Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014

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DisciplinaDireito Processual Penal I18.642 materiais138.158 seguidores
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XI). No âmbito da legislação concorrente sobre procedimentos em matéria processual, a competência da União limita-se a estabelecer normas gerais, não excluindo a competência suplementar dos Estados. Inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados exercerão a competência legislativa plena, para atender a suas peculiaridades. A superveniência de lei federal sobre normas gerais suspende a eficácia da lei estadual, no que lhe for contrário.
 São fontes formais em sentido estrito do direito processual penal a Constituição, a lei complementar (como a Lei Complementar que trata do Ministério Público da União \u2013 LC 75/1993, que estabelece, por exemplo, regras do promotor natural), a lei ordinária (por exemplo, o CPP); os tratados e convenções internacionais incorporados internamente (por exemplo, a Convenção Americana de Direitos Humanos, que contém garantias do processo penal, previstas nos arts. 8.º e 25), e as súmulas vinculantes do STF, que obrigam os demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal.1 São fontes formais indiretas ou secundárias do direito processual penal o costume, os princípios gerais do direito e a analogia, que auxiliam a interpretação e integração das normas (atividade de preenchimento de lacunas).
 1.3. Sistemas processuais penais
 Sistema consiste no agrupamento coordenado e lógico de elementos vinculados por um princípio ou ideia, destinados a uma finalidade determinada.
 Desde a Antiguidade, o processo penal se apresenta basicamente sob três sistemas distintos conhecidos como (i) sistema acusatório, (ii) sistema inquisitório ou inquisitivo e (iii) sistema misto.
 O que distingue os sistemas é a opção adotada pelo ordenamento sobre a (i) titularidade do órgão da acusação, (ii) o papel do juiz e a (iii) presunção de inocência e os direitos do acusado. No sistema inquisitório, as funções de acusação e de julgamento estão atribuídas ao mesmo órgão, e o réu é objeto do processo e deve colaborar para a obtenção da verdade real. No sistema acusatório, órgãos distintos são responsáveis por acusar e julgar, e o réu conta com a presunção de inocência. No sistema misto, há uma instrução inquisitória, e julgamento acusatório, com participação ainda do juiz na produção probatória, complementando a atividade da acusação.
 A adoção de um ou outro sistema processual decorre diretamente do sistema político adotado pela Constituição de cada Estado.
 1.3.1. Sistema acusatório
 O modelo acusatório predominou durante a Antiguidade nas civilizações grega e romana até a Idade Média, entrando em declínio a partir do século XII, quando o modelo baseado na Inquisição da Igreja Católica passou a ser considerado dominante e superou o modelo acusatório.2 Nas suas origens, era praticado por tribunais populares, cujos veredictos não necessitavam de motivação.
 Seu resgate e ascensão deram-se após a consolidação do Estado Constitucional e com a contemporânea aceitação da internacionalização dos direitos humanos, o que consagrou o devido processo legal e os direitos fundamentais dos indivíduos sujeitos ao processo penal.
 O sistema acusatório supõe a configuração do processo como uma relação triangular entre o acusador, o defensor e o juiz. A chamada estrutura triangular do processo penal é indispensável para que seja garantida a equidistância do juiz em relação aos dois interesses em conflito \u2013 o combate aos delitos, exercido pela acusação, e o combate às punições arbitrárias e injustas, exercido pela defesa.3
 No sistema acusatório, a acusação tem o ônus de provar a imputação que faz ao réu. Assim, cabe ao acusador apresentar provas e não meras presunções, sem ainda contar com o apoio probatório do juiz. Já o réu possui direitos fundamentais, entre eles o da presunção da inocência, e consequentemente não precisa provar fato negativo, ou seja, não precisa provar que não cometeu determinado delito. Assim, se a acusação não possuir provas cabais para a incriminação, a consequência é a absolvição. A insuficiência de provas sobre a culpa do acusado demonstra que a acusação não cumpriu seu ônus, devendo ser o réu absolvido. Na mesma toada, caso as provas sejam insuficientes, o juiz deve absolver e não diligenciar na obtenção de novas provas, sob a alegação da busca da chamada \u201cverdade material\u201d. O papel do juiz é manter-se equidistante das partes para conservar sua imparcialidade, sabendo que, caso se movimente e determine provas, auxiliará em geral a acusação, pois o réu seria absolvido pela insuficiência de provas. Ao juiz deve ser vedada a incumbência de busca de provas, pois dessa forma desnatura o sistema e se transforma em auxiliar da acusação, prejudicando o réu e seu direito à presunção de inocência, que contava com a absolvição por falta de provas pela incúria da acusação.
 Em que pesem alguns resquícios inquisitórios na legislação infraconstitucional brasileira, entende-se majoritariamente que o ordenamento constitucional brasileiro adotou a sistema acusatório, em face da nova sistemática constitucional, segundo a qual estão claramente separadas as funções de julgar, acusar e defender, a presunção de inocência está assegurada e o contraditório é previsto de forma ampla.
 O processo penal acusatório e de partes está claramente delineado na CF/1988 com a consagração da: (i) separação das funções do Poder (art. 2.º), (ii) direitos e garantias individuais (devido processo legal e aceitação dos direitos humanos previstos em tratados internacionais, art. 5.º e seus parágrafos), (iii) titularidade da ação penal pública ao Ministério Público (art. 129, I, CF), (iv) constitucionalização da função do advogado (art. 133, CF), (v) instituição de defensorias públicas (art. 134, CF) e (vi) desvinculação do MP dos quadros do Poder Executivo (capítulo IV do título IV da CF).
 O modelo constitucionalmente albergado pelo Estado democrático brasileiro deve ser ponto de partida para interpretação e releitura de todas as normas processuais penais infraconstitucionais que integram o processo penal brasileiro.
 \u201cO sistema jurídico vigente no Brasil \u2013 tendo presente a natureza dialógica do processo penal acusatório, hoje impregnado, em sua estrutura formal, de caráter essencialmente democrático \u2013 impõe ao Ministério Público, notadamente no denominado reato societario, a obrigação de expor, na denúncia, de maneira precisa, objetiva e individualizada, a participação de cada acusado na suposta prática delituosa\u201d (STF, HC 84.580, Rel. Min. Celso de Mello, j. 25.08.2009, Segunda Turma, DJE 18.09.2009. Grifos nossos).
 \u201cPor essa razão, não parece razoável o magistrado, após receber a denúncia, requisitar ao Delegado de Polícia o indiciamento formal de determinada pessoa. A rigor, requisição dessa natureza é incompatível com o sistema acusatório. Este, contemplado em nosso ordenamento jurídico, impõe a separação orgânica das funções concernentes à persecução penal, de modo a impedir que o juiz adote qualquer postura tipicamente inerente à função investigatória\u201d (STF, HC 115.015, Rel. Teori Zavascki, 2.ª Turma, j. 27.08.2013).
 \u201cO juiz não pode ser um investigador, por infringir o direito democrático e constitucional sistema acusatório (cf. as lições da Procuradora da República Denise Neves Abade, Garantias do processo penal acusatório: O novo papel do Ministério Público no processo penal de partes. Rio de Janeiro: Renovar, 2005, p. 168). O Judiciário não é órgão de combate à criminalidade. O juiz deve julgar com isenção, com imparcialidade\u201d (TRF-1.ª Região, HC 2007.01.00.015822-4/MT, Rel. Des. Tourinho Neto, j. 21.05.2007. Grifos nossos).
 \u201cBusca e apreensão de documentos relacionados ao pedido de quebra de sigilo realizadas pessoalmente pelo magistrado. Comprometimento do princípio da imparcialidade e consequente violação ao devido processo legal. Funções de investigador e inquisidor. Atribuições conferidas ao