Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014

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DisciplinaDireito Processual Penal I18.750 materiais138.628 seguidores
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como veremos no capítulo próprio).
 Por determinação tanto constitucional quanto legal, alguns órgãos são destinados à investigação criminal, que são os órgãos policiais. Esses órgãos realizam a investigação sobre fatos pretensamente criminosos tendo como objetivo reunir elementos que permitam ao Ministério Público (ou, excepcionalmente, outro eventual legitimado) formar sua opinio delicti.
 Embora a condução da investigação criminal esteja designada preferencialmente à autoridade policial, não apenas ela promove atividade investigativa no sistema brasileiro. A investigação criminal também pode ser feita por outros órgãos, que não têm como foco principal a apuração criminal dos fatos investigados, mas o conhecimento dos fatos para outros fins. É o caso das investigações conduzidas pela Fazenda Pública estadual e federal, órgãos financeiros, ambientais, comissões parlamentares de inquérito (que atuam na fiscalização de fato determinado, nem sempre de repercussão penal, mas que pode ter tal reflexo), entre outros.
 Cabe lembrar que, de acordo com entendimento atual do Supremo Tribunal Federal, nos crimes contra a ordem tributária previstos no art. 1.º da Lei 8.137/1990, deve-se aguardar o esgotamento do procedimento na via administrativa (\u201ctrânsito em julgado\u201d para a Administração), para que se possa instaurar inquérito policial ou ação penal sobre os fatos. Há condição objetiva de procedibilidade específica dos crimes tributários (ver capítulo próprio, adiante).
 Discute-se se o Ministério Público, destinatário da investigação criminal, pode adotar procedimentos administrativos investigatórios para formação, sem dependência de terceiros, de sua opinio delicti.
 A polêmica pode ser resumida aos seguintes argumentos:
 (i) Quanto à lei regulamentadora da atividade de investigação criminal pelo Ministério Público.
 \u2022Contrários ao poder de investigação do MP \u2013 argumentase que, como não há previsão legal de ritos administrativos próprios à atividade de investigação do Parquet, nos mesmos moldes do previsto para o inquérito policial, tal atividade lhe seria vedada até que lei regulamentadora fosse aprovada.
 \u2022A favor do poder de investigação do MP \u2013 argumenta-se que o texto constitucional outorga ao Ministério poder para instruir procedimentos administrativos de sua competência, conforme previsto em lei complementar (art. 129, VI, CF). A Lei Complementar 75/1993, que trata do estatuto do Ministério Público da União, prevê, no art. 8.º, inciso V, que ao MP incumbe à realização de inspeções e diligências investigatórias. Além disso, há regulamentação do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP, ver a seguir), bem como a possibilidade de acesso ao Poder Judiciário para combater abusos.
 
 (ii) Quanto à exclusividade da Polícia para investigar delitos.
 \u2022Contrários ao poder de investigação do MP \u2013 argumenta-se que o art. 144 da CF, ao dispor sobre as polícias, impede, a contrario sensu, que outros órgãos investiguem crimes.
 \u2022A favor do poder de investigação do MP \u2013 argumentam que o art. 144 deve ser interpretado apenas para determinar que, nos inquéritos policiais, cabe às polícias presidir às investigações. Por sua vez, argumentam que (i) o art. 129, I, da CF/1988, ao dispor da titularidade exclusiva do MP da ação penal pública; e ainda (ii) o art. 129, VII, que trata do controle externo da atividade policial pelo MP, geram o poder implícito de investigar para subsidiar uma ação penal pública adequada. A teoria dos poderes implícitos ao MP já foi adotada no STF e determina que, \u201cquando a CF/1988 concede os fins, dá os meios. Se a atividade fim \u2013 promoção da ação penal pública \u2013 foi outorgada ao Parquet em foro de privatividade, não se concebe como não lhe oportunizar a colheita de prova para tanto, já que o CPP autoriza que \u2018peças de informação\u2019 embasem a denúncia\u201d (HC 91.661, Rel. Min. Ellen Gracie, j. 10.03.2009, Segunda Turma, DJE 03.04.2009). Nessa linha, o Min. Celso de Mello decidiu que \u201cA cláusula de exclusividade inscrita no art. 144, § 1.º, inciso IV, da Constituição da República \u2013 que não inibe a atividade de investigação criminal do Ministério Público \u2013 tem por única finalidade conferir à Polícia Federal, entre os diversos organismos policiais que compõem o aparato repressivo da União Federal (polícia federal, polícia rodoviária federal e polícia ferroviária federal), primazia investigatória na apuração dos crimes previstos no próprio texto da Lei Fundamental ou, ainda, em tratados ou convenções internacionais. \u2013 Incumbe, à Polícia Civil dos Estados-membros e do Distrito Federal, ressalvada a competência da União Federal e excetuada a apuração dos crimes militares, a função de proceder à investigação dos ilícitos penais (crimes e contravenções), sem prejuízo do poder investigatório de que dispõe, como atividade subsidiária, o Ministério Público\u201d (HC 89.837/DF, Min. Celso de Mello, j. 20.10.2009, grifos da autora).
 
 (iii) Quanto à imparcialidade do Ministério Público e ofensa aos direitos da Defesa.
 \u2022Contrários ao poder de investigação do MP \u2013 argumenta-se que a investigação pela Polícia é equidistante das partes no processo penal subsequente. Caso o MP investigue, seriam escolhidas as provas somente favoráveis às teses da acusação.
 \u2022A favor do poder de investigação do MP \u2013 argumenta-se que a investigação criminal não coleta provas, mas, sim, visa convencer o MP, titular da ação penal pública, para que este, em momento posterior, possa denunciar e, então, provar, em um processo penal marcado pelo contraditório e ampla defesa. Assim, como o inquérito policial já é dirigido ao MP e ainda este pode até dispensá-lo, nada impede que o próprio MP faça também suas diligências investigatórias. A Lei 11.690/2008, que alterou o CPP, sedimentou essa posição, ao estabelecer que o \u201cO juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas\u201d (art. 155 do CPP). Assim, o inquérito policial traz elementos informativos ao MP, não coligindo \u201cprovas\u201d. O STF já decidiu que \u201cO inquérito policial, que constitui instrumento de investigação penal, qualifica-se como procedimento administrativo destinado a subsidiar a atuação persecutória do Ministério Público, que é \u2013 na qualidade de dominus litis \u2013 o verdadeiro destinatário das diligências executadas pela Polícia Judiciária\u201d (STF, HC 73.271/SP, Rel. Celso de Mello). Ademais, o controle da investigação criminal pelo MP continua a ser exercido pelo Judiciário, que pode ser provocado a qualquer momento.
 
 A polêmica sobre o poder de investigação do MP ainda não se resolveu junto ao Supremo Tribunal Federal. Podemos afirmar contudo que, embora o Plenário ainda não tenha se pronunciado a respeito do tema, a maioria dos Ministros mostra-se favorável ao reconhecimento dos poderes de investigação do Ministério Público, com divisões sutis.
 Para alguns Ministros, como o Ministro Carlos Ayres (ex-Presidente do STF, hoje aposentado) o poder de investigação do MP é amplo, decorrência direta de sua estatura constitucional ou dos poderes implícitos a sua titularidade privativa da ação penal pública e do seu controle externo da atividade da polícia. Para outros Ministros, como o decano Min. Celso de Mello e o Min. Gilmar Mendes, a atuação do MP na investigação é subsidiária e somente cabível nos casos nos quais a investigação policial não seria suficiente. Para o Min. Celso de Mello, por exemplo, cabe investigação criminal do MP nas situações de lesão ao patrimônio público, bem como nos excessos cometidos pelos próprios agentes e organismos policiais, como tortura, abuso de poder, violências arbitrárias, concussão ou corrupção, ou ainda nos casos em que se verificar uma intencional omissão da polícia ou deliberado intuito corporativo