Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


DisciplinaDesenvolvimento na Adolescência14 materiais92 seguidores
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do homem envolto com o seu meio ambiente, o que parece ser um retorno ao tratado ecológico de
Hipócrates. Mas será em 1946 que a conceituação de saúde começa oficialmente a mudar: a Organização Mundial de Saúde, na
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publicação dos seus documentos básicos, expõe no preâmbulo da sua Constituição uma nova definição, reconhecendo que a saúde
é um completo estado de bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de distúrbios ou doença.
Mas, apesar do avanço na definição de saúde da Organização Mundial de Saúde, o fato é que essa conceituação proposta
pela OMS é ampla, subjetiva. Para o médico sanitarista Carlos Gentile de Melo, essa definição aparece como algo inatingível,
utópico, pois não leva em conta as imperfeições humanas e as infidelidades do meio. Parece, então, importante apontar que a
relação saúde/homem se dá através da instrumentalização do ser humano pela via da informação, que possa potencializar o seu
enfrentamento frente às adversidades da vida contemporânea, ou seja, o seu devir, a sua história.
 Surge, dessa forma, a visão social de saúde, passando a compreender que o homem é, geralmente, mais um produto das
suas relações com o seu ambiente do que somente com os seus dotes genéticos, ou seja, a saúde de um povo pode ser determinada
não só por sua raça, mas por suas condições de vida.
 Dentro dessa visão, passa a existir uma nova conceituação do processo saúde-doença, na qual são levados em conta os
determinantes sociais do adoecimento, assim como os \u201cmodos de vida\u201d como desencadeador ou não da higidez.
 E a Psicologia? Como se insere nessa questão? O que se pode dizer é que a Psicologia tem sido, em grande parte, ancorada
no estudo do desvio, do patológico, o que a coloca dentro de uma visão quase sempre conservadora de saúde. No Brasil, só
recentemente começaram a surgir pesquisadores preocupados com uma conceituação mais ampla de saúde.Um dos resultados que
já aparecem dessas reflexões é a definição da atuação do psicólogo, hoje, enquanto um profissional de saúde, entendida esta saúde
agora, não apenas como ausência de doença, mas na direção de uma visão sistêmica de saúde, privilegiando uma atuação coletiva,
junto com outros profissionais, para buscar instrumentalizar a comunidade com o objetivo de promover a saúde da população.
 A promoção de saúde, dentro da Psicologia, é definida, na visão sistêmica de saúde, através da compreensão de que fatores
relacionados ao modo de vida dos homens estarão atuando de forma direta nas reais possibilidades de uma vida saudável ou não.
Com isso, a concepção de saúde é ampliada para além dos limites da ausência de doença e está ligada a vários aspectos presentes
na vida do homem, como moradia, lazer, educação, trabalho, etc. Será o equilíbrio desses componentes da vida diária que irá formar
o grande mosaico da saúde humana.
 Mas, para o psicólogo atuar nessa direção, ele deve ter clareza sobre a concepção de fenômeno psicológico que abarca essa
visão. O fenômeno psicológico deve ser compreendido como algo constituído nas e pelas relações sociais e materiais. Essas
relações não são entendidas como algo externo que influencia o fenômeno psicológico que é interno, mas como aspectos de um
mesmo movimento de construção. Dessa forma, não é possível falar em mundo interno sem falar do mundo social que o constitui.
 Especificamente neste nosso trabalho, discutiremos sobre um determinado sujeito psicológico, diante de um momento da sua
vida: a adolescência. Quem é, para nós, psicólogos, esse adolescente que se constrói através das relações de sua vida com os
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outros? É o adolescente concreto que se caracteriza basicamente por sua condição de pertencer à natureza, sua condição de ser
social, ou seja, é definido pelo conjunto dessas relações sociais, sua condição de ser histórico, em que o seu grau de desenvolvimento
dependerá da estrutura social mais ampla na qual ele se encontra inserido e finalmente, sua condição de pertencer à natureza, mas
poder se diferenciar dela através da possibilidade de produzir meios de sobrevivência, que serão as matrizes geradoras de todas as
relações humanas estabelecidas e, conseqüentemente, da produção da cultura e do conhecimento. É com esse olhar que buscamos
desenvolver nossas reflexões sobre o fenômeno da adolescência neste nosso trabalho.
Ao longo dos capítulos, serão discutidos diferentes tópicos, através de três grandes eixos temáticos: 1. Psicologia e adoles-
cência: uma revisão crítica, 2. práticas em campo: questões emergentes da adolescência e 3. situações de vulnerabilidade.
Na \u201cPsicologia e adolescência: uma revisão crítica\u201d privilegiou-se uma visão crítica e histórica nas discussões, buscando
superar a visão naturalizante e a-histórica, ainda muito presente na Ciência Psicológica, destacando uma visão contextualizada, na
Psicologia, para poder compreender as condições concretas da vida social que geraram a construção do fenômeno da adolescência.
Já nas \u201cpráticas em campo: questões emergentes da adolescência\u201d, são apontadas situações com as quais o psicólogo se
depara e as possibilidades de intervenção que apontam para uma ação interdisciplinar, por entender que a Psicologia por si só não
dá conta do complexo fenômeno humano, necessitando de outros interlocutores. Dentre essas situações complexas, encontramos
questões como: sexualidade, DST/AIDS, gravidez na adolescência, saúde física e mental e projetos de vida dos adolescentes e
jovens.
E, finalmente, nas \u201csituações de vulnerabilidade\u201d aparecem questões envolvendo circunstâncias que colocam o adolescente
em \u2018situação de risco\u2019 pessoal e social, incluindo os usuários de drogas, adolescentes em conflitos com a Lei, adolescentes
institucionalizados. Essas situações fazem parte do cotidiano em nosso país, envolvendo milhares de adolescentes e jovens e
tornam-se um desafio para uma atuação crítica e comprometida, do profissional de Psicologia, diante de um contexto tão complexo
e contraditório.
 Esperamos que este material possa contribuir para desencadear discussões e reflexões entre nossos colegas psicólogos e
psicólogas, no seu cotidiano junto aos adolescentes brasileiros. Longe de pretender esgotar o assunto, o nosso maior desejo é que
este trabalho se torne uma pequena abertura para futuras interlocuções.
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A Psicologia e a adolescência
Parte I
Capítulo I
Adolescência:
Uma perspectiva crítica
Sergio Ozella
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A concepção vigente na
psicologia sobre adolescência está
fortemente ligada a estereótipos e
estigmas, desde que Stanley Hall a
identificou como uma etapa marcada
por tormentos e conturbações
vinculadas à emergência da
sexualidade. Essa concepção foi
reforçada por algumas abordagens
psicanalistas que a caracterizaram como uma etapa de
confusões, estresse e luto também causados pelos impulsos
sexuais que emergem nessa fase do desenvolvimento. Erikson
(1976) foi o grande responsável pela institucionalização da
adolescência como uma fase especial no processo de
desenvolvimento ao introduzir o conceito de moratória,
identificando essa fase com confusão de papéis e dificuldades
de estabelecer uma identidade própria, e como um período que
passou a \u201cser quase um modo de vida entre a infância e a idade
adulta\u201d (p. 128). A partir dessas fontes, instalou-se uma
concepção naturalista e universal sobre o adolescente que passou
a ser compartilhada pela psicologia, incorporada pela cultura
ocidental e assimilada pela homem comum, muitas vezes através
dos meios de comunicação de massa.
Debesse (1946) é um dos autores que mais claramente
marca essa posição naturalista e universal ao propor uma es-
sência adolescente. Para o autor, a adolescência não é uma
simples transição entre a infância e a idade adulta; ela possui
uma mentalidade própria com um psiquismo