Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014

Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014


DisciplinaDireito Processual Penal I18.642 materiais138.158 seguidores
Pré-visualização50 páginas
do delegado de polícia (também parte do Poder Executivo) e os poderes de investigação de outros órgãos, pois \u201ca referência ao convencimento técnico-jurídico poderia sugerir um conflito com as atribuições investigativas de outras instituições, previstas na Constituição Federal e no Código de Processo Penal. Dessa forma, é preciso buscar uma solução redacional que assegure as prerrogativas funcionais dos delegados de polícia e a convivência harmoniosa entre as instituições responsáveis pela persecução penal\u201d (mensagem do veto, grifo da autora).
 Ficou estabelecido que, durante a investigação criminal, cabe ao delegado de polícia a requisição de perícia, informações, documentos e dados que interessem à apuração dos fatos. Assim, ficou imposto de vez por lei o poder de requisição do delegado de polícia, em linha com seu poder de investigação criminal. Nesse sentido, também deve ser mencionado o disposto na Lei 12.850/2013 (nova Lei sobre Organização Criminosa), que determina que o delegado de polícia e o Ministério Público terão acesso, independentemente de autorização judicial, apenas aos dados cadastrais do investigado que informem exclusivamente a qualificação pessoal, a filiação e o endereço mantidos pela Justiça Eleitoral, empresas telefônicas, instituições financeiras, provedores de internet e administradoras de cartão de crédito (art. 15). Também dispõe a mesma lei que as empresas de transporte possibilitarão, pelo prazo de cinco anos, acesso direto e permanente do juiz, do Ministério Público ou do delegado de polícia aos bancos de dados de reservas e registro de viagens.
 Esses novos dispositivos visam dar um mínimo de eficiência à investigação criminal, fazendo adequada ponderação entre os direitos dos terceiros prejudicados pelo crime (por exemplo, a vítima de um estelionato, que depende da eficiência da investigação criminal para reaver seus bens \u2013 direito de propriedade violado) e o direito à intimidade.
 Quanto à avocação ou redistribuição do inquérito policial, ficou determinado que tal medida deve ser feita mediante despacho fundamentado, por: (i) motivo de interesse público; ou nas (ii) hipóteses de inobservância dos procedimentos previstos em regulamento da corporação que prejudique a eficácia da investigação. Por sua vez, a remoção do delegado de polícia pode ser feita, mas exige-se ato fundamentado.
 Inovação importante da lei diz respeito ao indiciamento, que é tido como ato privativo do delegado de polícia, devendo ser feito de modo fundamentado, mediante análise técnico-jurídica, indicando: (i) a autoria; (ii) materialidade; e as (iii) circunstâncias do fato criminoso.
 Ainda em 2013, o STF, já na vigência da Lei 12.830, decidiu que o magistrado não pode ordenar à autoridade policial que indicie indivíduo já denunciado, por violação do princípio acusatório do processo penal. Para o Min. Teori Zavascki, \u201cnão parece razoável o magistrado, após receber a denúncia, requisitar ao delegado de polícia o indiciamento formal de determinada pessoa. A rigor, requisição dessa natureza é incompatível com o sistema acusatório. Este, contemplado em nosso ordenamento jurídico, impõe a separação orgânica das funções concernentes à persecução penal, de modo a impedir que o juiz adote qualquer postura tipicamente inerente à função investigatória\u201d (STF, HC 115.015, Rel. Teori Zavascki, 2.ª Turma, j. 27.08.2013).
 Outra alteração da lei foi no tocante ao protocolo. Ficou determinado que o cargo de delegado de polícia deve ser privativo de bacharel em Direito, devendo-lhe ser dispensado o mesmo tratamento protocolar que recebem os magistrados, os membros da Defensoria Pública e do Ministério Público e os advogados.
 \u201c(...) A decisão de recebimento da denúncia faz com que o então suspeito deixe de ser objeto das investigações e passe a figurar como réu na ação penal, o que demonstra a incompatibilidade entre o ato de recebimento da denúncia, que já pressupõe a existência de indícios mínimos de autoria, e a posterior determinação de indiciamento, ato que atribui a alguém no curso do inquérito a suposta autoria delitiva e que visa a subsidiar o oferecimento da peça acusatória\u201d (STF, HC 115.015, Rel. Teori Zavascki, 2.ª Turma, j. 27.08.2013).
 Preste atenção
 
 
 
 
 
 
 		
 Características do inquérito policial federal
 
 
 
 		
 Investigação Criminal
 
 
 
 		
 Conceito
 
 		
 Atividade pré-processual de produção e coleta de elementos para formar ao autor da ação penal a convicção acerca da materialidade e da autoria de um fato criminoso (opinio delicti). Possui natureza administrativa.
 
 
 
 		
 Inquérito Policial
 
 
 
 		
 Características apontadas pela doutrina
 
 		
 \u2022 Inquérito escrito (art. 9.º, CPP);
 \u2022 \u201cInquisitividade\u201d do inquérito: atividades persecutórias; concentram-se nas mãos de uma única autoridade, que pode e deve agir de ofício \u2013 autoridade policial não é imparcial nem pode formar juízo de convicção;
 \u2022 Dispensabilidade do inquérito (arts. 28, 39, § 5.º, e 46, § 1.º, do CPP);
 \u2022 Obrigatoriedade: dever indeclinável da autoridade policial para instaurar o inquérito policial e apurar as infrações, desde que preenchidos os requisitos legais;
 \u2022 Indisponibilidade: não cabe à autoridade policial formular juízo sobre a propositura ou não da ação penal;
 \u2022 Discricionariedade da autoridade policial: liberdade na prática de atos administrativos segundo os critérios de conveniência, oportunidade e justiça;
 \u2022 Incomunicabilidade: é vedada em nosso ordenamento jurídico. O art. 21, CPP, não foi recepcionado pela CF, a teor do disposto em seus arts. 5.º, LXIII, e 136, § 3.º, IV.
 \u2022 Oficialidade: autoridade tem o poderdever de atuar sempre que estiver em pauta o interesse público, impulsionando as investigações até a conclusão do inquérito;
 \u2022 Sigilo do inquérito: art. 20, CPP. Vedado \u2013 Súmula Vinculante 14, STF.
 
 
 
 3.3. Procedimento do inquérito
 3.3.1. O trâmite direto
 O inquérito policial é presidido pela autoridade policial \u2013 delegados da Polícia Federal ou delegados da Polícia dos Estados.
 Como já visto supra, a instauração do inquérito policial, no caso de ação penal pública incondicionada (art. 5.º, I e II, §§ 1.º, 2.º e 3.º, CPP), se dá de ofício, por prisão em flagrante, por requerimento da vítima ou por requisição do Ministério Público ou da autoridade judiciária. A requisição para instauração de inquérito não comporta recusa; é uma determinação a ser cumprida.
 Parte da doutrina entende que, no sistema acusatório acolhido pela Constituição Federal, a requisição por autoridade judiciária não foi recepcionada pela Constituição porque implica manifestação de atividade investigatória pelo juiz. Na esfera federal, a manutenção \u2013 ou não \u2013 de requisições de abertura de inquérito policial realizadas pelo Juízo Federal depende somente da convicção do Ministério Público Federal. Caso o membro do MPF adote a tese da não recepção, basta que promova o arquivamento do inquérito inadequadamente requisitado. Por sua vez, o Juízo Federal pode aplicar (o que provavelmente o fará) o art. 28 do CPP1 e provocar a 2.ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF para que se pronuncie sobre a promoção de arquivamento. Então, novamente o próprio MPF será aquele que decidirá sobre a não recepção do citado dispositivo do CPP.
 O inquérito em casos de ação penal pública condicionada pode ser instaurado (art. 5.º, § 4.º, CPP) mediante representação do ofendido (manifestação da vontade da vítima ou de seu representante que autoriza o Estado a exercer o jus puniendi) ou requisição do Ministro da Justiça.
 Por fim, conforme