Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


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significações sociais e
singulares. Para tanto, é preciso perceber as significações que
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ela tem para cada sujeito, o qual está atravessado por um
contexto determinado. Podemos dizer que é o resultado de um
passado significativo e provocador de efeitos futuros,
expressando o entrecruzamento de aspectos da história pessoal
e de mitos socialmente estruturados.
Na verdade, é importante perceber também que o sujeito
se posiciona diante da estrutura de sua sociedade e de seus
símbolos. A mesma sociedade que limita e regula a gravidez
alimenta, de uma forma subjacente, a noção social da gravidez
como \u201crealização da mulher\u201d, como critério de saúde e
maturidade, dando um lugar diferenciado socialmente à mulher,
muitas vezes percebido como de destaque ou de ganho. Esse
enfoque torna-se mais importante em sociedades ou setores
nos quais há pouco oferecimento de opções reais à mulher
diferentes da maternidade, tornando inócuas e ou pouco efetivas
as estratégias, por exemplo, de contracepção entre as
adolescentes.
Certamente, existem preocupações legítimas em rela-
ção à gravidez na adolescência em termos da saúde das mães
e dos filhos, porém parece que suas causas têm sido equivoca-
damente compreendidas. As condições sociais e culturais em
que ela tende a ocorrer têm muito mais peso que a idade e os
fatores biológicos e psicológicos relacionados a ela; ressalta-
mos que isso não se aplica aos casos de gravidez em idade
muito precoce na qual há conseqüências negativas para a saú-
de da adolescente.
Reduzir a gravidez a apenas um conjunto de sintomas
orgânicos ou a dificuldades emocionais numa consulta da grávida
com o profissional de saúde é empobrecer todo o processo e
perder oportunidades de trazer seu significado à tona para o
sujeito e poder implicá-lo no processo.
Outra reflexão que se faz situa-se no fato de que há,
dentro da formação acadêmica científica, a tendência de se
lançar sempre um olhar parcial aos
acontecimentos, isto é, a
preparação, na nossa cultura, para
tratar da doença, do enfermo, e com
essas mesmas armas, enfrentar a
gravidez e o parto. Assim, a mulher
grávida, quando entra no âmbito do
sistema de saúde, se transforma em
\u201cpaciente\u201d doente, e é atendida em
função de sua patologia considerada esta como os sintomas
orgânicos individuais apresentados.
Cuidar da gravidez na adolescência de forma separada
da realidade psicossocial mais ampla é negar que o processo se
acha determinado por essa realidade, deixando de fora questões
como o fato de que uma gravidez pode ser desejada ou não,
dependendo não só das condições psicológicas individuais, mas
também de condições sociais. Ser mãe pode ter valor numa
sociedade que precise de população e ser desvalorizado numa
sociedade onde haja superpopulação e pobreza. Pensar que a
mulher pode alcançar sua maturidade e realização não só através
da maternidade, mas também atingi-la através de outros ganhos
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e campos como o profissional, político etc...
O pós \u2013 parto, na mesma linha de raciocínio que se
limita aos sintomas orgânicos e a prescrições, sustenta uma
visão muito parcial do processo. Encontramos poucas referên-
cias na literatura, e quando as achamos, as referências mais
freqüentes sobre essa fase falam das vivências, depressões e
angústias ligadas ao parto, prescrições comportamentais de cui-
dados com o bebê e a amamentação. Pouco é falado e escuta-
do sobre o sentido, a significação desse momento não só para o
sujeito, mas para a sua realidade social mais próxima, trazendo
conseqüências futuras para a vida e o desenvolvimento desse
sujeito e seu filho. Há, principalmente para a adolescente, um
reviver de conflitos anteriores e algumas colocações novas im-
portantes que merecem atenção, tais como: \u201csou ou não ca-
paz de cuidar de meu filho\u201d, \u201cminha mãe ou sogra faria
melhor?\u201d, \u201csou capaz de decidir a partir das diferentes
sugestões \u201cexperientes\u201d do meu circulo familiar?, \u201co que
tenho que pagar ou ser punida por ter tido um filho?\u201d,
\u201cquem sustenta e decide os cuidados de meu filho e/ou mi-
nha vida?\u201d, \u201cque mudanças se fazem necessárias ou são
importantes neste momento de vida?\u201d
Olhando a \u201cgravidez na adolescência\u201d
como acontecimento
Participar do processo de dar sentido à gravidez é lu-
gar legítimo dos profissionais de saúde mental. Procuramos,
até então, situar a questão da gravidez na adolescente impri-
mindo um olhar o mais amplo possível. Isso se deve ao fato de
que pensamos o lugar da saúde mental, no atendimento da ado-
lescente grávida, como aquele que aponta o lado singular dos
acontecimentos para as adolescentes e para as equipes de saú-
de envolvidas no atendimento.
No atendimento dessas adolescentes, sugerimos:
- desnaturalizar o caráter de desvio do curso natural do desen-
volvimento humano, buscando, com a adolescente, o sentido da
gravidez para ela;
- mapear os riscos sociais da gravidez, incluindo condições de
vida e suporte familiar;
- garantir a continuidade da vida escolar e o planejamento do
desenvolvimento profissional;
- no caso da gravidez não desejada, abrir espaços de fala e
escuta que possibilitem a elaboração da situação singular e aju-
dem a abrir o leque de possibilidades e recursos para as deci-
sões de enfrentamento da gravidez;
- garantir o atendimento multiprofissional, no pré-natal, no parto
e no pós-parto;
- incluir a relação e o parceiro, sempre que possível, na cena da
gravidez;
- inserir os adolescentes do sexo masculino nos programas de
atendimento da gravidez na adolescência e nas atividades de
prevenção voltadas para a sexualidade e a saúde reprodutiva.
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Quando considerar a gravidez na
 adolescência como de risco?
Segundo Guimarães (2001), tem havido, nos últimos
anos, um crescimento, embora leve, da fecundidade na
adolescência inicial (dez a 14 anos); estudos têm relacionado
uma fecundidade maior em setores nos quais a renda e a
escolaridade são menores. Essas diferenças de fecundidade,
relacionadas ao nível social dos adolescentes, agravam as
possíveis conseqüências biológicas da gravidez nessa fase da
vida, que podem, em parte, ser controladas por um pré-natal
adequado. Entretanto, esse pré-natal é dificilmente acessível à
população mais desfavorecida.
Cabe ressaltar que, nos casos de gravidez na adoles-
cência inicial, as preocupações em relação às conseqüências
negativas em termos da saúde das mães e dos filhos se situam
muito mais nos fatores singulares ligados ao crescimento e de-
senvolvimento de cada adolescente do que propriamente na idade
cronológica previamente estabelecida. O deslocamento do
enfoque de risco biológico para o risco psicossocial na saúde
pública provoca um redirecionamento das questões. O foco
principal da gravidez na adolescência e suas repercussões bio-
lógicas passa a ser dirigido para a adolescente que engravida e
as múltiplas conseqüências psicossociais advindas da gravidez.
Nesse sentido, a gravidez pode ser reconhecida como
problema quando for indesejada, sem assistência adequada,
conduzindo a vulnerabilidades para a adolescente. É importante,
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para o profissional, partir do pressuposto de que as adolescentes
constituem um grupo homogêneo e considerar a heterogeneidade
das adolescências, das pessoas, dos grupos sociais, podendo
escutar e se colocar diante da pluralidade e diversidade de
valores e motivações.
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Referências
Coates, V. & Sant\u2019anna. M. J. C. (2001). Gravidez na adolescência. Em L. A. Françoso, D. Gejer & L. F. N. Reato (Orgs.),
Sexualidade e saúde reprodutiva na adolescência. São Paulo - SP. Atheneu.
Guimarães, E. B. (2001). Gravidez na adolescência: fatores de risco. Em M. I. Saito & L. E. V. Silva