissão ou atividade (CP, art. 150, § 4.º, III), compreende, observada essa específica limitação espacial (área interna não acessível ao público), os escritórios profissionais, inclusive os de contabilidade, \u2018embora sem conexão com a casa de moradia propriamente dita\u2019 (Nelson Hungria). Doutrina. Precedentes. \u2013 Sem que ocorra qualquer das situações excepcionais taxativamente previstas no texto constitucional (art. 5.º, XI), nenhum agente público, ainda que vinculado à administração tributária do Estado, poderá, contra a vontade de quem de direito (invito domino), ingressar, durante o dia, sem mandado judicial, em espaço privado não aberto ao público, onde alguém exerce sua atividade profissional, sob pena de a prova resultante da diligência de busca e apreensão assim executada reputar-se inadmissível, porque impregnada de ilicitude material. Doutrina. Precedentes específicos, em tema de fiscalização tributária, a propósito de escritórios de contabilidade (STF). O atributo da autoexecutoriedade dos atos administrativos, que traduz expressão concretizadora do privilège du préalable, não prevalece sobre a garantia constitucional da inviolabilidade domiciliar, ainda que se cuide de atividade exercida pelo Poder Público em sede de fiscalização tributária\u201d (STF, HC 82788/RJ Rel. Min. Celso de Mello, j. 12.04.2005).
 Possibilidade de busca e apreensão em escritório de advocacia quando advogado é investigado. \u201cO sigilo profissional constitucionalmente determinado não exclui a possibilidade de cumprimento de mandado de busca e apreensão em escritório de advocacia. O local de trabalho do advogado, desde que este seja investigado, pode ser alvo de busca e apreensão, observando-se os limites impostos pela autoridade judicial. Tratando-se de local onde existem documentos que dizem respeito a outros sujeitos não investigados, é indispensável a especificação do âmbito de abrangência da medida, que não poderá ser executada sobre a esfera de direitos de não investigados. Equívoco quanto à indicação do escritório profissional do paciente, como seu endereço residencial, deve ser prontamente comunicado ao magistrado para adequação da ordem em relação às cautelas necessárias, sob pena de tornar nulas as provas oriundas da medida e todas as outras exclusivamente delas decorrentes. Ordem concedida para declarar a nulidade das provas oriundas da busca e apreensão no escritório de advocacia do paciente, devendo o material colhido ser desentranhado dos autos do Inq. 544 em curso no STJ e devolvido ao paciente, sem que tais provas, bem assim quaisquer das informações oriundas da execução da medida, possam ser usadas em relação ao paciente ou a qualquer outro investigado, nesta ou em outra investigação\u201d (STF, HC 91.610, Rel. Min. Gilmar Mendes, j. 08.06.2010, Segunda Turma, DJE 22.10.2010).
 Necessidade de mandado judicial para busca em estabelecimento comercial. \u201cA busca domiciliar \u2013 também em estabelecimento comercial \u2013 pressupõe a expedição de mandado judicial. No caso, a busca e apreensão, em razão da ausência de ordem judicial autorizadora, violou normas de natureza constitucional (art. 5.º, XI e LVI) e de ordem processual penal (arts. 240 e 241), ainda que tenha contado com o consentimento da recorrente\u201d (STJ, RHC 18204/RS, Rel. Min. Nilson Naves, DJe 16.02.2009).
 Inconstitucionalidade de busca e apreensão efetuada pessoalmente pelo juízo. \u201cLei 9.034/1995. Superveniência da Lei Complementar 105/2001. Revogação da disciplina contida na legislação antecedente em relação aos sigilos bancário e financeiro na apuração das ações praticadas por organizações criminosas. (...) Busca e apreensão de documentos relacionados ao pedido de quebra de sigilo realizadas pessoalmente pelo magistrado. Comprometimento do princípio da imparcialidade e consequente violação ao devido processo legal. Funções de investigador e inquisidor. Atribuições conferidas ao Ministério Público e às Polícias Federal e Civil (CF, artigos 129, I e VIII e § 2.º, e 144, § 1.º, I e IV, e § 4.º).