Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014

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DisciplinaDireito Processual Penal I18.764 materiais138.735 seguidores
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naturalmente, de cautela. 2. Recurso ordinário improvido\u201d (STJ, RHC 7.329/GO, j. 17.03.1998, Rel. Min. Fernando Gonçalves).
 \u201cSegundo precedentes do Supremo Tribunal Federal, nada impede a deflagração da persecução penal pela chamada \u2018denúncia anônima\u2019, desde que esta seja seguida de diligências realizadas para averiguar os fatos nela noticiados (86.082, Rel. Min. Ellen Gracie, DJE 22.08.2008; 90.178, Rel. Min. Cezar Peluso, DJE 26.03.2010; e HC 95.244, Rel. Min. Dias Toffoli, DJE 30.04.2010). No caso, tanto as interceptações telefônicas quanto as ações penais que se pretende trancar decorreram não da alegada \u2018notícia anônima\u2019, mas de investigações levadas a efeito pela autoridade policial. A alegação de que o deferimento da interceptação telefônica teria violado o disposto no art. 2.º, I e II, da Lei 9.296/1996 não se sustenta, uma vez que a decisão da magistrada de primeiro grau refere-se à existência de indícios razoáveis de autoria e à imprescindibilidade do monitoramento telefônico. Ordem denegada\u201d (STF, HC 99490, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Segunda Turma, j. 23.11.2010, DJe-020, 31.01.2011).
 3.3.3. As principais diligências e o interrogatório
 As principais diligências investigativas que devem ser adotadas pela Polícia Federal constam do art. 6.º do CPP e são: \u201cI \u2013 dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais; II \u2013 apreender os instrumentos e todos os objetos que tiverem relação com o fato; II \u2013 apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos criminais; III \u2013 colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias; IV \u2013 ouvir o ofendido; V \u2013 ouvir o indiciado, com observância, no que for aplicável, do disposto no Capítulo III do Título VII, deste Livro, devendo o respectivo termo ser assinado por duas testemunhas que Ihe tenham ouvido a leitura; VI \u2013 proceder a reconhecimento de pessoas e coisas e a acareações; VII \u2013 determinar, se for caso, que se proceda a exame de corpo de delito e a quaisquer outras perícias; VIII \u2013 ordenar a identificação do indiciado pelo processo datiloscópico, se possível, e fazer juntar aos autos sua folha de antecedentes; IX \u2013 averiguar a vida pregressa do indiciado, sob o ponto de vista individual, familiar e social, sua condição econômica, sua atitude e estado de ânimo antes e depois do crime e durante ele, e quaisquer outros elementos que contribuírem para a apreciação do seu temperamento e caráter\u201d.
 Além dessas diligências, há ainda a busca domiciliar e a reconstituição do crime. Quanto ao interrogatório do suspeito, esta é uma das últimas diligências do inquérito policial.
 A Lei 10.792/2003 alterou a sistemática do interrogatório policial e judicial, agora dividido em duas partes (sobre a pessoa do acusado e sobre os fatos \u2013 art. 187 do CPP) e com o mérito de garantir o privilégio contra a autoincriminação e na esteira de que o interrogatório é instrumento de defesa e não meio de prova.
 Não é o investigado obrigado a responder nenhuma pergunta autoincriminadora, diante do direito de não ser obrigado a produzir provas contra si mesmo (nemo tenetur se detegere), previsto no art. 5.º, LXIII, da CF/1988 (\u201co preso será informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer calado...\u201d) e ainda do art. 8.º.2, \u201cg\u201d, da Convenção Americana de Direitos Humanos: (...) 2. Toda pessoa acusada de um delito tem direito a que se presuma sua inocência, enquanto não for legalmente comprovada sua culpa. Durante o processo, toda pessoa tem direito, em plena igualdade, às seguintes garantias mínimas: (...) g) direito de não ser obrigada a depor contra si mesma, nem a confessar-se culpada).
 Após a Lei 11.900/2009, é possível que os interrogatórios efetuados pela autoridade policial, assim como os interrogatórios judiciais, utilizem o recurso da videoconferência.
 3.3.4. O direito de ser notificado sobre a assistência consultar
 No caso de prisão de estrangeiro em solo nacional, a autoridade policial deve cientificá-lo sobre seu direito à assistência consular antes de qualquer declaração ou depoimento (art. 36 da Convenção de Viena sobre Relações Consulares, aprovada pelo Decreto 56.435, de 08.06.1965).
 Há, no entanto, entendimento jurisprudencial de que a ausência da notificação ao consulado não gera nulidade nem relaxamento do flagrante.
 Em que pese a pouca repercussão da temática, há precedente monocrático no STF que sustenta: \u201c(...) Torna-se imprescindível que as autoridades brasileiras, na esfera de procedimentos penais instaurados em nosso país e em cujo âmbito tinha sido decretada a prisão de súditos estrangeiros, respeitem o que determina o art. 36 da Convenção de Viena sobre Relações Consulares, sob pena de a transgressão a esse dever jurídico, imposto por tratado multilateral, de âmbito global, configurar ilícito internacional e traduzir ato de ofensa à garantia do due process of law\u201d (Ext 1.126, Rel. Min. Joaquim Barbosa, voto do Min. Celso de Mello, j. 22.10.2009, Plenário, DJE 11.12.2009, grifo da autora).
 3.3.5. Identificação criminal
 A CF/1988 dispõe que o civilmente identificado não será submetido a identificação criminal, salvo nas hipóteses previstas em lei (art. 5.º, LVIII). Nessa linha, foi editada a Lei 12.037/2009, que prevê a identificação datiloscópica e fotográfica para quaisquer pessoas que não apresentem identificação civil e mesmo para aqueles que já foram identificados civilmente nos casos excepcionais elencados pela lei (art. 3.º).
 Esses casos excepcionais de identificação criminal mesmo diante da identificação civil, elencados pela Lei 12.037/2009, são:
 
 Art. 3.º, Lei 12.037/2009 (...). I \u2013 o documento apresentar rasura ou tiver indício de falsificação;
 II \u2013 o documento apresentado for insuficiente para identificar cabalmente o indiciado;
 III \u2013 houver porte de documentos de identidade distintos, com informações conflitantes entre si;
 IV \u2013 a identificação criminal for essencial às investigações policiais, segundo despacho da autoridade judiciária competente, que decidirá de ofício ou mediante representação da autoridade policial, do Ministério Público ou da defesa;
 V \u2013 constar de registros policiais o uso de outros nomes ou diferentes qualificações;
 VI \u2013 o estado de conservação ou a distância temporal ou da localidade da expedição do documento apresentado impossibilite a completa identificação dos caracteres essenciais.
 
 Antes de ser expressamente revogada pela Lei 12.850/2013, a Lei 9.034/1995 determinava em seu art. 5.º a identificação criminal de pessoas envolvidas com a ação praticada por organizações criminosas, independentemente da identificação civil. A Lei 12.850 não repetiu tal comando. Por sua vez, o art. 109 do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990) dispõe que o adolescente civilmente identificado não será submetido à identificação compulsória pelos órgãos policiais, de proteção e judiciais, salvo para efeito de confrontação, havendo dúvida fundada.
 3.3.6. O indiciamento
 Após as diligências necessárias para a determinação do autor do fato ou do crime, no âmbito da Polícia Federal, a autoridade policial deve lavrar um despacho de indiciamento, que antecederá o interrogatório.
 O ato de indiciamento consiste em ato formal, de competência exclusiva da autoridade policial, que expõe um juízo policial, não vinculante nem ao MP nem ao Poder Judiciário, sobre a autoria do ilícito penal por determinada pessoa (o indiciado).
 Como visto, a Lei 12.830 determina que o ato de indiciamento deve ser feito mediante análise técnico-jurídica do fato, que deverá indicar a (i) autoria, (ii) materialidade e (iii) circunstâncias. O STF, na mesma linha, já exigia antes da lei que houvesse motivação para tal ato, que não pode ser tido como meramente arbitrário