Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014

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DisciplinaDireito Processual Penal I18.696 materiais138.322 seguidores
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periciais necessários (conforme art. 69 da Lei).
 Ao autor do fato que, após a lavratura do termo, for imediatamente encaminhado ao juizado ou assumir o compromisso de a ele comparecer, não se imporá prisão em flagrante nem se exigirá fiança (conforme parágrafo único, art. 69 da Lei). O TC deve conter tanto a qualificação dos envolvidos e testemunhas quanto uma breve descrição dos fatos e das versões eventualmente existentes, bem como o compromisso de comparecer perante o Juizado.
 Sua estrutura mais concisa e menos formal em comparação com o inquérito policial é compatível com a finalidade da justiça penal consensual e com a persecução dos crimes de menor potencial ofensivo.
 3.3.10. Garantias do investigado
 Discute-se a partir de qual momento o investigado poderia ser sujeito de direitos no inquérito, e assim ser destinatário das garantias constitucionais do processo penal. A doutrina majoritária entende que elas incidem a partir em que ele começa a ser suspeito, no início das investigações. Para a doutrina hoje minoritária, isso ocorreria a partir do indiciamento do investigado.
 Como visto supra, a atribuição para qualificar um suspeito como indiciado não é nem do Juízo nem do Ministério Público, mas da autoridade policial.
 O inquérito policial no sistema brasileiro é mera peça investigatória e informativa, em que a autoridade policial não realiza qualquer acusação formal. E, mais, o inquérito policial é instrumento prescindível para o oferecimento da ação penal, que pode ser baseada em outras peças de informação. O indiciamento constitui mera formalização de uma suspeita, e somente em sede de inquérito policial, que não vincula o Ministério Público, este, sim, o verdadeiro encarregado da acusação pública, o qual formalizará com o oferecimento da ação penal.
 Por esse motivo, a jurisprudência brasileira é praticamente pacífica em determinar que todo suspeito \u2013 mesmo não indiciado \u2013 é sujeito de direitos e garantias.
 No inquérito policial não incide o contraditório \u2013 por ser peça instrutória administrativa, sem presidência judicial. Contudo o indivíduo passa a ser titular de direitos constitucionais a partir de quaisquer atos em que se conclua que é suspeito \u2013 independentemente do indiciamento \u2013 e pode exercer em sua plenitude os direitos inerentes ao contraditório a partir do momento em que passa a figurar como réu em ação penal.
 Embora não incida o contraditório na concepção ampla na fase de investigação, a defesa não pode ser privada de participar do seu desenvolvimento, com o direito de acesso aos autos do inquérito policial ou de procedimento de investigação criminal do Ministério Público Federal (como vimos acima). A prevalência dos direitos humanos no Estado Democrático de Direito brasileiro assegura que todo aquele que possa vir a ser prejudicado pela linha de investigação criminal busque influenciar na sua condução, pedir esclarecimentos, entre outros atos.
 \u201cO mero indiciamento em inquérito policial, por ser figura desprovida de consequência jurídica, não prevista no ordenamento como ato processual formal, não constitui constrangimento ilegal, passível de reparação por via de habeas corpus\u201d (STJ, RHC 11814/MG, Sexta Turma, Rel. Vicente Leal, j. 21.11.2002, DJ 19.12.2002, p. 421).
 3.3.11. Conflito de atribuição entre membros do Ministério Público no plano federal
 Conflito de atribuições entre Ministérios Públicos consiste no desacordo entre membros do Ministério Público sobre a titularidade ativa para a persecução penal. Difere do conflito de jurisdição, que é a divergência estabelecida entre membros do Poder Judiciário sobre suas respectivas competências judiciais, no transcorrer de um processo.
 Quando o conflito de atribuições ocorre dentro do Ministério Público Federal, é resolvido pela 2.ª Câmara de Coordenação e Revisão, com recurso para o Procurador-Geral da República. Já quando o conflito de atribuição ocorre no âmbito do Ministério Público da União \u2013 MPU (conflito entre membro do MPF e do MPT, por exemplo), cabe ao Procurador-Geral da República resolvê-lo (art. 26, VII, da LC 75/1993).
 Quando, contudo, há conflito de atribuição entre membro do Ministério Público Federal e membro do Ministério Público do Estado, sem que haja decisões judiciais sobre a remessa do inquérito policial (ver adiante essa hipótese), o entendimento do Plenário do Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, é de que compete ao próprio Supremo Tribunal Federal dirimir esse conflito. Considerou-se, na decisão exarada em 29.09.2005 (Pet. 3528/BA, Rel. Min. Marco Aurelio), a orientação fixada pelo Supremo no sentido de ser dele a competência para julgar certa matéria diante da inexistência de previsão específica na Constituição Federal a respeito, e emprestou-se maior alcance à alínea \u201cf\u201d do inciso I do art. 102 da CF, ante o fato de estarem envolvidos no conflito órgãos da União e de Estado-membro. Asseverou-se, ademais, a incompetência do Procurador-Geral da República para a solução do conflito, diante da impossibilidade de sua interferência no Parquet estadual.
 Excepcionalmente, quando a (i) existência de divergência entre membros do MPF e do MP dos Estados ocorrer no bojo de inquéritos policiais; e (ii) houver pedido do MP ao Juízo Federal (ou Estadual), e subsequentemente aceito, para a remessa e depois, recusa pelo Juízo Estadual (ou Federal) que deveria receber o inquérito policial, há conflito de competência entre Justiça federal e Justiça comum (também chamado na jurisprudência de \u201cconflito de jurisdição\u201d), que, por força do art. 105, I, \u201cd\u201d, da CF, deve ser dirimido pelo Superior Tribunal de Justiça. É que, nesse caso, houve decisões judiciais de remessa e recusa (embora desnecessárias), o que gera o conflito de jurisdição entre juízes vinculados a Tribunais distintos (o juiz federal, vinculado ao TRF, e o juiz estadual, vinculado ao TJ), que deve ser dirimido pelo STJ. Esse conflito de jurisdição pode ser negativo (nenhum dos juízos envolvidos se considera competente) ou positivo (ambos se afirmam competentes).
 \u201cConflito negativo de atribuições. Caracterização. Ausência de decisões do Poder Judiciário. Competência do STF. Local da consumação do crime. Possível prática de extorsão (e não de estelionato). Art. 102, I, \u2018f\u2019, CF. Art. 70, CPP. Trata-se de conflito negativo de atribuições entre órgãos de atuação do Ministério Público de Estados-membros a respeito dos fatos constantes de inquérito policial. O conflito negativo de atribuição se instaurou entre Ministérios Públicos de Estados-membros diversos. Com fundamento no art. 102, I, \u2018f\u2019, da CF, deve ser conhecido o presente conflito de atribuição entre os membros do Ministério Público dos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro diante da competência do STF para julgar conflito entre órgãos de Estados-membros diversos. Os fatos indicados no inquérito apontam para possível configuração do crime de extorsão, cabendo a formação da opinio delicti e eventual oferecimento da denúncia por parte do órgão de atuação do MP do Estado de São Paulo. Conflito de atribuições conhecido, com declaração de atribuição ao órgão de atuação do Ministério Público onde houve a consumação do crime de extorsão\u201d (ACO 889, Rel. Min. Ellen Gracie, j. 11.09.2008, Plenário, DJE 28.11.2008).
 3.3.12. Arquivamento de inquéritos e peças de investigação criminais
 Encerrado o inquérito policial, a autoridade policial (delegado de polícia) que o preside não tem atribuição legal para determinar o arquivamento nem para oferecer a denúncia.
 Na esfera federal, na qual há a tramitação direta do inquérito entre a Polícia Federal e os órgãos do Ministério Público (sem que os autos passem pelo juiz quando não há tutela de liberdades públicas), quando o inquérito é concluído é remetido para o Ministério Público, que avaliará os elementos colhidos na investigação e determinará se são suficientes para oferecimento de denúncia. Em caso