Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


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autores (Coates &
Sant´anna, 2001; Pinto & Silva, 2001) focalizam a gravidez na
adolescência como um problema de saúde pública ou social.
Nesse enfoque, podemos ressaltar alguns de seus argumentos
mais significativos: (1) aumento do índice de gravidez na ado-
lescência nos últimos anos e sua contribuição para o cresci-
mento acelerado da população em geral; (2) efeitos nocivos na
saúde da mãe e do filho e (3) a suposição da contribuição deste
acontecimento na manutenção da pobreza.
O primeiro argumento está baseado no fato de a gravi-
dez adolescente tender a levar a jovem a procriar um maior
número de filhos num pequeno espaço de tempo entre eles,
fato que contribui para elevar a taxa de fecundidade em geral e
a taxa de crescimento da população. É importante que se faça
uma análise comparativa cuidadosa dos diferentes setores da
sociedade verificando em qual deles esse fenômeno se con-
centra. Diante dos dados de que a gravidez na adolescência
tem aumentado nos últimos anos, apontamos três fatores que
podem ter contribuído para esse dado: nas últimas décadas,
houve um aumento no número de adolescentes em termos rela-
tivos e absolutos, e esse fato torna o fenômeno da gravidez do
adolescente mais evidente. Outro fator importante é o fato de
que a taxa de fecundidade dos grupos de mulheres mais velhas
tem diminuído mais do que a das jovens, levando a que a pro-
porção de filhos de mulheres mais jovens seja maior que no
passado. E, por último, o acesso maior das classes populares
da sociedade ao sistema de saúde tornou mais evidente não só
a gravidez nessa faixa da população como as condições precá-
rias em que ela se dá.
Em relação ao segundo argumento, vale ressaltar que
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Realce
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Realce
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a correlação positiva entre a idade em que ocorre a gravidez e
o risco de problemas de saúde depende dos setores da popula-
ção em que ocorre a gravidez. Aqueles que apresentam condi-
ções inadequadas da mãe em relação à nutrição e ao acesso ao
sistema de saúde tendem a corroborar para maior incidência
de agravos à saúde. Nesse sentido, não é a idade em que
ocorre a gravidez nem os fatores biológicos associados à mes-
ma que, por si só, constituem riscos relevantes. Esses riscos
estão muito mais associados a interação com as condições de
nutrição, de saúde e à falta de atenção e cuidados dispensados
à mãe, ou seja, as condições sociais e culturais em que a gravi-
dez ocorre. Esses fatores têm muito mais peso nas preocupa-
ções relativas à saúde da mãe e do filho do que a idade e/ou
fatores biológicos. Certamente, subtraímos os casos em que a
gravidez se dá em idades muito precoces, quando podem apre-
sentar conseqüências negativas em relação à saúde (Coates &
Sant´anna, 2001; Stern, 1997). Esses fatos apontam para a ne-
cessidade de o setor de saúde ter maior intervenção para assis-
tir a essa população, dar conta dos agravos e procurar abrir
espaços para discussão sobre prevenção das possíveis gravi-
dezes indesejadas.
É importante ressaltar que a gravidez na adolescência
é um assunto que deve envolver diferentes setores de nossa
sociedade, tais como os setores de comunicação social, do sis-
tema educacional e outros espaços comunitários, principalmen-
te se falamos de prevenção, pois muitas vezes os casos che-
gam ao setor saúde para uma intervenção posterior e uma pre-
venção futura. É verdade, também, que nem sempre o setor
saúde está atento ao seu papel de promoção de saúde e pre-
venção de doenças, restringindo, muitas vezes, sua atuação à
assistência no sentido apenas curativo.
Recentemente, argumentos ligam a gravidez na ado-
lescência à pobreza, vendo-a como um mecanismo que contri-
bui para sua transmissão e também como fator perpetuador
dessa situação dentro de
um círculo vicioso. As-
sim, a gravidez é percebi-
da como elemento que
impossibilita a conclusão
da escolarização, limitan-
do por sua vez a obten-
ção de empregos com melhor remuneração, fato que conse-
qüentemente também limita o acesso dos filhos a recursos que
permitiriam seu melhor desenvolvimento.
O fato de a gravidez na adolescência muitas vezes es-
tar associado à pobreza não necessariamente implica que seja
um fenômeno que leve a essa situação e que, por sua vez, so-
mente ela leve à sua perpetuação. Essa forma de argumenta-
ção deixa de fora outros fatores de diferentes ordens (econô-
micas, sociais e políticas) associados às condições de pobreza
de uma sociedade e cria a expectativa de que a erradicação da
gravidez na adolescência contribua para diminuir a pobreza. É
importante ressaltar que muitas adolescentes que engravidam
já o fazem dentro de setores sociais cujas condições econômi-
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cas, nutricionais e de saúde em geral são precárias, e muitas já
se encontravam fora do sistema educacional antes de
engravidarem.
Melhor seria que fizéssemos uma análise mais ampla
considerando as condições sócioeconômicas e culturais dos di-
ferentes grupos sociais, com intuito de uma maior aproxima-
ção das causas principais que concorrem para a gravidez na
adolescência. Para alguns grupos, a gravidez na adolescência
faz parte de seu modo de vida, de sua trajetória de vida para
formar uma família. Para outros grupos, a gravidez adolescen-
te é vista e vivida como uma saída, mesmo que falsa, em muitas
ocasiões, para problemas de violência familiar e abuso, ou mes-
mo como uma forma de adquirir valor social, \u201cter um lugar ao
sol\u201d, ou um papel a desempenhar nessa sociedade. Assim, as
verdadeiras razões pelas quais a gravidez adolescente constitui
um problema social não são, como se supõe, a sua suposta co-
laboração para o crescimento descontrolado do número de gra-
videzes, as péssimas condições de saúde e a pobreza da popu-
lação, mas para o aumento e a maior visibilidade da população
adolescente, para a persistência das condições de pobreza da
população e para a falta de oportunidade para as mulheres.
É importante rever alguns pressupostos em relação a
esse fenômeno. Muitos problemas que se atribuem à gravidez
na adolescência estão vinculados a como concebemos ou atri-
buímos valor à sexualidade adolescente. Uma visão negativa
ou repressora cria maior obstáculo para o acesso à informação,
à educação e à preparação para exercer a sexualidade de uma
forma prazeirosa e responsável. Parte da questão reside em
como o adulto qualifica o fenômeno e nas formas como as ins-
tituições sociais (família, escola, instituição religiosas e setor
saúde) interpretam e intervêm.
Gravidez como possibilidade na vida e
 não como desvio no desenvolvimento \u201cnormal\u201d
Podemos considerar que cada etapa fisiológica marca
a passagem de um momento da vida para outro, principalmente
se pensarmos na possibilidade de vivenciar novas experiências
como o mesmo corpo que se conhecia até então. O nascimen-
to, poder andar, se comunicar com palavras, menstruar,
engravidar etc., são exemplos dessas passagens. Entretanto, a
definição de que essas passagens são causas necessárias de
distúrbios emocionais desconsidera o sentido social e simbólico
dessas etapas. Afinal, diferentes contextos e momentos históri-
cos determinam a forma de enfrentamento das situações. Se-
rão, por exemplo, as produções coletivas, datadas historicamente,
que definirão a gravidez na adolescência como atividade, ade-
quada ou não, para a época. Se desconsideramos a significa-
ção social do acontecimentos, teremos que pensar a gravidez
e a reprodução como constituídas de processos naturais imutá-
veis, com características eternas (Ramminger, 2000; Reis, 1998).
Por outro lado, podemos pensar que a gravidez constitui
um espaço no qual se articulam