Serie Carreiras Federais - Processo Penal - Abade, Denise Neves 2014

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DisciplinaDireito Processual Penal I18.750 materiais138.628 seguidores
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Ministério Público e às Polícias Federal e Civil (CF, artigos 129, I e VIII e § 2.º; e 144, § 1.º, I e IV, e § 4.º). A realização de inquérito é função que a Constituição reserva à polícia. Precedentes. Ação julgada procedente, em parte (STF, ADI 1570/DF, Rel. Min. Maurício Corrêa, Tribunal Pleno, DJ 22.10.2004, 00004, v. 02169-01, p. 00046. Grifos nossos).
 1.3.2. Sistema inquisitório ou inquisitivo
 No modelo inquisitório puro ou clássico, um único órgão atua de ofício (sem provocação) e exerce amplos poderes de apuração da verdade real em todas as fases do processo. Não há partes, mas interessados, que não integram o processo, vindo à presença da autoridade para contribuir para a revelação da verdade real. Como todos estão cooperando para o atingimento da verdade real, não há sujeitos processuais com interesses antagônicos. O único sujeito processual é o juiz, que exige de todos colaboração sem reconhecer direitos no processo.
 As principais características desse sistema são: (i) iniciativa de ofício (procedat ex officio) do juiz; (ii) ampla liberdade do juiz para a produção de provas; e (iii) configuração do acusado como objeto na busca da verdade real e não como sujeito de direitos fundamentais.
 O sistema inquisitório teve sua origem na Inquisição para investigação e repressão de delitos contra a religião, em especial a heresia, como instrumento para fortalecer a autoridade da Igreja Católica.4 Prontamente se expandiu pela necessidade de afirmação do poder real diante da nobreza feudal, uma vez que implicava na consolidação da ideia de concentração de todo o poder nas mãos do soberano.5
 Hoje, com a consagração dos direitos humanos na sociedade internacional e com a mudança de paradigma processual no Estado Constitucional, o modelo inquisitório puro está superado. Existem ordenamentos que adotam os chamados sistemas mistos, como veremos adiante. Há parte da doutrina, hoje minoritária, que entende que o Brasil adotou o sistema misto.
 1.3.3. Sistema misto
 O sistema misto surgiu na França no começo do século XIX, sendo considerado uma mescla dos dois outros sistemas processuais, adotando, de início, uma instrução inquisitória, com concentração das funções de acusar e decidir em um primeiro momento, e posteriormente separação das funções, com julgamento final acusatório. Na fase inquisitória, a instrução é escrita e secreta, sem acusação e sem nenhuma oportunidade de contraditório. Somente após a apresentação da acusação o réu poderá se defender.
 No Brasil, o Código de Processo Penal brasileiro foi editado em 1941, em plena ditadura do Estado Novo getulista, sendo inspirado pelo sistema misto, com forte inclinação ao sistema inquisitivo. Considerou-se que, na fase do inquérito policial, não incidiam as garantias processuais penais, e na fase processual propriamente dita cabia ao juiz diligenciar pela busca da verdade real, auxiliando a acusação, incluindo novos fatos no libelo acusatório (mutatio libelli, ou seja, acusando), determinando produção de provas e levando o silêncio do réu em prejuízo dele (ver a redação original do art. 186 do CPP \u2013 \u201cArt. 186. Antes de iniciar o interrogatório, o juiz observará ao réu que, embora não esteja obrigado a responder às perguntas que Ihe forem formuladas, o seu silêncio poderá ser interpretado em prejuízo da própria defesa\u201d, já revogado).
 Hoje a tendência doutrinária e jurisprudencial, inclusive no Supremo Tribunal Federal, é de considerar, ao menos na retórica, que o sistema misto está superado, após a edição da Constituição Federal de 1988 (que adotou o sistema acusatório).
 Lentamente, houve a atualização do CPP, com a revogação de dispositivos inquisitivos, como o antigo art. 186 (vide supra) ou o poder do juiz de determinar a mutatio libelli, reconhecendo novos fatos que não constavam da denúncia (ver a seguir) sem o aditamento da peça inicial pelo MP. O trâmite direto do inquérito policial na área federal entre a Polícia Federal e o Ministério Público Federal auxiliou a conscientizar os operadores do direito (inclusive os advogados, vários deles defensores, acríticos e sem perceber, dos traços inquisitivos) que o papel do juiz é velar pelas liberdades públicas e não combater a criminalidade ou ainda suprir as deficiências probatórias da acusação.
 Há, contudo, a manutenção de traços normativos inquisitivos no CPP, mesmo após mais de 23 anos da edição da CF/1988. Mesmo as reformas processuais penais feitas no pós-1988 têm dificuldade em superar ranços inquisitivos, tendo sido mantida, por exemplo, a faculdade de o juiz determinar, de ofício, no curso da instrução, ou antes de proferir sentença, a realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante (art. 156, II, do CPP, cuja redação foi dada pela Lei 11.690, de 2008). Novamente, caso o juiz tenha dúvida e ordene diligências, a nova prova em geral ajudará a acusação, pois o réu \u2013 na dúvida \u2013 tem de ser absolvido (in dubio pro reo). Ainda foi mantida a possibilidade de o juiz decretar diversas medidas cautelares contra o investigado, inclusive a prisão, de ofício, sem requerimento, como se vê, neste livro, no caso das medidas assecuratórias penais (o juiz \u201cpostula\u201d e decide \u2013 típico traço inquisitivo).
 Além disso, há vários precedentes judiciais adeptos do sistema misto, sem claramente assim se manifestar, quase que envergonhados.
 1.4. O processo penal e o devido processo legal na dimensão dos direitos fundamentais
 A conformação atual do processo penal inspira-se na consagração do devido processo legal e da dignidade da pessoa humana.
 Inicialmente, a CF/1988 determina que a dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos do nosso Estado Democrático de Direito (art. 1.º, III). Em seguida, prevê que \u201cninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal\u201d (art. 5.º, LIV). Assim, o Estado só pode exercer seu direito de punir por meio do devido processo, que deve ser dotado de todas as garantias atinentes a um processo justo.
 A noção contemporânea de devido processo penal está atrelada à ideia de processo acusatório, já que este é o que melhor pode acolher as garantias inerentes à cláusula, assegurando a imparcialidade do juízo e ainda a paridade de armas entre acusação (que perde o apoio do juiz) e defesa.
 A dignidade da pessoa humana deve pautar todo o sistema de garantias constitucionais: a supremacia dos direitos humanos (designados como direitos fundamentais quando originados pelo Direito Constitucional)6 é fundamento de todo o ordenamento e, por consequência, das garantias constitucionais do processo penal. Não há como entender as garantias estabelecidas pela CF/1988 sem a premissa de que lá estão para assegurar a dignidade da pessoa humana.7
 Os direitos fundamentais possuem duas facetas no processo penal: (i) representam os direitos subjetivos de defesa do indivíduo contra atos do poder público e ainda (ii) atuam como um conjunto de valores objetivos básicos e fins diretivos da ação positiva dos poderes públicos, o que implica também reconhecer que o Estado deve aparelhar os órgãos de investigação e persecução para que estes possam evitar a impunidade e, com isso, prevenir novas violações de direitos.
 \u201cO direito do réu à observância, pelo Estado, da garantia pertinente ao due process of law, além de traduzir expressão concreta do direito de defesa, também encontra suporte legitimador em convenções internacionais que proclamam a essencialidade dessa franquia processual, que compõe o próprio estatuto constitucional do direito de defesa, enquanto complexo de princípios e de normas que amparam qualquer acusado em sede de persecução criminal, mesmo que se trate de réu estrangeiro, sem domicílio em território brasileiro, aqui processado por suposta prática de delitos a ele atribuídos\u201d (HC 94.016, Rel. Min. Celso de Mello, j. 16.09.2008, Segunda Turma, DJE 27.02.2009. Grifamos). No mesmo sentido: Ext 1.126,