Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014

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DisciplinaDireito Processual Penal I18.734 materiais138.515 seguidores
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ou quando faltar justa causa para o exercício da ação penal. É justamente a hipótese, eis que não houve qualquer descrição relacionada à conduta do recorrido no âmbito das supostas práticas delitivas narradas na denúncia ofertada pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais\u201d (STF, Inq. 2727/MG, Rel. Min. Ellen Gracie, j. 13.11.2008, Tribunal Pleno).
 5.5. Absolvição sumária
 As alterações apresentadas pelas Leis 11.689/2008 e 11.719/2008 no Código de Processo Penal alteraram o trâmite da instrução criminal. Pelo novo texto legal, ofertada a denúncia ou a queixa, o juiz faz preliminarmente uma análise de modo a verificar se não é hipótese de rejeição da inicial acusatória.
 Não sendo caso de rejeição da petição inicial, o juiz deverá citar o acusado para responder à acusação, quando poderá alegar tudo o que interessa à sua defesa.
 Após a defesa, abre-se nova oportunidade para o magistrado analisar a conveniência da ação penal. Nesse momento processual, de acordo com o art. 397 do CPP, o juiz deverá absolver sumariamente: (i) quando verificar que há causa excludente da ilicitude do fato ou da culpabilidade do agente (salvo hipótese de inimputabilidade); (ii) quando o fato narrado não constituir crime; ou (iii) quando estiver extinta a punibilidade do agente. Os elementos de convicção existentes nos autos que conduzem à absolvição sumária devem ser suficientes para o convencimento do juízo pela absolvição.
 A absolvição sumária, portanto, é uma decisão antecipada de mérito na qual o magistrado, verificando a ocorrência de uma das hipóteses elencadas na lei (art. 397, CPP), deverá absolver sumariamente o acusado.
 No caso de concessão de suspensão condicional do processo, prevista no art. 89 da Lei 9.099/1995, uma vez concedido o benefício, se contra o réu for imputada nova prática delituosa, mas neste último processo houve em seu favor uma absolvição sumária, não há razões para que o benefício seja revogado. Essa foi a orientação jurisprudencial emanada da Sexta Turma do STJ, no HC 162.618/SP.
 Como decisão de mérito, a absolvição sumária produz coisa julgada formal e material.
 5.6. Renúncia
 Renúncia é um ato unilateral do ofendido ou de seu representante legal pelo qual ele abdica do direito de ingressar com a ação penal privada, com a consequente extinção da punibilidade. A renúncia decorre do princípio da disponibilidade ou oportunidade da ação penal privada e ocorre em momento anterior à queixa.
 São três os principais elementos característicos do instituto da renúncia: é ato unilateral, que dispensa a concordância da parte contrária e ocorre antes do início da ação penal.
 A renúncia, como instituto decorrente do princípio da disponibilidade, é inerente às ações penais privadas.
 Nas ações penais públicas, a titularidade é do Ministério Público, que está obrigado a, presentes \u2013 na sua convicção jurídica \u2013 indícios de autoria e provas da materialidade delitiva, ingressar com ação penal (princípio da obrigatoriedade da ação penal pública).
 Nas ações penais públicas condicionadas, o ofendido pode dispor do direito de representação. Nessa hipótese, a renúncia é ato unilateral anterior à representação. Após a oferta da representação, é possível a retratação, que surte efeito somente até a apresentação da denúncia (art. 25, CPP, conforme visto).
 A possibilidade de renúncia ao direito de representação está prevista expressamente no art. 74 da Lei 9.099/1995, que estabelece que a composição civil dos danos acarreta a renúncia ao direito de representação ou de queixa. Também está prevista no art. 16 da Lei 11.340/2006, que determina que \u201cnas ações penais públicas condicionadas à representação da ofendida de que trata esta Lei, só será admitida a renúncia à representação perante o juiz, em audiência especialmente designada com tal finalidade, antes do recebimento da denúncia e ouvido o Ministério Público\u201d.
 Como a renúncia consiste em abrir mão ao exercício de um direito, a lei determina as formas pelas quais a manifestação dessa vontade de recusar-se a exercer um direito pode ocorrer. Assim, a renúncia pode ser: expressa \u2013 é aquela feita por declaração inequívoca do ofendido, representante legal ou procurador com poderes especiais \u2013 ou tácita \u2013 que ocorre quando a vítima pratica ato incompatível com a vontade de processar, nos termos do art. 104, CP.
 De acordo com o disposto no art. 104, parágrafo único, do Código Penal, o recebimento de indenização pela vítima não importa em renúncia ao direito de queixa. A doutrina, majoritariamente, entende que uma vez mais o art. 74 da Lei 9.099/1995 configura uma exceção a essa regra, uma vez que estabelece que, para os casos acobertados pela lei, a composição dos danos civis importa na renúncia ao direito de queixa.
 Como decorrência do princípio da indivisibilidade da ação penal privada, a renúncia concedida a um dos coautores estende-se aos demais (art. 49, CPP). Além disso, a renúncia não admite retratação.
 Com o advento da Lei 12.015/2009, o casamento da vítima com o ofendido não é mais tido como renúncia nos crimes sexuais.
 5.7. Perdão do ofendido
 O perdão do ofendido é o ato pelo qual o ofendido ou seu representante legal renuncia continuar com o processo penal, perdoando seu ofensor, com a consequente extinção da punibilidade caso o perdão seja aceito.
 Não se confunde com o perdão judicial, concedido pelo juiz, no final do processo, nas hipóteses previstas em lei (por exemplo, na hipótese de homicídio culposo \u2013 art. 121, § 5.º, CP: \u201c§ 5.º. O juiz poderá deixar de aplicar a pena se as consequências da infração atingirem o próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se torne desnecessária\u201d).
 O perdão do ofendido tem por características: (i) somente ser cabível na ação penal exclusivamente privada ou na personalíssima; (ii) incidir após o início da ação penal e antes do trânsito em julgado da sentença condenatória (art. 106, § 2.º, CP); (iii) não admitir retratação; e (iv) ser um ato bilateral, ou seja, depender de aceitação do acusado.
 Também decorre do princípio da disponibilidade da ação penal privada. Pelo princípio da indivisibilidade, o perdão se estende aos demais coautores \u2013 que, no entanto, podem recusá-lo (art. 51, CPP).
 O perdão do ofendido pode ser expresso ou tácito. Da mesma forma, também a aceitação do perdão pode ser expressa ou tácita. Será tácita quando, após a manifestação de perdão, o querelado permanecer em silêncio por três dias, nos termos do art. 58, CPP. Dessa forma, o silêncio do querelado por período igual ou superior ao previsto em lei significa aceitação do perdão. O perdão concedido por uma das vítimas não afeta o direito das demais.
 \u201cO perdão do ofendido atua como desistência da ação penal privada que se iniciou. Portanto, uma vez proposta pelo Ministério Público ação penal pública condicionada a representação feita oportunamente, não pode esta ser objeto de perdão por parte do ofendido, uma vez que aquele age com absoluta independência em face deste\u201d (STF, HC 64964/SP, Rel. Min. Moreira Alves, julgamento: 08.05.1987).
 5.8. Perempção
 Perempção é a perda do direito de prosseguir no exercício da ação penal exclusivamente privada ou personalíssima em virtude do desmazelo e negligência do querelante (ver supra).
 Assim como a renúncia e o perdão, também é uma causa extintiva da punibilidade. Não cabe perempção na ação penal privada subsidiária da pública. Nesse caso, se o querelante é negligente, o Ministério Público reassume a titularidade, já que a ação penal é pública.
 O elemento que diferencia a perempção da decadência está no fato de que, na perempção, o processo está em andamento (já foi iniciado). A decadência é a perda do direito de ação penal privada ou de representação pelo seu não exercício no prazo legal. É a perda do direito de dar início à ação penal.