Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


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 Identidade, papel e orientação sexual
 Todos os jovens passam pela grande aventura do de-
senvolvimento para alcançarem a autonomia. Os adolescentes
não constituem um grupo homogêneo; a realidade é que eles
crescem em diferentes culturas, o que torna necessário consi-
derarmos formas variadas de alcançá-los. Jovens que lidam
com diferentes situações têm diferentes necessidades.
A adolescência é a época da afirmação social da iden-
tidade e da consolidação da orientação sexual. Compreende-se
por identidade sexual o sentimento e convicção interna de ser
homem ou mulher. \u201cA formação da identidade de gênero é um
processo complexo que incorpora elementos conscientes e in-
conscientes associados ao sexo biológico e qualidades
estabelecidas pela sociedade como adequadas à condição do
masculino ou do feminino\u201d (Baleeiro, Siqueira, Cavalcante &
Souza, 1999, p. 70). Esse reconhecimento ou convicção dificil-
mente será modificado ao longo da vida. Baleeiro e colabora-
dores citam estudos que falam da existência de um \u2018núcleo de
base\u2019 da identidade de gênero, que seria a condição biológica
para adquiri-la, mas será a experiência sociopsicológica que vai
favorecer a construção dessa identidade.
Os papéis sexuais estão mais na dependência de
padrões culturais e são os conjuntos de comportamentos e
condutas esperadas do indivíduo, conforme seu gênero. Esses
papéis modificam-se de acordo com a época, local e grupo,
ainda que dentro de uma mesma cultura. Tem havido grandes
mudanças nos últimos anos quanto aos papéis de gênero, mas
ainda existem muitos estereótipos sendo perpetuados na
educação (transferidos de pai para filho ou por instituições). Os
estereótipos sempre acompanham a crise de identidade, e a
necessidade de corresponder a eles pode gerar mais conflitos.
Ao direcionamento do desejo chamamos de orientação
sexual. O desejo sexual pode ter como objeto pessoas do mesmo
sexo (homossexualidade), do outro sexo (heterossexualidade)
ou de ambos os sexos
(bissexualidade). A orientação
sexual não pode ser a medida
do valor de uma pessoa e não
deve influenciar o julgamento
moral de alguém. O adolescente
deve compreender que,
independentemente da escolha
sexual, o mais importante é
viver a sexualidade respeitando
a si e ao outro. É muito comum
presenciarmos grandes sofrimentos psíquicos quando o
comportamento do jovem não corresponde às expectativas
sociais para o seu gênero. Sentimentos de angústia, rejeição,
exclusão e menos valia estão presentes quando a crítica, o
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deboche ou a recriminação não permite espaço para a discussão
sobre a definição sexual e a elaboração interna desse processo.
Quando os conflitos são profundos, a psicoterapia individual é
um instrumento valioso. Outras vezes, o que o jovem precisa é
apenas de um espaço para orientação e aconselhamento que
facilite o recebimento de apoio para identificar sua orientação
sexual e para encontrar a forma de integrar-se à sociedade,
expressando-se plenamente. \u201c... o maior sofrimento dos
homossexuais masculinos e femininos é a clandestinidade gerada
pelo preconceito e a intolerância para com a homossexualidade,
cuja conseqüência é o medo terrível de se comunicar até com
pessoas muito caras, como seus pais e amigos, sobre algo tão
fundamental para a sua vida como é a vivência da sexualidade\u201d
(Sales, 2000, em Pinto & Telles, 2000, p. 42).
Há muitos anos, a homossexualidade foi retirada da
classificação das enfermidades pela Organização Mundial de
Saúde. O Conselho Federal de Psicologia considera que a for-
ma como cada um vive a sua sexualidade faz parte da identida-
de do sujeito e deve ser compreendido na sua totalidade, não
constituindo a homossexualidade doença, distúrbio ou perver-
são e que o psicólogo pode e deve contribuir com o seu conhe-
cimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualida-
de, permitindo a superação de preconceitos e discriminações.
Com essa visão, editou a Resolução 01/99 de 22.03.99, na qual
resolve que:
\u201cArt. 1º - Os psicólogos atuarão, segundo os princípios
éticos da profissão, notadamente aqueles que disciplinam
a não-discriminação e a promoção e o bem-estar das
pessoas e da humanidade.
Art. 2º - Os psicólogos deverão contribuir, com seu co-
nhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o
desaparecimento de discriminações e estigmatizações
contra aqueles que apresentam comportamentos ou prá-
ticas homoeróticas.
Art. 3º - Os psicólogos não exercerão qualquer ação que
favoreça a patologização de comportamentos ou práti-
cas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tenden-
te a orientar homossexuais para tratamentos não solici-
tados.
Parágrafo único \u2013 Os psicólogos não colaborarão com
eventos e serviços que proponham tratamento e cura das
homossexualidades.
Art. 4º - Os psicólogos não se pronunciarão nem partici-
parão de pronunciamentos públicos, nos meios de comu-
nicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos
sociais existentes em relação aos homossexuais como
portadores de qualquer desordem psíquica \u201d(Conselho
Federal de Psicologia, 1999, Resolução 01/99, p. 2).
 Sexualidade e educação para a vida
Apesar dos novos Parâmetros Curriculares Nacionais
incluírem a sexualidade como tema transversal, muitas escolas
ainda tratam o assunto como conteúdo de biologia ou ciências.
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Tratar apenas dos aspectos biológicos da sexualidade é reduzí-
la ao mecanismo reprodutivo e esvaziá-la de afeto. Como su-
gere Paiva (2000), o principal objetivo dos programas de pre-
venção \u201cdeve ser estimular e colaborar para a autoconstrução
do sujeito sexual e do cidadão (com direitos a serviços públicos
de qualidade e a tomar decisões informadas)\u201d (p.51). Entende-
mos a educação para a sexualidade como indispensável para a
construção da cidadania.
São possíveis ações educativas dentro das unidades de
saúde, desde que não reproduzam o discurso moral e inibidor
contrário à educação libertadora. As ações podem ocorrer intra
ou extra muros. Dentro do serviço, algumas experiências com
grupos de apoio têm trazido grandes avanços para a inclusão
da sexualidade integral como tema de saúde pública.
\u201cO simples fato de estar em grupo conversando sobre
sexualidade parece ter uma função de ruptura do isolamento
social reservado ao tema sexo. Em todos os grupos que acom-
panhamos, sem exceção, a frase mais falada espontaneamente
pelas mulheres é: \u2018só de perceber que eu não sou a única
assim já é um grande alívio\u2019. A socialização das idéias, fan-
tasias e dificuldades relativas à sexualidade parece exercer uma
influência intensa no sentido de perceber que a própria sexuali-
dade não é \u2018estragada\u2019, \u2018sem valor\u2019 e nem \u2018anormal\u2019 perante
as outras pessoas.\u201d (Riechelmann, 1993, citado por Ribeiro, 1993,
p. 301).
É muito comum a escola solicitar palestras sobre sexu-
alidade, prevenção da gravidez na adolescência, prevenção das
DST/Aids e outras ao serviço de saúde. Não havendo outras
ações, a palestra por si só tem pouco valor, ela se encerra em si
mesma. Mas, se a palestra servir como contato com a comuni-
dade, servir para diminuir as dúvidas e encurtar o caminho até
o serviço de saúde, pode ser de grande valia. A palestra pode
ainda ser substituída por um bate-papo ou mesmo por uma
capacitação para professores ou grupo de jovens multiplicadores.
O psicólogo precisa ter abertura, receptividade e inte-
resse pelo tema e ter a capacidade constante de rever sua ati-
tude e seus conhecimentos para melhor lidar com a sexualida-