Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014

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DisciplinaDireito Processual Penal I18.734 materiais138.476 seguidores
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disposto no art. 5.º, § 5.º, CPP, nos casos de crime de ação penal de iniciativa privada, a instauração do inquérito depende de requerimento escrito ou verbal do ofendido ou de seu representante legal.
 Com exceção obviamente das hipóteses de requisição do inquérito policial, a autoridade pode indeferir os requerimentos de instauração de inquérito policial. Dessa decisão cabe recurso administrativo ao órgão hierarquicamente superior (art. 5.º, § 2.º, CPP: do despacho que indeferir o requerimento de abertura de inquérito caberá recurso para o chefe de polícia).
 No âmbito da Polícia Federal, a portaria instauradora deverá conter: (i) o número do protocolo e do documento-base da notícia do crime, (ii) o relato sucinto do fato delituoso, (iii) a tipificação ainda que provisória e, quando possível, (iv) a autoria, bem como as (v) diligências de cumprimento imediato (art. 17 da Instrução Normativa 11-DG/DPF, de 27.06.2001).
 O auto de prisão em flagrante deverá observar a nova metodologia trazida pelas Leis 11.113, de 13.05.2005, e 12.403, de 04.05.2011, especialmente a segunda, que alterou dispositivos Código de Processo Penal relativos à prisão processual, fiança, liberdade provisória, flagrante e demais medidas cautelares.
 Atualmente, o condutor do flagrante, encerrado seu depoimento e entregues o preso e os bens arrecadados, pode retornar para suas atribuições normais. No caso da prisão em flagrante, o auto de prisão em flagrante delito (APFD) pode servir como portaria de instauração do inquérito policial (v. art. 535 do CPP).
 A redação do art. 306 conferida pela Lei 12.403/2011 estabelece que a prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontre serão comunicados imediatamente ao (i) juiz competente, ao (ii) Ministério Público e (iii) à família do preso ou à pessoa por ele indicada.
 No prazo máximo de 24 horas após a realização da prisão, será encaminhado ao juiz competente o auto de prisão em flagrante e, caso o autuado não informe o nome de seu advogado, cópia integral para a Defensoria Pública.
 No mesmo prazo será entregue ao preso, mediante recibo, a nota de culpa, assinada pela autoridade, com o motivo da prisão, o nome do condutor e os das testemunhas.
 A lei impõe ao juiz, alterando a redação anterior do art. 310 do CPP, que ao receber o auto de prisão em flagrante deverá fundamentadamente: (i) relaxar a prisão ilegal; (ii) converter a prisão em flagrante em preventiva, quando presentes os requisitos constantes do art. 312 do CPP e se revelarem inadequadas ou insuficientes as medidas cautelares diversas da prisão; ou (iii) conceder liberdade provisória, com ou sem fiança.
 Se o juiz verificar, pelo auto de prisão em flagrante, que o agente praticou o fato por estado de necessidade, legítima defesa, estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito, poderá, fundamentadamente, conceder ao acusado liberdade provisória, mediante termo de comparecimento a todos os atos processuais, sob pena de revogação.
 Com a alteração ocorrida com a Lei 12.403/2011, ficou abolida a prisão em flagrante como hipótese de prisão cautelar. Ninguém responderá a processo preso em virtude da prisão em flagrante: necessariamente, a prisão em flagrante deverá ser convertida em prisão preventiva, ou então será concedida liberdade provisória.
 O marco do inquérito policial é a edição da portaria instauradora, que deve conter relato sucinto dos fatos, tipificação provisória do delito, ou a lavratura do auto de prisão em flagrante delito.
 Algumas diligências são determinadas pelo delegado de polícia já na portaria instauradora do inquérito policial. O art. 6.º do CPP contém algumas delas, a serem procedidas de imediato, independentemente de provocação (ver a seguir).
 A Resolução CJF (Conselho da Justiça Federal) 63, de 30.06.2009, dispõe sobre a tramitação direta dos inquéritos policiais entre a Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF), assim como vários provimentos dos Tribunais Regionais Federais, Tribunais Regionais Eleitorais e resolução do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).
 Assim, na esfera federal, os inquéritos tramitam diretamente entre Polícia e Ministério Público, sendo acionado o juízo somente no caso de existência de pedidos que envolvam a reserva de jurisdição (medidas constritivas ou de natureza acautelatória), até que a denúncia seja formulada ou promovido o arquivamento do inquérito. De acordo com o que foi visto anteriormente, cabe ao MPF e à DPF assegurar o acesso do investigado e seus advogados aos autos do inquérito na tramitação direta, o que exige estrutura e recursos humanos (uma vez que esse acesso era obtido, anteriormente, nos cartórios judiciais).
 Nessa linha, o art. 1.º da Resolução 63 do Conselho de Justiça Federal dispõe que os autos de inquérito policial federal somente serão admitidos para registro, inserção no sistema processual informatizado e distribuição às Varas Federais com competência criminal quando houver:
 a) comunicação de prisão em flagrante efetuada ou qualquer outra forma de constrangimento aos direitos fundamentais;
 b) representação ou requerimento da autoridade policial ou do Ministério Público Federal para a decretação de prisão processual;
 c) requerimento da autoridade policial ou do Ministério Público Federal de medidas constritivas ou de natureza acautelatória;
 d) oferta de denúncia pelo Ministério Público Federal ou apresentação de queixa-crime pelo ofendido ou seu representante legal;
 e) pedido de arquivamento deduzido pelo Ministério Público Federal;
 f) requerimento de extinção da punibilidade com fulcro em qualquer das hipóteses previstas no art. 107 do Código Penal ou na legislação penal extravagante.
 3.3.2. A \u201cdenúncia anônima\u201d para o início da investigação
 Em virtude da vedação do anonimato na manifestação do pensamento prevista na CF/1988 (art. 5.º, IV), há limites ao uso de escritos anônimos ou peças apócrifas pelo Estado. De acordo com a jurisprudência do STF e do STJ, as autoridades públicas não podem iniciar qualquer medida de persecução (penal ou disciplinar) baseadas exclusivamente em peças apócrifas ou em escritos anônimos.
 O procedimento correto é o seguinte: 1) A delação anônima (notitia criminis inqualificada) não é inconstitucional per se (o que permite a existência do \u201cdisque-denúncia\u201d das Polícias); 2) a autoridade policial deverá, preliminarmente e com discrição, investigar a verossimilhança das informações, fazendo diligências prévias antes de instaurar inquérito policial; 3) caso essas diligências preliminares apontem a ocorrência de delito, deve-se instaurar formalmente a investigação, que terá origem desvinculada das peças apócrifas.
 \u201cNada impede, contudo, que o Poder Público (...), provocado por delação anônima \u2013 tal como ressaltado por Nelson Hungria, na lição cuja passagem reproduzi em meu voto \u2013, adote medidas informais destinadas a apurar, previamente, em averiguação sumária, com prudência e discrição, a possível ocorrência de eventual situação de ilicitude penal, desde que o faça com o objetivo de conferir a verossimilhança dos fatos nela denunciados, em ordem a promover, então, em caso positivo, a formal instauração da persecutio criminis, mantendo-se, assim, completa desvinculação desse procedimento estatal em relação às peças apócrifas\u201d (STF, Inq. 1.957, Rel. Min. Carlos Velloso, voto do Min. Celso de Mello, j. 11.05.2005, Plenário, DJ 11.11.2005).
 \u201cA delatio criminis anônima não constitui causa da ação penal, que surgirá, em sendo o caso, da investigação policial decorrente. Se colhidos elementos suficientes, haverá, então, ensejo para a denúncia. É bem verdade que a Constituição Federal (art. 5.º, IV) veda o anonimato na manifestação do pensamento, nada impedindo, entretanto, mas, pelo contrário, sendo dever da autoridade policial proceder à investigação, cercando-se,