Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


DisciplinaDesenvolvimento na Adolescência14 materiais92 seguidores
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mundo em construção... Seria
isso, ou estamos negando as especificidades da época e desse
público-alvo?
Se temos adolescência, não temos como deixar de fa-
lar da instituição familiar e muito menos da escola, e devemos
nos lembrar que o surgimento dos colégios tem relação com o
que Foucault denominou de a grande internação. A escola tem
também o viés de controle social, de segregação, de exercício
de poder sobre uma dada categoria. É evidente que ela não é
apenas isso, mas sua arquitetura clássica, sua hierarquia, sua
segmentação do saber, seus processos de avaliação, enfim, todo
o seu modus operandi guarda estritas relações com outras
instituições bem menos nobres e que hoje estão a ser banidas
da vida social. Olhando os prédios dos colégios clássicos, das
escolas públicas, teríamos como lhes negar uma filiação
\u201carquitetônica\u201d com o panoptismo \u2013 também presente no hos-
pital, no hospício, nas prisões, cujo modelo se fundamenta na
proposta de um zoológico?
Para além dessa superfície estrutural \u2013 e por que não
dizer estruturante \u2013 temos que considerar que, por óbvio, a es-
cola não cumpre apenas essa função de controle social, mas
também não tem conseguido deixar claro aos seus jovens cole-
giais que a produção de conhecimento é o trabalho por exce-
lência que a sociedade elegeu para exercerem nessa etapa de
suas vidas. Duas questões então se nos apresentam: o que a
escola tem a ver com a produção do conhecimento? Em que
medida sua forma de operar esvazia, desqualifica e idiotiza os
jovens, incluindo-os num processo de alienação insuportável que
os leva também a desconsiderá-la, desqualificá-la e mesmo
destruí-la? Por outro lado, não é esse um fracasso que tem
contribuído para que os jovens tentem se inscrever no social,
pelas vias da divergência, do conflito, do confronto, da adrenalina,
numa tentativa de que a sociedade os reconheça como atores
sociais, partícipes da vida comunitária?
Há culturas inúmeras, e é certo que todas criaram op-
ções para lidar com o momento de passagem do mundo infantil
para o mundo adulto. Há rituais de passagem, há práticas e
exigências aplicadas aos jovens para que sejam aceitos no mun-
do dos adultos. Certo, por conseguinte, que há um momento em
que se rompe a infância e se ingressa nessa condição de passa-
gem. O mancebo é um progenitor em potencial. Nele, a força
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física e a explosão hormonal denunciam sua nova condição. A
rapariga abre-se em flor, capaz da gestação e da maternidade.
Ambos estariam, fisiologicamente, em condições de ingressar
na sociedade e nos rituais dos adultos.
Talvez a hora de trocar as pantomimas infantis e todo
seu encanto de ludismo pela experiência prática de ser partícipe
na vida adulta, atores, protagonistas, cidadãos, seja uma emer-
gente necessidade humana. É assim nas sociedades mais pri-
mitivas e nelas não se desautoriza esse ingressar num novo
campo de participação social, pelo contrário, criam-se rituais
de passagem, abrem-se os caminhos, conduzem-se os mance-
bos à nova condição. Mas o que dizer de nossa sociedade?
Ariès (1981, citado em Velho & Figueiredo, 1981) lem-
bra-nos que os jovens de um passado não muito remoto instau-
ravam seus campos de domínio, cuja única condição se ligava a
suas habilidades, seus talentos, sua espertezas. O jovem fazia-
se adulto por suas conquistas, traçando no social o seu círculo
de domínio e era no ir-e-vir de um mundo social de certa forma
frouxo e permissivo a novas conquistas que se abria o espaço
para sua nova inscrição. Segundo entende,
\u201cA família se hipertrofiou, como uma célula monstruo-
sa, quando a sociabilidade da cidade (ou da comunidade
rural) se restringiu e perdeu seu poder de animação da
vida. Tudo se passa como se a família tivesse, então,
tentado preencher o vazio deixado pela decadência da
cidade e das formas urbanas de sociabilidade. Daí por
diante, essa família invasora, todo-poderosa e onipresente
pretendeu responder a todas as necessidades afetivas e
sociais. Constatamos que ela fracassou, seja porque a
privatização da vida sufocou exigências comunitárias
incoercíveis, seja porque foi alienada pelos poderes. O
indivíduo pede hoje à família tudo que a sociedade exte-
rior lhe recusa por hostilidade ou indiferença\u201d (p. 13).
Não podemos deixar de reconhecer que a instituição
familiar se presta muito bem à maternagem, ao procriar e cui-
dar da infância, enredando-a em sua teia de afetos, em sua
novela familiar, em sua fantasia lúdica, que dá ao papai e à
mamãe essa aura de intimidade privada na mais pura concep-
ção do romantismo. Mas
a família, e particular-
mente a típica de classe
média, não cria o trân-
sito necessário à cons-
trução de um espaço de
participação social do
jovem mancebo. Não há
nela os mecanismos e os laços de endereçamento ao social e à
vivência da história que, enfim, o jovem não pode prescindir.
Ademais, é no seio da família que ele é, veladamente, proibido
de cindir o patrimônio familiar por algum deslize sexual.
Retornemos à adolescência e mais uma vez evoque-
mos Foucault para nos auxiliar em momento tão melindroso.
Ele, em suas andanças arqueológicas, consegue pinçar o
surgimento dos saberes psi enquanto conjectura de poderes,
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cuja prática de dominação impunha as especializações próprias
à condução daqueles objetos de estudo historicamente engen-
drados. A psiquiatria, enquanto saber médico, é, assim, uma
prática de dominação imprescindível ao disciplinamento do cam-
po social, quando os loucos de toda espécie precisavam ser
abordados e compartimentados em locais para não ofender à
nova ordem instituída e às assepsias que a razão reinante impu-
nha à cidade. Nessa mesma perspectiva, temos assistidos às
especializações e profusões discursivas sobre a categoria ado-
lescência. E nos interrogamos: por que esse exercício de domi-
nação sobre ela? Por que isso se faz tão presente nos dias
atuais? Que monstrengo é esse que se criou significando ado-
lescência como problema, enfrentamento, transtorno, violência,
drogas, descaminho, desrespeito?
Se considerarmos que há algo de histórico nisso tudo, a
produção de um determinado sintoma engendrado sociologica-
mente, nesses últimos tempos, inclusive com o seu par antagô-
nico \u2013 os especialistas, os hebiatras, os psicólogos de adoles-
centes, os educadores especiais, os juizados de menores
desviantes etc., somos obrigados a constatar que, para os nos-
sos jovens, temos fracassado como sociedade capaz de propi-
ciar-lhes rituais de passagem que os insira na vida social. Pelo
contrário, prolongamos a infância ao máximo e ao final lhes
impomos um contrato com cláusulas incompreensíveis, em que
trocam um dos momentos mais ricos da vida, de maior força e
beleza física, de densidade emocional, de criatividade, de sexu-
alidade exuberante, por um longo trecho em banho-maria, numa
atividade generalizada de acumular conhecimento, disciplina
monástica, para que o futuro os compense. O adolescente tem
dificuldade de manter esse pacto como teria qualquer um ao
trocar a vida pela clausura. É preciso, antes, lhe encher a alma
com promessas de recompensa noutra vida, como tão eficien-
temente as religiões nos proporcionam.
O fato é que, depois de toda a experiência longamente
vivida em nossos teatrinhos infantis, imitando papai e mamãe,
sonhando ser policial ou médico, professora ou dona de casa,
encomendando encantos de príncipes e de princesas, põe-se a
vida de molho, no que concerne à sua efetividade no social, de
participação na história, reduzindo-os a receptáculos de uma
juventude esvaziada, sem participação política, sem vida sexu-
al, sem opinião, sem direito efetivo à cidadania, até que um dia